Com fundamento em nossas observações do comportamento do mercado de câmbio à vista e futuro, vinhamos, diariamente, há semanas sugerindo que para conter a alta do preço da moeda americana o BC deveria massificar a oferta de liquidez em ambos os segmentos, já que a formação da taxa cambial atual está fortemente contaminada pela especulação instalada no mercado futuro de dólar.
No mercado à vista de forma estratégica leiloando linhas de financiamento em moeda estrangeira (venda à vista com recompra futura) aos bancos, levando-os a serem os geradores finais da liquidez ao mercado, através da formação de posições vendidas, que ficam suportadas pelas linhas que contratarem com a autoridade monetária.
Após relutar, o BC resolveu a partir do último dia 20, ofertar as linhas de financiamentos, o que repetiu ontem, acumulando ao todo a oferta de US$ 8 bi de moeda efetiva, permitindo aos bancos a formação de um colchão de liquidez apto a responder a eventual aumento da demanda que venha a ocorrer, como consequência de saídas de recursos investidos no Brasil, em decorrência, principalmente, das perspectivas e/ou efetivação da redução do programa de incentivo monetário promovido pelo FED com foco na recuperação da atividade econômica americana.
Mantendo a persistência de suprir os bancos com linhas de financiamento, o BC afasta a hipótese de que o mercado à vista possa vir a sofrer problemas de liquidez e, também, se poupa da necessidade de ter que realizar leilões de vendas diretas ao mercado, o que teria impacto redutor das reservas cambiais brasileiras. No caso das linhas que conjuga venda à vista de moeda efetiva com compra futura, as reservas cambiais não sofrem mutação no conceito de liquidez internacional.
Contudo, é imperativo que ao mesmo tempo promova um choque de oferta no mercado futuro de dólar com leilão de contratos novos de “swaps cambiais” e não somente rolagem, da mesmo forma com foco em maximizar a oferta neste segmento, tornando-a abundante.
O mercado de câmbio futuro está sob forte especulação, em especial dos fundos estrangeiros, que na medida em que realizam giro de suas posições, com o intuito de elevar a taxa cambial, aproveitam a alta para gradualmente ir se desfazendo da posição comprada que detêm e consolidar os lucros.
Se compararmos os números das posições líquidas em bilhões de dólares do mercado futuro/derivativos, nas datas de 14 e 21, a leitura conduzirá ao rápido entendimento do que afirmamos.
Nas duas datas as posições em Cupom Cambial permaneceram praticamente inalterada.
Porém, as posições em dólar futuro tiveram mudanças em bilhões de dólares, a saber:
BANCOS: 14 US$ 15,8 V e 21 US$ 14,3 V reduziram US$ 1,5 V com compras.
FDOS NACIONAIS: 14 US$ 4,0 C e 21 US$ 5,8 C aumentaram US$ 1,8 C
FDOS ESTRANGEIROS: 14 US$ 10,3 C e 21 US$ 6,9 C reduziram US$ 3,4 C
Não houve, em termos líquidos, crescimento das posições dos estrangeiros, mas sim redução, o que sugere que estavam efetivamente promovendo giro focando a elevação da taxa cambial e, em concomitância, foram desmontando suas posições compradas com a realização de lucro.
Portanto, a suposta pressão existente de demanda no mercado futuro nada mais é do que especulação bem articulada por parte dos fundos estrangeiros.
Assim, perde suporte a ideia de que os estrangeiros fossem os autores da demanda por hedge em decorrência da saída das posições que detinham em NTN.
Se o BC continuasse rolando diariamente posições de “swaps cambiais” não inibiria este movimento por parte dos fundos estrangeiros. Por isso, sugerimos, ontem, que realizasse forte oferta de contratos de “swaps cambiais” novos, com poder efetivo de impactar no mercado futuro.
Pode até acontecer do BC não colocar o lote ou só ter sucesso na colocação parcial, mas a demonstração evidente do propósito de combater a especulação ficará muito evidente, e nenhum especulador sente tranquilidade quando vê riscos de perder seus ganhos.
O mercado de câmbio, tanto à vista quanto futuro, precisa neutralizar movimentos especulativos através da antecipação estratégica da liquidez a partir de intervenções por parte da autoridade monetária, neutralizando expectativas negativas, já que o mercado por sí só está sem capacidade de gerá-la de forma suficiente.
Ontem, tendo em vista o expressivo “overshooting” ocorrido na taxa cambial, a Presidenta Dilma convocou uma reunião extraordinária do CMN.
A decisão anunciada ao final do dia veio absolutamente em linha com o que temos preconizado em nossas análises diárias. O BC vai prover os dois segmentos, à vista com leilões via os bancos com linhas de financiamentos (venda à vista e recompra a prazo), e no futuro com oferta continua de swaps, fomentando a liquidez antecipada à demanda.
E mais, divulgou em nota:
“Com o objetivo de prover “hedge” (proteção) cambial aos agentes econômicos e liquidez ao mercado de câmbio, o Banco Central do Brasil comunica que iniciará, a partir desta sexta-feira, 23/8, programa de leilões de swap cambial e de venda de dólares com compromisso de recompra. Esse programa se estenderá, pelo menos, até 31 de dezembro de 2013.
> Os leilões de swap ocorrerão todas as segundas, terças, quartas e quintas-feiras, quando serão ofertados US$ 500 milhões por dia. Às sextas-feiras, será oferecido ao mercado, por meio de leilão de venda com compromisso de recompra, linha de crédito no valor de US$ 1 bilhão. Se julgar apropriado, o Banco Central do Brasil realizará operações adicionais.”
No nosso entendimento a estratégia agora está perfeita e deve provocar a derrocada do preço da moeda americana no nosso mercado, pois neutraliza os focos de especulação ao antecipar em grande parte a oferta de liquidez à demanda efetiva, e ainda deixar claro que não se limitará aos volumes programados, podendo ir além se necessário.
A despeito dos inúmeros e relevantes problemas que estão presentes na economia brasileira no momento, que passa também pela queda de fluxos positivos de recursos externos, a estratégia do BC neutraliza estes fatores negativos na formação do preço da moeda americana, pois promove a liquidez abundante de divisas no mercado de câmbio, que é o fundamental.
Expectativa? Reversão das expectativas em torno do preço do dólar, que deverá sofrer depreciação gradual retornando a patamar em que não contribua com pressões inflacionárias.
Como temos salientado, não há especulação que se instale em ambiente com farta liquidez.
