A arquitetura do mercado financeiro global pode estar iniciando uma mudança relevante, pois o “downgrade” dos Estados Unidos para AA+ conduz inevitavelmente os investidores à reflexão, mas a despeito dos movimentos de “sell off” esperados…
A arquitetura do mercado financeiro global pode estar iniciando uma mudança relevante, pois o “downgrade” dos Estados Unidos para AA+ conduz inevitavelmente os investidores à reflexão, mas a despeito dos movimentos de “sell off” esperados para os mercados de renda variável, não se tem expectativa de que o mesmo ocorra em relação da T-Bills do Tesouro americano, pelo simples fato de que as economias mais importantes estarem “compradas” fortemente nestes papéis, o que não recomenda qualquer insinuação neste sentido, e, ainda por não existir alternativa melhor do que os mesmos quando ocorre o “flight to quality”.
Movimentos pontuais, com grande parcela especulativa, sobre moedas como franco-suíço e yen, devem perder consistência, visto que a reação defensiva dos bancos centrais da Suíça e do Japão acaba por colocar em risco estes movimentos, que acabam criando muita volatilidade nas cotações das moedas, o que lhes tira a sustentabilidade como reserva de valor. Chegaram a atingir até 1% de alta frente ao dólar na abertura hoje.
O ouro é ativo de proteção para investidores mais experientes, mas já atinge preços elevadíssimos e podem não ser sustentáveis. O futuro para dezembro subiu hoje US$ 58,10 ou 3,5% com o preço de US$ 1,709.80 a onça troy, mas já chegou a US$ 1,718.20 tendo recuado.
Os sinais preocupantes emitidos pela Bolsa de Israel, que opera aos domingos, com queda de 7%, foram o alerta para os demais mercados agirem no sentido de evitar que a 2ª feira apresente um cenário de pânico, já que o anúncio do “downgrade” dos Estados Unidos pela S&P ocorreu após o encerramento dos negócios na 6ª feira.
Autoridades monetárias europeias tiveram reunião neste final de semana no sentido de ordenar esforços para evitar a deterioração dos mercados, anunciando compras dos títulos da Espanha e Itália. Posteriormente, em separado, os países integrantes do G-7 emitiram comunicado alinhando suporte as eventuais turbulências em países em dificuldades.
Tanto Estados Unidos quanto Europa enfrentam crises relevantes e que podem determinar o retorno da recessão econômica.
O centro da questão é o descontrole fiscal agravado, mas nos Estados Unidos, o FED já fez o que poderia ter sido feito: reduziu drasticamente o juro e injetou massivo montante de recursos, porém ainda não conseguiu restabelecer a confiança da sociedade para a retomada do consumo, base do seu PIB, o que inibe o investimento privado, e, como consequência não ocorre geração de empregos nos níveis desejados e nem crescimento de renda.
Na Europa, o BCE precisará fazer mais do que já fez. Provavelmente terá que reverter a tendência de elevação do juro e voltar a reduzi-lo e comprar títulos de todos os países com explosivos descontroles fiscais, não somente deste ou daquele, mas generalizadamente. Pode ter problemas com recursos para atender o “tamanho” da empreitada.
Há uma evidente percepção de que tanto os Estados Unidos, quanto a Europa têm sérios problemas de gestão dos descontroles fiscais. Certamente, está percepção em relação aos Estados Unidos ganhou demonstração inconteste na disputa ferrenha ocorrida no Congresso americano, a qual vem sendo atribuída a causa maior do “downgrade” aplicado pela S&P.
Não há, na acepção do termo, um pânico nos mercados internacionais, mas as baixas das bolsas de valores são em percentuais significativos, deixando evidente que ocorrerá o “fly to quality” e a busca da liquidez. O comportamento das bolsas americanas será referencial.
O “fly to quality” tende a ser na direção dos T-Bills americanos, pela inexistência de outra alternativa e pelo fato das maiores reservas cambiais mundiais estarem atreladas a estes papéis, que deverão apresentar forte demanda e certamente fecharão suas curvas de juros “yeld”. Contudo, parte considerável poderá ser preservada como liquidez em caixa, atitude contumaz quando as incertezas se acentuam.
As bolsas americanas sinalizam abertura com quedas acima de 3,50%, com o petróleo caindo 3,14% cotado a US$ 84,15 o barril na Nymex e ouro com valorização de 3,0% cotado para dezembro a US$ 1,700.00. Os T-Bills de 10 anos sinalizam rentabilidade em torno de 2,41% poderá acentuar a queda se a tendência de valorização dos títulos persistir. O US$ se valoriza 0,75% ante o Euro cotado a US$ 1,4168 e cai ante o Yen 0,92% cotado a Yens 77,70 por US$.
É inevitável que os emergentes sofrerão reflexos fortes nos seus mercados de renda variável com o movimento de “fly to quality” dos investidores estrangeiros, acentuando o “sell off” em suas bolsas de valores, com destaque para a BOVESPA, que poderá liderar a queda mundial.
Gradualmente, o Brasil tende também a perder investimentos estrangeiros na renda fixa, pois nestes momentos a rentabilidade perde atratividade ante a postura de segurança e liquidez dos investidores.
Haverá reflexos também no fluxo de IED´s para o país, pois as corporações tendem a preservar a liquidez, passando, inclusive, as matrizes externas a recomendar às suas filiais as remessas de lucros, dividendos e juros s/capital para reforço de caixa.
O crédito externo tenderá a ser menos acessível e os custos mais elevados, o que impacta na disponibilidade de recursos na nossa economia para o crédito ao consumo.
É possível que tenhamos que fazer ajustes nas projeções para o déficit em transações correntes.
Deverá se acentuar o movimento de saída de recursos do Brasil colocando pressão sobre a formação do preço da moeda americana, abrindo oportunidade para que os exportadores com moeda americana “estocada” no exterior relativa a exportações já liquidadas ingressarem com as mesmas.
Nos parece que desta vez, as “commodities” agrícolas e metálicas não serão o refugio do “fly to quality”, o que deve fragilizar seus preços, até porque o cenário mundial das grandes economias estará mais propenso à recessão do que recuperação da atividade econômica no curto prazo.
Naturalmente que este fato, tornado efetivo, favorecerá o governo no seu embate com a inflação e poderá ser mais eficiente do que elevação da taxa de juro SELIC, que poderá não ser mais elevada.
A taxa cambial será pressionada podendo romper o preço de R$ 1,60, porém, entendemos que será ocorrência pontual, tendendo a retornar ao entorno de R$ 1,60.
Evidentemente, que os “players” posicionados “vendidos” no mercado de derivativos devem estar em situação de desconforto, mas houve avisos frequentes das autoridades monetárias sobre a possibilidade de mudança de cenário, o que levou o governo a adotar as medidas “prudenciais” de intervenção no mercado de derivativos, aplicando inicialmente o IOF de 1%, nas condições definidas.
Analisando estes posicionamentos, fica a sensação de que estão sem liquidez para serem alterados, em especial no cupom cambial-DDI. Na última sexta-feira tudo indica que os bancos promoveram liquidez de US$ 1,1 Bi no mercado futuro de dólar, que reduziu suas posições compradas líquidas neste segmento e reduziu as posições liquidas dos “hedge funds” vendidas no mesmo montante.
