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Desmonte de posições com lucros, contendo queda forte da Bovespa e alta do dólar

O comportamento do mercado em torno da Bovespa e do preço da moeda americana que sinaliza volatilidade e sugere que há, efetivamente, um movimento de ajuste com desmonte de posições no mercado acionário, com uma estratégia de contenção de quedas abruptas da Bovespa pela precipitação, e, ao mesmo tempo contendo alta mais acentuada do preço do dólar.

Embora, por hábito, grande parte das análises “procurem” fatores externos para fundamentar as oscilações no nosso mercado doméstico, temos salientado que há, no momento, no Brasil razões e motivos propagadores de duvidas e incertezas potencialmente impactantes nos ativos de preços variáveis do nosso mercado e que impõe aos investidores estrangeiros e nacionais posturas mais defensivas.

Os fluxos financeiros de saídas de recursos no país tendem a se manter acentuados doravante, após terem atingido liquidamente em março US$ 10,472 Bi, com bases nas perspectivas de desmonte de posições no país por parte dos investidores especulativos estrangeiros.

A volatilidade é consequente do fato de que não é interessante precipitar com este movimento quedas abruptas na Bovespa, o que corresponderia a perda de parte do lucro até então alcançado, e também evitar uma alta mais acentuada do preço da moeda americana que imporia perda aos investidores estrangeiros também na conversibilidade na saída das divisas.

Há estratégia no desenvolvimento desta tendência presente visando preservar ao máximo os ganhos, mas evidentemente a sustentabilidade relativa não será capaz de evitar o viés de baixa, ainda que com espasmos de altas pontuais, pois para vender e sair precisa haver quem esteja disposto a comprar, e naturalmente isto cria um viés de baixa na Bovespa e uma inevitável tendência de alta do preço da moeda americana, embora o BC esteja sempre atento ao comportamento do preço do dólar dada a sua facilidade de contaminar a inflação de forma rápida.

O FMI ontem em seu relatório realizou revisão das projeções em torno do Brasil elevando a projeção de crescimento do PIB para 2,3 em 2018, porém ancorando a elevação em visão prospectiva favorável em relação ao desempenho da economia, emprego, renda e consumo, fatores que estão sendo mais bem avaliados internamente e que tem determinado a redução das projeções do nosso mercado financeiro em relação ao PIB.

O ritmo da atividade econômica vem desapontando os mais otimistas, da mesma forma a recuperação do emprego, renda e consumo.

O FMI também vê o mundo em crescimento sincronizado, sendo isto verdadeiro quando focamos os países de economia desenvolvida ou até emergentes de grande porte, mas o Brasil ainda tem muitos problemas que entravam uma melhor dinâmica da atividade econômica e gestão da politica fiscal, dada a dificuldade do governo em obter apoio sustentável de natureza politica para executar as reformas fundamentais e absolutamente necessárias para a retomada de forma sustentável.

O país tem um quadro sucessório totalmente indefinido em relação à Presidência com menos de 6 meses para as eleições e isto naturalmente gera duvidas e incertezas sobre “o que vem por ai” e determina uma retração de ânimos por parte dos investidores em conta de capital e, agora se intensificando, nos investidores especulativos nacionais e estrangeiros no mercado de renda variável.

Por outro lado a postura do nosso BC em persistir na redução da taxa SELIC, ancorada na queda da inflação, vai ao rumo contrario das posturas dos países desenvolvidos e mesmo alguns emergentes, e isto diminuem muito a atratividade e o apetite pelo Brasil, visto que grande parte dos capitais especulativos estrangeiros que fomentam a dinâmica dos preços variáveis dos ativos do nosso mercado, tem origem em operações de “carry trade” que vem perdendo margem.

O imbróglio prospectivo, envolvendo o contexto politico entrelaçado ao contexto judiciário, sugere que o investidor nacional e, principalmente, estrangeiro fique desencorajado e assuma postura defensiva, mantendo menor ação e maior observação.

Nossa percepção é que a tendência é de que ocorra um ajuste gradual, com “administração” para que não seja abrupto o que provocará volatilidade constante, com viés de queda na Bovespa e alta no preço da moeda americana, ainda que o BC mantenha sua habilidosa intervenção visando evitar a exacerbação do preço, protegendo desta forma à ocorrência de impactos inflacionários.

Entendemos também que as projeções em torno do Brasil-2018 precisarão ser ajustadas a um cenário não tão otimista quanto tem sido considerado, passando inclusive por melhor avaliação a conveniência ou não de nova redução da taxa SELIC.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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