Análise do Mercado – 09/11/2012

Está efetivamente ocorrendo um distanciamento entre a realidade presente na economia global e as “mensagens” e projeções ainda resistentes apoiadas mais em anseios do que em fundamentos.

 

 

E este nosso sentimento é global, envolvendo inclusive a nossa percepção a respeito do Brasil, onde se colocam projeções de crescimento muito robustas, embora a base fundamentalista prescinda de fatores mais concretos do que anseios.

O BC prevê o crescimento aquecido do crédito em 2013, mas este é um fator de preocupação tendo em vista o dado recente que divulgou de endividamento familiar da ordem de 45% da renda, então é temerário suportar projeções de incremento ao crescimento apoiado no consumo estimulado pelo crédito.

Fala-se em robustez da demanda doméstica, mas se o país repetir o crescimento modesto deste ano em 2013, certamente poderá ter reflexos na geração de emprego, até porque sabidamente ocorre a retenção de mão de obra qualificada por parte das empresas face a expectativa de que a economia possa ter comportamento melhor, visto que o custo de demitir, seja pelos custos realizados com treinamentos, seja pelos ônus trabalhistas implícitos, ainda se revela maior do que o custo de suportar a retenção, contudo, por um certo tempo.

O fato concreto é que a crise internacional afeta o desempenho do nosso setor exportador.  O BC detectou melhora das exportações em regiões produtoras de básicos agrícolas, mas devemos considerar que esta recuperação em grande parte decorreu de quebras de safras a nível global que criaram a oportunidade de aumento pontual de demanda e preço. Nada garante este fato como tendência.

Contudo, não podemos deixar de salientar que as nossas deficiências estruturais que provocaram atrasos de até 2 meses no embarque de milho, levaram o Japão a deslocar suas compras para os Estados Unidos, embora o preço americano seja superior ao brasileiro.

Na indústria nacional o dado concreto é que retrocede a sua atividade e não ocorrem os investimentos que o governo busca estimular ao administrar o preço do câmbio, visando agregar-lhe competitividade no mercado externo e, ter reduzido substantivamente o juro.

Enfim, quando se observa a economia mundial não se nota perspectivas de recuperação em 2013 e quando se observa a economia brasileira, a força motriz sempre salientada da robustez da demanda pode estar próxima ao esgotamento, já que não há poupança suficiente por parte da população, desta forma só é possível com a elevação do endividamento, que já esta em níveis preocupantes.

O jornal Valor divulga matéria em que o FMI projeta que o crescimento dos emergentes pode ser revisado para baixo. O conteúdo da matéria oriunda de Washington pela Dow Jones merece ser destacada:

“O aperto orçamentário dos países da zona do euro corre sério risco de se tornar insustentável e gerar nova recessão ao redor do mundo, informou o Fundo Monetário Internacional (FMI) nesta quinta-feira em relatório preparado para a reunião do G-20 que ocorreu em 4 e 5 de novembro. Além disso, o órgão acredita que a crise na Europa e a fraca recuperação dos Estados Unidos podem levar os países emergentes a crescerem a um ritmo menos acelerado em 2013.

As incertezas sobre como os governos da Europa e dos EUA vão contornar suas dificuldades aumentaram os riscos para que o crescimento mundial fique abaixo de 2% no ano que vem, disse o órgão. A projeção anterior era de um avanço de 3,6% em 2013. A mudança na estimativa coloca vários países em risco de recessão e prevê uma forte desaceleração econômica em mercados emergentes como o Brasil, a Índia e a China.

No começo deste ano, o FMI previa que a probabilidade do crescimento mundial ficar abaixo de 2% no ano que vem era em torno de 4%. Agora, o fundo avalia que as chances estão perto de 20%.

“O potencial crescimento da produção foi superestimado tanto nas economias avançadas quanto nas emergentes e uma reavaliação da perspectiva futura pode atenuar a atividade atual”, disse o FMI.

Na Europa, o FMI avalia que existe um risco real de que os membros da zona do euro não consigam implementar as mudanças necessárias para cortar os níveis da dívida e estabilizar o sistema financeiro.

O fundo disse também que existe um risco real de que os pacotes de austeridade fiquem insustentáveis para os países como a Grécia, a Espanha e Portugal, o que ameaça o progresso necessário para colocar a economia desses países de volta nos trilhos.

(Dow Jones Newswires)”

A China vive o momento de transição dos integrantes do seu comando de governo. O Presidente retirante que conduziu o país ao expressivo crescimento a ritmo de 10%, fez importante declarações abordando as preocupações com a corrupção no país; e, a mais relevante, que o ritmo de crescimento é insustentável. No ultimo trimestre o crescimento do PIB foi ao ritmo de 7,4%, e o grande desafio é alterar o modelo de crescimento ancorado na atividade exportadora para uma participação maior do consumo interno, mas isto é tarefa para médio prazo.

Os dados recentes da China até são otimistas, mas a realidade concreta do contexto chinês não sugere otimismos.

Os Estados Unidos tem endividamento preocupante e o desafio de superar o “penhasco fiscal”, que se acredita terá flexibilizações por parte dos republicanos para evitar o pior dos mundos para a economia americana, mas o Presidente Obama vai ter que ceder também afetando programas que tem defendido, podendo haver impasses neste ponto.

Certamente, 2013 ainda não será o ano da ressureição americana com a pujança contumaz.

E a Europa e sua zona do euro e fora dela não promovem indícios que não sejam mais preocupantes em relação à situação atual.

Por tudo isto, temos colocado insistentemente desde o mês passado como imprescindível que o governo brasileiro haja pró-ativamente, cautelarmente, utilizando o único instrumento eficaz disponível para estimular a indústria a retomar ritmo de atividade, encorajar-se para os investimentos, aumentar a oferta no mercado interno e ser mais agressiva no mercado externo: ELEVAR A BANDA ATUAL DO CÂMBIO ADMINISTRADO, minimamente para R$ 2,05 a R$ 2,10, sem perder de vista que em perspectiva possa voltar a elevá-la, caso contrário corremos o risco de ter em 2013 mais um ano desapontador.

Hoje parece que isto vá acontecer, contrariando não a nossa, mas a quase totalidade opinativa do mercado.

E mais, ratificando o que já temos salientado, o governo deveria dar atenção para o fluxo cambial que tem viés negativo, portanto, está no momento de flexionar o prazo para menor com a incidência do IOF sobre os empréstimos externos, pois vamos precisar destes recursos e é nesta fase do ano que as empresas realizam seus planejamentos.

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