O mercado de câmbio brasileiro tende a confirmar nova banda no câmbio, ainda que permaneça administrado pelo BC, mas não decorrente somente da vontade do governo, tendo agora fundamentos técnicos que promovem o ajuste da alta da taxa cambial.
A esta expectativa contrapôs-se a realidade de que o Brasil, após as mudanças da política de juros e de cerceamento normativo das brechas que fomentavam a forte especulação no mercado de derivativos, perdeu atratividade, seja pelo fato do real ter voltado a ser considerada uma moeda normal e não mais propícia para especulação, confirmando não ser adequada para reserva de valor; seja pelo pouco atrativo das Bovespa, face as velhas “blue chips” revelarem grande interferência do governo e não ter ocorrido novos IPO´s atrativos; seja pela queda acentuada do juro no pais, que desincentiva as arbitragens.
A força restritiva aos movimentos especulativos atingiu também normativamente os limites máximos que os bancos podem manter em suas posições “vendidas” no mercado à vista, que ficaram muito reduzidos.
Este fator de contingência da expansão das posições “vendidas” dos bancos tem um efeito de apreciar o real até o momento em que estejam confortavelmente suportadas nos limites, proporcionando que na contra partida captem reais a custo barato, mas tendem a pressionar a alta quando ficam próximas de romper estes limites e, se o BC não fizer oferta de dólares a vista com leilões, o mercado pode ter problemas de operacionalidade pela escassez de liquidez.
Devemos estar nos aproximando deste ponto, o BC está certamente assistindo para não deixar isto acontecer, e, neste caso não comporta oferta de “swaps cambiais” visto que estes não são dólares disponíveis mais, tão somente, instrumentos financeiros indexados à variação cambial em uma das pontas. Portanto, o BC está próximo a ser compelido a realizar leilão de venda no mercado à vista.
A banda tende a ser elevada, sob o argumento de que o próprio mercado vem determinando a alta, contrariando aqueles que ainda viam o BC dando sustentação para que o preço não caísse abaixo de R$ 2,00, e o governo “permitirá” pois será mais um incentivo à combalida indústria nacional que precisa ser estimulada a retomar investimentos e aumentar a competitividade no exterior e de quebra, ocorrer impacto também nos preços dos concorrentes importados.
É preciso manter controle “cirúrgico” sob este quadro presente no mercado à vista, por isso o BC deve estar monitorando a ocorrência da alta com a questão da liquidez no mercado à vista.
Deixar subir, sem deixar ocorrer atropelos no mercado a vista por falta de liquidez.
Como dissemos ontem, esta e a próxima semana por serem curtas, do ponto de vista de dias úteis efetivos, tendem a ajudar a pressão sobre o preço da moeda americana, que assim poderá galgar novos parâmetros de banda cambial.
Certamente, o BC vai postergar ao máximo a efetivação de leilão de venda no mercado à vista, pois isto dará maior evidência à queda de ingressos de recursos no país, que até a pouca se via vitimado com “tsunamis”, que contrariamente as expectativas, não se confirmaram.
Por outro lado, a despeito do mundo global viver uma crise para a qual “não conseguem definir estratégias de saída”, o que sugere que 2013 possa determinar muita austeridade que acabará fazendo-o similar a 2012, e que já vem determinando a reformulação da maioria das projeções realizadas anteriormente com um entusiasmo demasiado.
No Brasil, o Ministro Mantega, incansável nos seus anseios e otimismos que podem estar cada vez mais distantes da realidade, continua propagando que a economia brasileira crescerá mais de 4% em 2013 e que os investimentos terão que crescer entre 8% a 10% em 2013.
Antecipou seu prognóstico que a economia cresceu 1% no 3º trimestre a ritmo anualizado de 3,5%, já abaixo das projeções recentes.
Mas, o Brasil não é uma ilha e o modelo de crescimento do país continua muito atrelado ao consumo estimulado a crédito, já que não há poupança, e está próximo da exaustão da capacidade de endividamento familiar, segundo o BC, algo como 45%. Este modelo funcionou como estratégia de curto prazo num determinado momento anterior, pois não torna o crescimento sustentável, ocorrendo o que costumeiramente se nomina como “voo da galinha”.
Por isso, o discurso pode ser, até por dever de função, otimista, mas as decisões e implementações devem estar alinhadas com a realidade, razão pela qual acreditamos que a indústria nacional precisa ser reabilitada para reconquistar espaço no mercado externo, cada vez mais competitivo, e no mercado interno, com o encarecimento do produto importado, e assim sentir-se estimulada ao investimento para aumentar produção, emprego, renda e arrecadação.
A única via que vislumbramos é pelo preço da moeda americana, visto que o governo não tem folga para mais estímulos tributários, pois convive com dificuldades para cumprir o superávit primário, e as deficiências estruturais não são solucionáveis no curto/médio prazos.
Adicionalmente, para atenuar a ressaca do fluxo cambial para o próximo ano, como já dissemos, o governo precisará flexionar o prazo mínimo para ingresso de empréstimos sem alcance do IOF de 6%.
No cenário externo continuam prevalecendo muitas incertezas.
Nos Estados Unidos, o Presidente Obama convidou os lideres da maioria e minoria no Senado e Câmara para debater soluções para o “abismo fiscal”. Pretendendo ter massa crítica mais abrangente, está programando uma série de encontros na Casa Branca com empresários, sindicatos, e outros representantes da sociedade. O “abismo fiscal” é o grande ponto de interrogação sobre o futuro do país, pois mal solucionado poderá levar os Estados Unidos à recessão e ao aumento do desemprego, e, a rigor este é um quadro que não interessa a ninguém, muito menos aos americanos.
Na Europa desencontros e mais desencontros entre os lideres sobre as diretrizes a serem adotadas. Alemanha quer austeridade; França quer foco no desenvolvimento; FMI sugere que se as politicas de austeridade devem mudar se comprometerem o crescimento.
A Grécia é recorrente a contínuos socorros financeiros, transparecendo ser um caso insolucionável.
Afinal, parece que sem sacrifícios não será possível sair da problemática situação.
A melhor síntese destas discussões na Europa parece ter sido a apresentada por Pedro Passos Coelho, Primeiro-Ministro português: “Não há duvida de que processos de ajustes que envolvam austeridade tenham efeitos recessivos. Mas não podemos culpar o remédio pelo estado da doença”. Por vezes é preciso falar o óbvio para que todos entendam!
O Japão encolheu no 3º trimestre pela primeira vez desde o ano passado, com menor investimento empresarial. O quadro é complexo, as empresas reduziram planos de investimentos para poder responder a perdas já que estão enfrentando concorrência num ambiente em que o yen esta forte. A tendência presente é a recessão. A produção industrial japonesa recuou 4,1% em setembro ante agosto, com o índice de utilização da capacidade caindo 5,5% em setembro ante agosto, ficando em 81,1.
Por tudo que se vê, há muito para precaução e sensatez ao estabelecermos diretrizes, e, o que tiver que ser feito precisará ser antecipado “antes que se encontre o muro”, e haja tempo para exercitar a superação com decisões firmes.
Otimismo é o oxigênio natural para motivar, mas devemos trabalhar com as realidades perceptíveis, para não termos um ano de 2013 desalentador.
