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Percepções mutantes promovem dinâmica conturbada e volatilidade no mercado global

Um cenário absolutamente misto e com inúmeros vetores influenciando provoca mutações, volatilidade e diversidade na formação dos preços dos ativos no mercado global.

Causa mais evidente, insegurança e incerteza tendo no eixo da questão o retorno das preocupações com a pandemia do coronavírus , e que reconduz a avaliações mais céticas as perspectivas de retomada das atividades econômicas e que suscita efetivas dúvidas sobre o modelo em que poderão se desenvolver, se em V, W ou o temor de que possa ser em U.

Ganha evidência de que os Estados Unidos, maior economia do planeta, tenha menosprezado e relegado a efetiva importância da pandemia do coronavírus e agora conviva com números alarmantes que podem efetivamente retardar o alinhamento com o retorno das atividades econômicas sustentável.

Oportuno ressaltar a grande semelhança, guardada as proporções das dimensões das economias, do que ocorre nos Estados Unidos com a perspectiva do que poderá ocorrer com o Brasil, já que ambos tiveram posturas muito semelhantes no trato da pandemia e reconhecimento de sua efetiva capacidade destrutiva, e a pandemia está firmemente presente.

Acentua-se nos Estados Unidos a percepção de que tenha ocorrido um distanciamento entre a realidade e o comportamento da formação de preços dos ativos, com ênfase às bolsas, e isto motiva reversão de humor constante dada a alternância dos indicadores econômicos, bastante mistos, fato que guarda também grande semelhança com a Bovespa brasileira.

Dados das vendas de moradias novas nos Estados Unidos aumentaram 13,8% entre maio e junho, ficando acima da expectativa e o PMI (índice de gerente de compras) composto subiu de 47,9 em junho para 50,0 em julho, enquanto o de serviços avançou de 47,9 para 49,6 no mesmo intervalo e o PMI industrial foi de 49,8 para 51,3, ainda assim abaixo da projeções esperadas embora sejam dados preliminares.

O embate geopolítico Estados Unidos-China cria tensões, mas, em parte, tem muito a ver com o momento político americano que sinaliza possibilidade de derrota do Presidente Trump na busca da reeleição na eleição deste ano, e notoriamente há um viés político no conflito com o Presidente buscando recuperar votos perdidos.

O ambiente pré-eleitoral nos Estados Unidos envolvendo a Presidência revela sinais de tendência de liderança do candidato democrata e este fato implica em mudanças relevantes na economia, visto que diferentemente dos republicanos os democratas focam mais acentuadamente a tributação das empresas, o que foi bastante favorecido na gestão Trump.

A questão das techs também é perturbador, assim como a não efetivação do pacote americano de novo incentivo à retomada da atividade econômica e o aumento dos pedidos de auxílio desemprego.

Estrategicamente tanto Estados Unidos quanto o Brasil evidenciam objetivos similares no foco em suas moedas, ambos os governos “desejam” suas moedas mais fragilizadas para aumentar a competitividade de seus produtos no mercado externo e o encarecimento das importações que resultaria em apoio à indústria nacional.

O Brasil naturalmente busca construir uma atratividade que não detém no momento focando o “câmbio alto” como instrumento para tornar “barato” o país para atrair capitais estrangeiros, visto que perdeu apelo no mercado de renda fixa e no mercado de renda variável não há sustentabilidade face à notória percepção também de distanciamento dos preços das ações da realidade da economia.

O comportamento da moeda americana é no momento a referência de preço do real no nosso mercado, uma vez que não há efetivas razões internas de influência imediata e como tem comportamento mutante impacta no Brasil e quando se fragiliza e fortalece o real estimula o desmonte de posições especulativas ainda em volume expressivo no mercado futuro de dólar, tendendo, em tese, a provocar substantiva redução no volume de contratos diários naquele mercado e reduzir, em tese, a intensidade da volatilidade no mercado de câmbio.

O câmbio atravessa no Brasil um momento de estabilidade, assim entendido o fato de oscilar dentro de uma faixa entre R$ 5,10 a R$ 5,30, já que não existem no radar perspectivas de aumento de demanda ou de oferta e o BC se faz presente somente realizando as rolagens das posições vincendas de swaps cambiais, mas reflete diretamente o comportamento do dólar no mercado global que oscila e dá tração ao preço local, como na sexta entre R$ 5,16 a R$ 5,25, o que é muito e com uma volatilidade, sendo esta típica do nosso mercado, em torno de 18,7% um pouco abaixo da vista há 2 dias atrás.

Embora haja nas perspectivas para o Brasil riscos nem sempre validados como a relevância da pandemia do coronavírus fazer-se mais impactante nas projeções, já que o BC tem asseverado não ter o agravamento no seu radar e assim teria que rever suas projeções; crescimento da crise fiscal com a longevidade dos programas assistenciais e ainda certa desconsideração do desafio efetivo de reconstrução do legado relevantemente negativo da crise que pode frustrar as expectativas prognosticadas pelo governo, frustrando a retomada das atividades econômicas, decepções maiores com geração de emprego e renda, o País tem procurado conviver com uma visão otimista,

O conjunto de fatores apontados poderão até determinar mudança de humor mais acentuado na Bovespa e determinar movimento forte de realização, já que há na atualidade um descolamento da mesma com a realidade da economia, e influenciar o preço da moeda americana no nosso mercado, que até então estará à mercê predominantemente do comportamento direto do dólar no mercado global.

O fator perturbador no mercado de câmbio brasileiro é a volatilidade, que até tende a cair com a queda do volume de contratos, mas não a desaparecer, e embora o BC seja enfático em afirmar que está avaliando a anomalia dada a intensidade.

Acreditamos que o fato decorra de movimento especulativo de giro com contratos de pequena monta já que o hedge está barato, e que o BC saiba que o fator determinante é a taxa de juro baixa, mas que por razões políticas não pode declarar porque iria contra a estratégia do próprio governo que propaga “juro baixo e câmbio alto”.

No nosso entender, seria conveniente o COPOM não reduzir a taxa SELIC e manifestar-se encerrando o ciclo de baixas, isto poderia ser colaborativo do ponto de vista câmbio.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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