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A decisão do FED preocupa, mas o Brasil tem outros problemas

O comportamento dos mercados globais já foi afetado ontem pela expectativa em torno da decisão ou não do FED sobre o “tapering” do programa de incentivo monetário, que deve ser anunciada hoje ao final da reunião do FOMC, e da mesma forma deve ter um efeito paralisante na dinâmica dos negócios hoje até que ocorra a manifestação do órgão a respeito.

Natural o posicionamento cautelar neste momento, visto que a decisão pode impactar fortemente no mercado financeiro global determinando posturas nas mais diversas formas de reações dos ativos ao redor do mundo, já que cada economia será afetada em intensidade maior ou menor, mas nenhuma passará incólume.

Para surpresa, o real, considerada das moedas mais vulneráveis neste momento, contrariando o comportamento de todas as moedas latinas que se desvalorizaram frente ao dólar, apresentou valorização, reagindo a uma melhora de oferta num ambiente de baixo volume de negócios.

A expectativa por parte dos países emergentes é que, em caso de decisão implementando o “tapering”, tenham movimento gradual aquecido de saída de recursos externos, porém em intensidades diferentes visto que há significativas diferenças entre sí, com uns revelando melhores condições macroeconômicas do que os outros, o que é um fator determinante da atratividade diferente entre estes países perante os investidores externos, mas todos deverão conviver com alguma perda de recursos externos.

O Brasil neste momento não desfruta do grau de atratividade que já despertou perante os investidores estrangeiros, e assim sendo, tende a ser dos países que mais perderão investimentos, a despeito de já vir perdendo ao longo do ano, mesmo tendo aumentado consideravelmente a taxa de juro SELIC.

Causas sobejamente conhecidas, de natureza doméstica e de difícil reversão no curto prazo, afetaram o conceito do Brasil perante os investidores, ao mesmo tempo em que as economias desenvolvidas que estavam em crise sinalizam recuperação e outros emergentes conseguiram consolidar situações macroeconômicas mais favoráveis e se demonstram mais atraentes.

Este é um quadro que ganha transparência e que a questão do FED não tem nada a ver, mas simplesmente a coloca em destaque.

O Banco Central do Brasil que desde agosto passado mantém intervenção programática no mercado de câmbio, com a qual fomenta a liquidez no mercado futuro e no mercado à vista, dada a insuficiência dos fluxos líquidos positivos, está aguardando a decisão do FED/FOMC para anunciar ajustes no programa de intervenção, certamente dando-lhe maior flexibilidade para a blindagem do controle de preço da moeda americana no nosso mercado.

Não será tarefa fácil, poderemos ter volatilidade consistente predominante no 1º trimestre de 2014 e que exigirá intensificação das intervenções do Banco Central do Brasil, sem, contudo, assegurar-lhe sucesso, por isso temos manifestado que poderemos ter o preço da moeda americana atingindo R$ 2,50 ao final deste período.

O Brasil deverá manter em 2014 a tendência de elevado déficit em transações correntes e queda nos IED´s e no ingresso de capitais voláteis, perdurando a utilização de poupança externa, que só tenderia à recuperação na medida em que a depreciação do real seja acentuada.

Contudo, se o Banco Central do Brasil deixar o real se depreciar pelas forças naturais do mercado os impactos inflacionários serão relevantes, e, inevitavelmente, exigirão medidas de politica monetária que passarão necessariamente pela elevação da taxa SELIC.

Com projeções mais amenas do que as aqui postas, já há sinalizações de um cenário prospectivo sugerindo crescimento menor do PIB em 2014, inclusive evidenciada no Boletim FOCUS, que é a mediana das projeções das instituições financeiras.

Apesar de todos os ajustes e acertos típicos e atípicos, a politica fiscal chega ao final do ano de 2013 sendo considerada deteriorada e contribuindo em muito para a acentuada perda de atratividade do país frente aos investidores estrangeiros.

Este fato tem colocado o Brasil no radar das agências de rating que vem emitindo sinais de possível rebaixamento de nota de crédito, caso esta situação não seja reequilibrada e transparente.

O Ministro Mantega já fez a recomendação de que nenhum movimento que não revele correção deve ser feito para acomodar a fragilidade da politica fiscal e propaga rigor na gestão.

Reorganizar a politica fiscal será um grande desafio para o governo considerando-se que 2014 é um ano eleitoral. A tendência natural em anos eleitorais é exatamente a ocorrência do contrário.

O Brasil que despertava grande atratividade e colocando perspectivas futuras recebia os benefícios à vista, hoje se vê na obrigação de entregar o que promete primeiro para receber o beneficio no futuro.

Os problemas que são antevistos para 2014 tem pouco a ver com a questão do FED, afora o fato de provocar a retirada de recursos do país, a maioria decorre de razões domésticas.

Precisamos concentrar os olhares mais para o nosso contexto interno, não dá para atribuir ao cenário externo as causas de nossas dificuldades, até porque no exterior há sinais consistentes de superação e recuperação.

 

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