Volatilidade intensa e há razões. Fundamentos agora devem prevalecer

Difícil está estabelecer o que é mais importante, mas há razões fundamentadas que justificam o aumento do pessimismo e a volatilidade.

Parece chegado o momento em que os recursos, em especial especulativos forjados a partir da montagem de operações de “carry trade”, intensificarão o movimento reversivo e isto impactará na demanda do mercado de câmbio à vista e diminuirá a presença destes no mercado futuro por estar implícita a desmontagem das posições compradas, porém, poderão ser sucedidos no mercado futuro pelo aumento da demanda dos bancos, caso permaneçam sendo os geradores de liquidez no mercado de câmbio à vista.

A demanda por linhas de financiamentos em moedas estrangeiras, para lastrear o carregamento das posições vendidas, poderá deparar-se com custos externos aviltados como reflexo da revisão de perspectiva de nota de crédito do Brasil para negativa pela agência de rating Moody´s, e até mesmo pela crescente expansão do endividamento dos bancos no curto prazo para continuarem executando a tarefa que competiria ao BC de dar liquidez no mercado à vista.

Eventual ônus adicional na captação de linhas de curto prazo poderia inviabilizar o carregamento das posições vendidas pelos bancos, caso venham a neutralizar o ganho de arbitragem com o rendimento do cupom cambial. Neste caso, os bancos perderiam, em tese, interesse em dar continuidade a geração de liquidez, salvo se o BC fornecer linhas de financiamento em moeda estrangeira aos bancos a custos competitivos, caso contrário poderá ter que ser o autor da oferta de liquidez.

O BC atuar desfazendo-se de reservas cambiais num cenário adverso para o país poderia incitar movimentos especulativos contra o real, que teria a sua fragilidade muito exposta. E, neste contexto teria que atuar firmemente no mercado à vista, começando por cobrir os US$ 18,0 Bi das posições vendidas dos bancos, algo como 5% das reservas cambiais, e poderia não alcançar resposta positiva com o aumento da oferta de swaps cambiais, já que a efetiva demanda por “hedge” já estaria em situação de conforto com os US$ 94,0 Bi “em ser” colocado pela autoridade monetária.

A Moody’s revisou de “estável” para “negativa” a perspectiva da nota de crédito soberana do Brasil, que foi reafirmada em “Baa2”, tendo como motivos o crescimento baixo, piora nos indicadores da divida e a deterioração no sentimento dos investidores. E, pior, sinalizou que há poucos sinais de retorno do crescimento do Brasil ao nível potencial no curto prazo.

Parece-nos que o Brasil ficou mais próximo do “downgrade” do que recuperação no curto prazo, pois a política fiscal não está cumprindo o compromisso revisado e o superávit primário tende a ficar abaixo da meta.

Fez uma menção que tem sido contumaz em nossos comentários diários: “Embora consideremos que provavelmente qualquer nova administração introduzirá medidas políticas para reverter a trajetória de crescimento, a perspectiva negativa reflete a tarefa crescentemente desafiadora enfrentada pelo próximo governo”.

Como temos salientado com frequência, o mercado está precificando no curto/curtíssimo prazo eventos que despenderão longo período para maturação, desde que os programas de governo sejam factíveis e capazes de gerar credibilidade, confiabilidade e atratividade para investidores nacionais e estrangeiros.

O ajuste no câmbio dando-lhe outra forma de gestão depende diretamente da recuperação de fluxos de recursos externos potenciais que permitam a desintervenção atual do BC para dar credibilidade à moeda e isto na nossa visão só seria possível, desde que as expectativas se consolidem na prática, a partir de 2016.

Ainda na linha de fatos negativos, destacamos que pesquisa divulgada pela Pew Research Center apontou que a avaliação da economia do Brasil tem a maior queda entre 44 países.

Importante destacar também interessante e oportuna matéria contendo entrevista com Francisco Levy, da UBS Wealth Management, divulgada pelo jornal Valor na edição de ontem, onde é destacado que o juro no Brasil cedeu mais que nos outros emergentes, tendo assim pouco “prêmio” para se proteger se a liquidez global mudar ficando mais exposto em caso de chocoalhão nos mercados.

Este é um detalhe importante, visto que não se pode contar muito com a eventual liquidez patrocinada pelo BCE a partir de outubro, sendo mais relevante e impactante se o FED vier a alterar a sua política monetária, provocando a alta do juro, e com este quadro o Brasil seria provavelmente o que mais sentiria a saída de recursos e de forma prioritária entre os emergentes.

O Banco Central (Fed) deve encerrar seu programa de compra de ativos em outubro e começará a aumentar as taxas de juros em algum momento em 2015. Um estudo realizado pelo Banco Central (Fed) de San Francisco publicado na segunda-feira indicou que as autoridades do banco central estimam que as taxas subam mais cedo do que as expectativas dos mercados. Os T-Bills de 10 anos apontavam rendimento “yeld” de 2,50% ontem.

Até a poucos dias atrás, tendo sido objeto de nossos comentários, os preços dos ativos demonstravam estar mais afetados, até com erros crassos, mas inegavelmente especulativos, pelas pesquisas eleitorais, precificando no curto prazo eventos que se vierem a ser confirmados no próximo governo ocorrerão no médio e longo prazo. Entretanto, há sinalizações fortes de que os fundamentos voltam a prevalecer provocando um choque na formação dos preços dos ativos ao conduzi-los a maior proximidade com a realidade e, na margem, as pesquisas eleitorais são observadas.

Não há espaço para milagres e nem expectativas imediatistas, seja qual for o governo que seja eleito, o Brasil tem pela frente um perverso desafio de reconstruir-se com novas diretrizes macroeconômicas, não sem antes proceder a reparação do que não deu certo e que levou o país a recessão, por enquanto, técnica, para depois ocorrer o realinhamento consubstanciado em amplo programa de governo visando reconquistar credibilidade, confiabilidade e atratividade, para que então ocorram os investimentos, intensifiquem-se os fluxos de recursos externos em busca de oportunidades no setor produtivo, recomponha-se a competitividade do nosso setor industrial para que as exportações sejam retomadas, e a economia gere emprego e renda.

Se tudo der certo, então na linha final surgirá o câmbio permitindo uma nova forma de gestão.

A ação do BC no momento ainda amortece parte da propensão à depreciação da moeda nacional, mas deve ocorrer a fragilização gradual desta estratégia de defesa do preço por parte do BC. Ontem, enquanto o real se depreciava em torno de 0,54%, idêntico ao peso mexicano, o Rand Sul Africano perdia 1,18% e a Lira Turca 1,15%, mas ao inicio dos negócios o preço atingiu R$ 2,29, repercutindo a tendência.

Por enquanto, o preço da moeda americana tende a apreciação refletindo a realidade presente, para posteriormente no longo prazo depreciar-se, naturalmente, se houver uma série de acertos imprescindíveis para a retomada do crescimento do país.

 

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