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Complacência com risco político e ritmo lento da economia podem reverter otimismo

O mercado financeiro brasileiro ainda continua com um relativo otimismo a ponto de continuar sustentando suas projeções para o ano presente, mas já percebe que a evolução da Bovespa está travada e o dólar tem um viés firme de alta.

Este fato merece atenção, pois transparece uma complacência com as perspectivas bastante agravadas em torno do risco político absolutamente imprópria, visto que as preocupações em torno da política e sua perspectiva afronta a expectativa macroeconômica de curto prazo.

Por outro lado, o desempenho do ritmo da economia é frustrante face aos efeitos esperados a partir dos estímulos imputados com a redução brusca da taxa de juro SELIC.

E há uma percepção popular que a inflação apurada a níveis baixíssimos não revela benefícios tão contundentes quanto propagados e que não é tão real nos níveis de preços dos produtos mais demandados pela população. A evolução dos preços das “commodities” e a perspectiva de alta do preço do dólar no mercado brasileiro podem impor pressão inflacionária adicional.

Face à isto e confirmando este contexto desalentador o emprego reage de forma muitíssima discreta, ficando bastante distante dos números eloquentes afirmados nos discursos governamentais.

Natural o reflexo direto na renda e no consumo, no qual se apoiam as projeções para o crescimento do PIB.

Tudo sugere que o grau de conscientização sobre o cenário atual e prospectivo do Brasil submeta as projeções atuais à revisão menos otimista e que a postura dos investidores se torne mais cautelar e defensiva.

O risco político é altamente preocupante, há uma ausência absoluta sobre as perspectivas em torno de como será o novo governo, visto que afora as pesquisas que indicam a liderança do candidato improvável ex-Presidente Lula, todos os demais estão num imbróglio em que não se vislumbra potencial de liderança sustentável, prevalecendo como perceptível o enorme percentual de eleitores indecisos.

Não se sabe então, o que poderá ocorrer em perspectiva com o novo governo e, portanto, não há como se projetar nada.

Ademais, há uma enorme disputa no Judiciário que faz prevalecer e acentuar muitas dúvidas e nem se ter clareza de quem poderá ou não ser efetivamente candidato.

No cenário econômico com a baixíssima eficácia do juro como fator estimulante da atividade e ao investimento, tudo o mais em termos de recuperação da situação fiscal do país, aumento substantivo do emprego, aumento forte da renda, etc, fica prejudicado.

A percepção que fica é que em realidade houve uma melhora no ambiente de piora que ocorria, ancorado em inúmeras sugestões de reformas impactantes positivamente no negativo quadro fiscal que não prosperaram por falta de apoio político da base do governo, mas de efetivo sustentável muito pouco.

O ambiente do mercado financeiro, que necessariamente deverá passar por ajuste independente e descolado do setor externo face às realidades internas do país, tem convivido e sido contaminado pela excepcional liquidez no mercado financeiro internacional, que com o objetivo de obter rentabilidade desloca substancial volume de recursos para os países emergentes.

A grande massa de recursos externos direcionados ao mercado financeiro brasileiro por investidores estrangeiros tem origem em operações de “carry trade”, que determinaram o apetite pelo risco Brasil. Contudo, com a persistência da redução da taxa SELIC por parte do BC, sem que haja correspondente resposta pela atividade econômica brasileira, contrapondo-se a alta dos juros reais nos Estados Unidos que pode conduzir o “yield” de 10 anos para acima de 3,25%, certamente o “apetite Brasil” será duramente impactado, assim como todos os emergentes e, por que não, até o mercado acionário americano.

O “status quo” brasileiro no contexto político-econômico, e por que não também judiciário, pode determinar alteração postural dos investidores estrangeiros especulativos, principalmente, e determinar que acentuem os desmontes de suas posições, promovendo, ainda que de forma gradual e cautelosa, um sell-off na Bovespa e pressionando o preço da moeda americana no nosso mercado.

Portanto, consideramos bastante consistente a tendência de ocorrência de ajuste reversivo no comportamento da Bovespa, ainda que com alguma volatilidade, bem como no preço do dólar que deverá alcançar patamar mínimo de R$ 3,50, podendo ser impulsionado além deste patamar com o acirramento em torno da disputa política sucessória.

No nosso ponto de vista, o mercado está no momento de inflexão deixando o otimismo exacerbado, ajustando-se a efetiva realidade do momento brasileiro, passando a prevalecer cautela e sensatez, com predominância de postura defensiva.


 Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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