O mercado financeiro ainda procura entender o alcance da determinação normativa estabelecendo o compulsório de 60% sobre as posições “vendidas” diárias dos bancos no mercado à vista, no excedente a US$ 3,0 Bi ou a média aritmética do…
O mercado financeiro ainda procura entender o alcance da determinação normativa estabelecendo o compulsório de 60% sobre as posições “vendidas” diárias dos bancos no mercado à vista, no excedente a US$ 3,0 Bi ou a média aritmética do patrimônio de referência, o que for menor.
Um “tiro” aparentemente numa vidraça, o mercado de câmbio à vista, mas que estilhaçou todos os vidros do grande edifício que constitui o extraordinário ambiente de envolvimento das complexas engenharias financeiras que utilizam e interferem no valor relativo da moeda nacional, o real, e, a moeda americana, o dólar, aqui e no exterior.
Todas as pedras do tabuleiro estão e continuarão a ser mexidas de forma intensa e as repercussões poderão ser substancialmente maiores do que as decorrentes das análises iniciais.
O BC novo apressou-se em destacar que a medida não é uma ruptura com as diretrizes do BC antigo, mas é inegável que o é. Afinal, quem estimulou a criação das posições “vendidas” pelos bancos foi o BC, que com os seus leilões de compra diários de dólares retirava volumes maiores do que o superávit do fluxo cambial . Não é preciso avaliar dia a dia, mês a mês, antecedente, basta verificar os dados do encerramento do ano: Fluxo cambial positivo: US$ 24,0 Bi. Compras do BC no ano: US$ 41,0 Bi. Posição “vendida” dos bancos: US$ 17,0 Bi.
Evidentemente que as posições dos bancos registram inúmeras transações diariamente, que contudo, são detidamente registradas nas estatísticas do fluxo cambial, que resultou em superávit de US$ 24,0 Bi. Houvesse o BC limitado suas compras a US$ 24,0 Bi ou menos e, em tese, não haveria posição “vendida” no mercado à vista, salvo um ou outro posicionamento que se compensariam entre si.
O real apreciado era utilizado como integrante da política monetária, como coadjuvante a taxa SELIC, para contenção das pressões inflacionárias. E o posicionamento “vendido” dos bancos era elemento fundamental para obtenção do objetivo.
Não há razão para atribuir-se ao fluxo cambial a causa da apreciação do real, visto que a totalidade do superávit foi retirado pelo BC. A causa é exatamente o excesso de compras além do superávit.
No nosso entender está evidente que o novo governo atuará sobre as causas da inflação e não sobre as consequências, e isto permitirá liberar o real das estratégias que o conduziam à apreciação.
Esta atitude do BC foi uma sinalização forte para o mercado de câmbio e para todos os segmentos correlatos, de que a matriz da gestão do controle da inflação será alterada para valer, e que taxa SELIC e taxa cambial precisarão ter revistas suas projeções, já que não serão os pilares deste controle.
Nada deixará de ser afetado. Mercado futuro, operações com “carry trade”, cupom cambial, NDFs, etc., o ajuste será geral e, na ponta, o que não tem sido muito ventilado, poderá estimular os exportadores que estão com US$ 24,0 Bi “armazenados” no exterior a ingressarem as divisas no mercado, não tanto pela atratividade da tendente melhora da taxa da moeda americana, mas sim pela diminuição da possibilidade de continuarem rentabilizando aquele estoque com taxas e oportunidades brasileiras, mesmo mantidas no exterior. Os canais de acesso destes recursos de forma engenhosa começam a se estreitar.
Afinal, certamente não é a taxa cambial brasileira que inibe o ingresso destas divisas, já que uma eventual renúncia a rentabilidade brasileira em troca da rentabilidade americana é in-justificável.
Mas tudo ocorrerá com tranquilidade, o BC teve a sensatez de conceder prazo elástico e ainda deixar um limite substantivo de posição “vendida” para os bancos, por isso não haverá pressões exacerbadas sobre a taxa cambial, que, ainda com volatilidade, gradualmente deverá recuperar preço ao longo dos 90 dias.
Até porque os bancos precisarão adquirir estimados US$ 7,0 Bi do mercado para suas posições e desejarão fazê-lo a preços baixos e ao governo ainda é contributivo para o controle inflacionário, um breve período de real apreciado, até que estruture a nova matriz de controle.
Não se pode descartar que a medida normativa poderá ser revista em seus parâmetros e assim ir promovendo o ajuste das posições “vendidas” gradativamente, provocando os efeitos de desmanches da cadeia de posicionamentos correlatos sem causar muitos “ruídos”, mas alterando preços e indicadores.
Quanto aos fatores externos, o BC deverá continuar elevando suas reservas cambiais, mesmo com o elevado custo de carregamento, mas certamente, face ao conjunto de medidas adotadas desde outubro, a qualidade dos recursos ingressados no país deverá ser melhor.
O Brasil precisará ser “cuidadoso”, se resolver adotar medidas focando os recursos externos, visto que terá neste ano grande necessidade de financiamento, já que projeta um déficit em transações correntes da ordem de US$ 64,0 Bi.
