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Embate sino-americano é subterfúgio, nossos ativos repercutem nossos desacertos

Temos tido desde há muito tempo a visão errática, quem sabe conveniente, de atribuir os nossos males ao comportamento do mercado global, o ex-Ministro Mantega era um “craque” neste argumento, e desta forma olhamos mais “para fora” do que “para dentro”, onde efetivamente estão as causas maiores e fundamentais para o ambiente tenso que predomina no momento.

O embate sino-americano com forte participação do “estrategista” Presidente Trump segue causando abalos na economia mundial, mas daí buscar-se valorizar o fato para justificar os impactos no nosso mercado, quando o que não falta internamente são motivos e razões suficientes decorrentes não somente das dificuldades do governo com a oposição, mas, também, significativamente dos embates intestinos entre as alas militares e ideológicas que integram o próprio governo, é não querer enfrentar a nossa realidade de maneira frontal.

O clima político brasileiro é absolutamente hilário para não afirmar patético, com predominância de desencontros nas articulações políticas, mas inegavelmente com participação bastante contraproducentes dos próprios políticos ou mentores “integrantes” do staff governamental.

E isto tudo gravita em torno do momento em que se busca iniciar a discussão efetiva da Reforma da Previdência, que é fator vital para o país definir suas perspectivas futuras.

A situação fiscal brasileira impossibilita investimentos governamentais e o ambiente hostil prevalecente no todo inibe totalmente a decisão do setor privado realizar investimentos, já que as projeções sugerem cada vez menores o PIB para 2019, destruindo as possibilidades de geração de emprego, renda e consumo, e na ponta final melhora da arrecadação do governo.

O país convive com um contexto tenebroso onde todos falam e ninguém se entende, e assim, não há avanços consideráveis, mas certa estagnação preocupante.

Então, não é preciso ir buscar no setor externo fundamentos para o momento desalentador presente e que se torna evidente nas projeções de indicativos econômicos e no comportamento dos ativos no mercado financeiro.

O dólar cai no exterior e sobe no Brasil porque os especuladores no mercado futuro de dólar exploram o emocional com a tese do insucesso e realiza uma aposta inconsequente para um país que é sobejamente forte na questão cambial, absolutamente imune à crise cambial, defendido por um estoque de reservas de US$ 382,0 Bi e um déficit pequeno em transações correntes de 0,75%.

É bem verdade que o quadro presente da economia brasileira não incentiva investidores estrangeiros que se mantêm quase inertes neste ano, deixando evidente que observam sem agir o andamento da Reforma da Previdência, sem a qual o país ficará inviável. Por outro lado, não há fuga de capitais estrangeiros do país.

A BOVESPA repercute, a exemplo do que ocorre no mercado americano em relação às ações da principais empresas brasileiras, este estado de coisas no país, com sua economia em retração, diminuindo semana a semana, como evidencia o Boletim Focus, as projeções para o PIB que na última divulgação foi reduzida de 1,70% para 1,49%, queda significativa e que, acredita-se, continuará apresentando este viés nas próximas semanas.

Contudo, confirmando a nossa tese de que não há perspectiva fundamentada para o aviltamento do preço do dólar no nosso mercado, decorrendo tão somente do movimento especulativo dos estrangeiros no mercado futuro de dólar, que consideramos aposta de altíssimo risco, as projeções do Boletim FOCUS permanecem alinhadas com a nossa de R$ 3,75 ao final do ano.

O COPOM deve manter esta semana a taxa em 6,50%, não havendo razões para alteração e este fato deverá ser ratificado na reunião desta semana.

O IPCA tende a se situar em torno de 4,0% pois a fraqueza da economia é um antídoto forte para conter a inflação.

Enfim, o ambiente externo tem suas perturbações, mas os nossos males tem origem nas causas com que o Brasil convive internamente no momento, que são efetivas, o que coloca o país quase à margem do que ocorre no mercado global.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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