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Rali pró bolsa e dólar são movimentos sinérgicos e podem ter “data de validade”!

B3 em alta consistente e dólar mantendo viés de baixa são movimentos sinérgicos consequentes da ampla liquidez financeira do mercado global que busca acomodação em mercados, em especial emergentes, que proporcionem interessantes investimentos no mercado acionário devido aos preços estar atraentes quando “dolarizados”.

Contudo, dependendo da intensidade dos movimentos de valorização das ações e desvalorização do dólar e a resultante do equacionamento de ambos que impacta na formação dos preços acionários, a validade deste movimento poderá ser maior ou menor.

O que se presencia nas recentes semanas são correções abruptas tanto na B3 quanto no dólar, o que promove a alta do preço das ações de forma rápida e pode gradualmente impactar retrocedendo o ímpeto dos investidores.

Enquanto as ações tiverem configuração “barata” certamente a B3 carreará grande parte dos investimentos estrangeiros que ocorre no momento, porém pode alterar com o encarecimento a seletividade natural por parte dos investidores em papéis de empresas mais sólidas no médio/longo prazos, como ligadas as commodities, e até relativa contração quando os papéis atingirem preços equilibrados.

Há que se destacar também o aumento considerável da participação dos investidores pessoa física nacional, provavelmente migrando do mercado tradicional de renda física profundamente afetada com a queda do juro, focando rentabilidade mais atraente.

Este é um fato positivo, porém há sempre a preocupação quanto a tolerância do investidor pessoa física as oscilações/mutações de preços das ações, em especial quando há perda de rendimentos, pois tradicionalmente desfazem suas posições.

Na realidade esta oportunidade do preço é algo pontual, visto que o quadro econômico brasileiro nada tem de atraente no momento e nem mesmo em suas perspectivas de curto prazo, exceto as empresas exportadoras de commodities agrícolas e pecuárias.

O Brasil está se beneficiando da dispersão do represamento de volumoso montante de recursos que promovem intensa liquidez no mercado global e que ocorre em decorrência direta de sinais de algumas economias globais de tendência a recuperação depois de fortemente afetadas pela pandemia do coronavírus, e, portanto, o que se presencia por aqui é consequência de fatores externos e o país é beneficiário, sem que, contudo, seja causa.

A colocação de papéis por parte do governo no mercado externo foi relevante para se ter a percepção em torno do Brasil, e poderá ensejar que empresas busquem realizar captações e isto seria positivo para o fluxo cambial, mas são poucos os setores que se sentem motivados, visto que quando e se necessário o mercado interno tem custos competitivos para as grandes corporações, na medida em que dificulta o acesso às pequenas/médias empresas.

Poderia se aventar que seria o momento de dinamizar os IPO’s mas na realidade o capital estrangeiro deseja neste momento papéis com preço “barato” e não normal, porque a perspectiva do país não é estimulante.

O Brasil ainda convive com o pico da pandemia do coronavírus e não encontrou convergência para a retomada havendo muitas discordâncias, e não tem perfeita convicção do “status” a que será conduzida a degradação da sua economia, por enquanto, de forma altamente insegura, inúmeros setores emanam projeções absolutamente empíricas.

Numa visão mais crítica, entendemos que ainda não se está no fundo do buraco, por isso não há como parar de cavar, o cenário da pandemia continua evolutivo negativamente e já há bastante desalento no setor produtivo que vem fazendo dispensas de empregados, cuja recolocação certamente não será fácil, pois a retomada da atividade tende a ser lenta.

O fato concreto é que só será possível ter-se melhor prospectiva quando houver tratamento para conter a disseminação do coronavírus e este é um assunto extremamente conflituoso no Brasil.

O Presidente do BC, Campos Neto, enunciou que tem expectativa de que a intensidade das saídas financeiras de recursos estrangeiros seja atenuada, mas não podemos perder de vista que o COPOM tende a proceder a um novo corte de 0,75 na SELIC na semana próxima e isto pode impactar negativamente porque o Brasil ainda tem algo em torno de US$ 70,0 Bi de investimentos estrangeiros financiando a Dívida Pública e que podem debandar um pouco mais.

No nosso ponto de vista o movimento da B3 de alta e do dólar de baixa é pontual, com data de validade até que as ações equilibrem os seus preços ao razoável em dólares.

Este viés do dólar de depreciação frente ao real pode até durar algumas semanas mais, porém não tende a ser sustentável de forma duradoura.

O otimismo é fortemente propagado pelo mercado financeiro que forja projeções entusiasmadas, mas na realidade há muito de emocional e pouco de racional, no nosso entender, sobre o que está realmente acontecendo.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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