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Eleição afeta o emocional/psicológico no preço do dólar e não cabe BC intervir!

Temos destacado que os fatores externos têm, nesta fase pré-eleições, importância secundária no comportamento dos segmentos do nosso mercado financeiro, e que as efetivas causas da volatilidade e movimentos díspares em relação ao exterior decorrem do ambiente e fatores internos.

Dúvidas e incertezas que até então vinham sendo minimizadas pelos “players” do mercado, com raras exceções, se pontificam agora e causam perspectivas intranquilas, pois não otimizam possibilidades do país superar a grave crise econômica/fiscal que assola o país.

O tripé economia-política-justiça provoca um imbróglio de alta complexidade que vem acentuando, ainda que tardiamente, o humor do mercado financeiro.

O dólar, indicador mais sensível aos momentos adversos, repercute isto de forma mais intensa, revelando tendência de valorização frente ao real num momento e que o seu índice internacional cede ante as principais moedas mundiais, e, o contraditório que torna o fato mais relevante é que o país, a despeito de viver uma grave crise ampla, tem um ambiente muito tranquilo na questão cambial, pois tem reservas e mecanismos operacionais que suprem o mercado com “hedge” (proteção de variação cambial) e de fomento à liquidez no mercado à vista, que se sustentam mesmo num ambiente de resultado eleitoral adverso às expectativas do mercado.

O BC supriu o mercado com proteção cambial da ordem em torno de US$ 70,0 bilhões, o que permite que a Bovespa retarde movimento de “sell off” que permanece no radar, e monitora o mercado para eventual fornecimento de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra, sendo que neste momento os bancos tem colchão de liquidez em torno de US$ 7,0 Bi em suas posições.

Não há pressão de demanda nem por proteção cambial e nem por demanda no mercado a vista, sendo que a alta do preço decorre do emocional e psicológico, fatores imponderáveis, não alcançáveis por intervenção do BC, que se ocorrer será inócua.

O fato é que os fatos que se fazem presentes já eram previsíveis, postos por nós desde o primeiro trimestre deste ano, como acirramento da disputa política e seus imbróglios protelatórios, insegurança jurídica decorrente da legislação brasileira que é farta na permissão de ações protelatórias que se evidenciam no campo político, retração da atividade econômica, em grande parte com tentativa de vitimização pela causa da greve dos caminhoneiros, mas que não decorre só deste fato, desemprego em expansão, queda da renda e consumo e ganho expressivo de visibilidade da grave crise fiscal, que atenta para a capacidade de liquidez do próprio governo.

Perspectivas que havia para este ano, sequer estão sendo transposta para o ano seguinte, e já se admite, com ressalvas, que poderão ocorrer a partir de 2020 ou 2021, como melhor hipótese. E, o pior, não há segurança nas projeções econômicas/financeiras críveis sequer para o ano que vem, embora o Boletim FOCUS ouse prospecta-las até o ano de 2021.

Desta forma tem impacto extremamente secundário no Brasil as questões de conflitos comerciais e geopolíticos promovidos a partir dos Estados Unidos, embora por vício de conduta as análises sempre olhem mais para o exterior, do que para as questões “intestinas” do nosso país.

As pesquisas eleitorais mais recentes apontam para uma grande possibilidade de confronto entre Bolsonaro e Haddad, o que vai contrariamente às expectativas do mercado financeiro, afora as expectativas para o próprio país no entendimento da maioria dos setores produtivos.

A estratégia protelatória do ex-Presidente Lula, candidato improvável, muito focada no seu ego e com sucesso até aqui pode conseguir transferir parte dos seus votos, ainda que abaixo da expectativa, para o seu sucessor na pretensão eleitoral, Haddad, mas se demorar e a pendência for postergada até 17 de setembro, restando somente 20 dias para campanha, será drástica para os interesses do PT, pois o candidato é desconhecido fora do Estado de São Paulo e tornará mais difícil a migração dos votos do ex-Presidente para o novo postulante.

No nosso entendimento, como o país não tem risco de crise cambial e tem mecanismos apropriados e reservas cambiais para ancorar estes instrumentos, os fatores imponderáveis só teriam condições de elevar o preço do dólar acima de R$ 4,00 com uma eventual efetivação da viabilidade da candidatura do ex-Presidente Lula, o que consideramos improvável, mas há indícios de que o mercado despertou para a realidade da viabilidade do embate ser entre Bolsonaro versus Haddad, e isto está dando um incremento forte às tensões.

Temos muita expectativa quanto ao comportamento da Bovespa neste final do mês, embora os recursos estrangeiros aportados seguramente estejam com “hedge” há o risco de se acentuar as perspectivas da improvável recuperação da economia somente no longo prazo, o que poderia deprimir o preço das ações.

Há muito que observar e ter o radar rigorosamente focado no ambiente interno, pois este será o determinante do “modus operandi” do nosso mercado financeiro, e há muitas dúvidas e incertezas que poderão se acentuar e impactar.

Posturas defensivas cada vez mais deverão se tornar presentes, mas continuamos que o dólar com preço acima de R$ 4,00 só é sustentável numa eventual efetivação da candidatura do ex-Presidente Lula, o que, no momento, parece absolutamente improvável.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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