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Dólar, bolsa e crescimento 2019, dependem da equação crise fiscal e reformas!

Tudo conduz a possibilidade de não termos avanços na discussão sobre a reforma previdenciária atual sugerida pelo governo Temer até o final do seu mandato, passando esta matéria relevante para o novo governo Bolsonaro e, ao que parece, com nova formulação, o que retarda ainda mais as perspectivas para curto prazo, visto que este assunto poderá demandar discussões e debates, otimistamente, ao longo do primeiro semestre, com um Congresso baste modificado em sua composição.

Esta é uma das reformas imprescindíveis, sem o que não se pode vislumbrar solução para o país para a questão crucial mais imediata, qual seja o equacionamento focado na minimização da crise fiscal, para que haja recursos financeiros.

Sem recursos e encurralado por isto, o novo governo estará bastante limitado em suas ações, que vêm sendo propagadas continuamente e que ensejam ambiente de otimismo.

Este é o marco divisório para efetivo início da gestão do novo governo, visto que sem recursos corre o risco de continuar manifestando boas e relevantes direcionamentos para a “reconstrução” da atividade econômica com vigor, mas sem avançar na prática por não deter a capacidade financeira de realizar.

Então quando se busca projetar preço para a moeda americana no mercado brasileiro, há inquestionavelmente um prêmio de risco embutido que é representado por este entrave relevante que é a crise fiscal sem definição de alinhamentos para equacionamento. Desta forma, no nosso entendimento o preço deve continuar na faixa de R$ 3,70 a R$ 3,80 ao longo do período em que for demandada a abordagem da ou das reformas imprescindíveis.

Este contexto poderá levar o BC a continuar a fazer ofertas de rolagem dos swaps cambiais vincendos e consumá-las, pois pode postergar a manutenção de posicionamento especulativos por parte dos detentores atuais, na expectativa de que desencontros na busca de sucesso na efetivação das reformas, possa originar oportunidade para nova rodada de pressão sobre o preço, o que corresponderia a aumento do prêmio de risco.

A ideia, por muitos considerada surreal, do governo vender parte das reservas cambiais para diminuir a DP e atenuar os gastos com juros, etc.. que até pouco tempo era intensamente repudiada, já merece considerações mais tênues.

Afinal, as reservas cambiais foram acumuladas não como contrapartida de expressivos superávits fiscais, mas o governo Lula conviveu com extraordinário ambiente externo denominado “boom das commodities”, e o Brasil conquistou em razão disto superávits comerciais em dólares que foram acumulados como reservas tendo em contrapartida aumento substantivo da Dívida Pública. O que se questiona atualmente é a dimensão e necessidade do volume de reservas cambiais, que são remuneradas com juros externos, baixos, e suportados por Dívida Pública remuneradas com juros sobre reais, elevados. Este é um assunto para ser analisado com extrema acuidade e detalhamento que fundamentem o ponto de equilíbrio adequado para o Brasil.

Por outro lado, o contexto prospectivo para a B3 não fica alheio também ao fato, portanto fica flutuando entre 80 e 90 mil pontos e não deslancha para os parâmetros acima de 100 mil ou muito mais que é o sentimento dos analistas, pois sem solução para a crise fiscal torna-se difícil a retomada da atividade econômica com força e as ações têm os seus preços como reflexos diretos das performances na atividade e nos lucros das empresas.

Há um fator a ser considerado, qual seja a perda relativa de atratividade externa por parte dos países emergentes e a perspectiva de mais uma alta de juro americano em dezembro e outra logo ao início de 2019. A liquidez no mercado global tende a retração e há novas opções tão interessantes ou mais do que os emergentes, naturalmente com melhor risco.

E ainda, quando se projeta o crescimento otimizado do PIB para 2019, atualmente o Boletim Focus indica 2,50% ante 1,36% para este ano, necessariamente deve se considerar também a questão da crise fiscal como um fator relevante que pode impactar negativamente nessa perspectiva.

O Brasil tem no momento um quadro nos seus indicativos relevante bastante favorável. Vejamos o Boletim Focus.

Inflação com IPCA neste ano projetado para 4,23% e 4,08% nos últimos 5 dias, mas que ainda não captou os efeitos totais do recuo do preço do dólar, podendo cair a 4% ou menos, e para 2019 algo em torno de 4,20%.

Dólar para 2019 no limite do piso baixo de R$ 3,70 e para 2019 em R$ 3,76, normal num mercado “normal”, mas há o fator crise fiscal e também um contexto externo de deverá ser mais severo com os países emergentes que podem refletir nos fluxos financeiros e até comerciais, visto que os efeitos de curto prazo do embate comercial China/Estados Unidos que parecem nos favorecer podem estar sendo absolutamente pontuais, pois no contexto macro a médio/longo prazo tendem a ser prejudiciais.

Devemos considerar que o Brasil tem um quadro absolutamente confortável nas suas contas externas, algo como 0,8% de déficit transações correntes, inflação baixa, juros baixos, mecanismos operacionais por parte do BC no mercado cambial com lastro nas reservas para atender demanda por “hedge” com contratos de swaps cambiais e para demanda no mercado à vista, com concessão de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra.

O governo ao que sinaliza está compondo o seu Ministério com nomes fortes e que denotam muita credibilidade, o que é importante, mas o fato é que sem a solução para a crise fiscal poderá ficar travado nos seus intentos mais imediatos, e isto poderá afetar o preço do dólar, B3 e crescimento em 2019 como salientamos.

Por enquanto consideramos que os parâmetros atuais do preço do dólar e B3 nos seus intervalos devem persistir até o 1º semestre do próximo ano, ou melhor até que haja perspectiva efetiva de alinhamento para a solução da crise fiscal.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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