Na medida em que dados e indicadores reais da economia global consolidam um cenário sinalizando perda do dinamismo de atividade econômica e até retração efetiva nas mais importantes, é crescente a perda do suporte consubstanciado tão somente na “esperança”, que até então vinha sendo forjada com a
superlativação de um ou outro dado melhor e baixa consideração ao contexto geral envolvido pela crise.
Este fato pode vir a determinar movimento mais intenso nos preços de ativos financeiros e nas “commodities”, motivando “sell off” nas principais bolsas de valores, levando os investidores a represarem recursos em papéis que considerem seguros, em especial os T-Bills americanos, em detrimento das operações de risco e de resultados variáveis.
Importante observar que os T-Bills americanos vem se valorizando ao longo da semana, o que deixa evidente o aumento da demanda destes papéis, que reduziu a rentabilidade “yeld” de 1,84% na terça-feira para 1,66% hoje pela manhã.
Por isso, reveste-se de importância maior o simpósio do próximo dia 31 em Jackson Hole, Wyoming, onde ocorrerá pronunciamento do Presidente do FED, Ben Bernanke, que poderá dar um posicionamento da autoridade monetária americana sobre eventual plano de estímulo a atividade econômica, como ficou insinuado na ata da ultima reunião do órgão, ou se, como tem se tornado contumaz, fará a retórica de que está atento e apto a agir mas sem nada tornar efetivo, protelando, mais uma vez, o “sonhado” QE3 pelo mercado financeiro.
Desta forma, acreditamos que até o final do mês, o mercado americano, que não se mostra muito otimista, conviverá com esta expectativa, o mesmo devendo ocorrer com os demais mercados globais. É bastante provável que os mercados assumam um cenário desfavorável apostando no pior cenário, e com isto, sinalizem de forma mais forte ao FED a necessidade de agir, numa espécie de pressão visando induzir a autoridade a sair do discurso e ir a prática.
Como temos salientado, acreditamos que a opção do FED é de protelar medidas mais agudas até o momento pós-eleição, procurando evitar maior acirramento nas discussões entre democratas e republicanos nesta parte final da campanha eleitoral. Planos mais amplos e abrangentes somente serão possíveis com o apoio do congresso americano e, a expectativa é que este se renove com maioria pró novo governo, para que possa ser factível e implementável.
Os emergentes mais dinâmicos como China e Índia dão sinais claros de perda de atividade econômica acima do previsto, e este fato agregado a situação da Europa, Estados Unidos e Japão, certamente afetarão ainda mais os demais países emergentes.
É notório que este complexo cenário não encontrará superação no curto/médio prazos, sendo um problema que poderá encontrar solução no longo prazo, pois depende de fortes reordenamentos, em especial na eurozona, que devem ensejar muitos debates e reuniões, visto que à margem dos problemas de financiamentos dos desmandos de política fiscal cometidos, há a questão da legitimação política da unificação da moeda na eurozona, que deve ensejar mudanças profundas estruturais.
Portanto, a crise certamente tende a se arrastar ainda ao longo deste 2º semestre e o ano de 2013, e muito provavelmente ainda deve piorar para depois revelar sinais de melhora.
No Brasil, as apostas para a recuperação já neste 2º semestre estão sendo gradativamente colocadas agora para 2013, mas, como sempre ressaltamos, não somos uma ilha, se a economia mundial não se recuperar, também teremos obstáculos, até porque o modelo do consumo atrelado a crédito denota esgotamento e a inadimplência esta presente.
O governo, com amplo crédito ao Banco Central do Brasil, demonstrou claramente ter vislumbrado as más perspectivas da crise internacional bem antes do nosso mercado financeiro, razão pela qual de forma desafiadora impôs e vem impondo substantivo corte na taxa de juro, fator de estímulo aos investimentos e ao consumo, porém as repercussões positivas desta atitude ainda não repercutiram como esperado na atividade econômica.
O Brasil ainda é um país caro e este fato está ganhando mais destaque na medida em que economias concorrentes na atratividade de investimentos externos vêm se remodelando mais rapidamente com desonerações abrangentes e, portanto, gerando melhores oportunidades para os investidores.
Mas o governo, ainda que de forma tardia, resolveu dar início ao programa de concessões/privatizações focadas na infraestrutura de logística do país, bastante deteriorada e incompatível com um país que detém a 6ª maior economia do mundo e que receberá importantes eventos internacionais nos próximos anos. A expectativa é que a nossa contumaz burocracia não derrote, mais uma vez, uma iniciativa positiva e bem intencionada.
No mercado de câmbio não vemos possibilidades efetivas do dólar ter preço abaixo de R$ 2,00, não só porque o governo assim desejar, mas também pelas condições de fluxo cambial para o país que tende a se consolidar negativo. Eventuais pressões forçando apreciação do real podem surgir de forma especulativa, como reflexo dos posicionamentos robustos e opostos existentes no mercado de derivativos na BM&FBovespa.
Estas pressões poderão ocorrer mais pontualmente ao final do mês, mas o BC já deu mostras de que está atento e pronto a agir.
Contudo, já é perceptível que há um viés de alta no preço da moeda americana, que deve revelar-se gradualmente, na medida em que o fluxo for se tornando negativo de forma consistente, e as posições “compradas” dos bancos no mercado a vista foram se exaurindo. Segundo o BC, em 21, os bancos detinham nestas posições o total de US$ 1,64 Bi, o que não é muito.
É só uma questão de tempo para esta alta gradual se tornar mais visível e perceptível.
