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Risco fiscal do Brasil é antídoto à melhora externa do dólar! Então: volatilidade!

O Brasil passou muito tempo “gastando mais do que pode”, mas com o olhar concentrado nos acontecimentos externos e nas economias desenvolvidas, suas dinâmicas focando retomada das atividades e nos conflitos corriqueiros entre China e Estados Unidos, e “distraiu-se” conscientemente dos seus próprios desafios e problemas, e, agora quando desperta para a realidade se vê numa situação fiscal bastante deteriorada e preocupante.

E mais, o governo que impulsionou programas assistenciais fundamentais na fase mais aguda da crise da pandemia direcionada, mais acentuadamente, as classes carentes da sociedade, se vê nesta fase em que a economia brasileira ainda não registra dados positivos sustentáveis, mas muito consequentes da própria geração de renda dos programas, com setores fundamentais, como o de serviços, claramente “patinando” e o quadro fiscal comprometido colocando em risco a continuidade dos mesmos, hoje também fator politico visto que o governo, a exemplo de governos anteriores, “descobriu” que populismo eleva aprovação, embora acentue a perda de perspectivas favoráveis.

Desta forma, o dólar após ter transitado por inúmeros “ambientes” induzidos ou não pelo governo no nosso mercado, passa a ter comportamento extremamente volátil cotidianamente mixando o ambiente externo para a moeda americana com o antídoto à sua tendência consequente da situação fiscal do país, e ainda, a volatilidade intensa atribuída também aos minicontratos em dólares, opções e a nova realidade do juro baixo.

A rigor, dado as perspectivas que aponta baixa demanda e baixa oferta no mercado à vista, o preço da moeda americana no nosso mercado, considerado “alto” dentro do desejado e alcançado pelo governo, se situa no intervalo entre R$ 5,00 a R$ 5,50, dependendo do contexto benigno ou adverso do momento, porém nesta fase em que se acentua a visibilidade e percepção mais aguda do problema fiscal do país e a não identificação de solução plausível no curto prazo, além das persistentes pressões para rompimento do teto orçamentário, que se confronta com a fragilização internacional do dólar no mercado internacional, bastante desejada pelo governo Trump por razões econômicas, acontece o “confronto” dos dois fatores, tendendo no momento a vantagem negativa da crise fiscal e então o preço fica tendente a romper o teto de R$ 5,50, mas sem potencial para ir muito além, embora as posições de “apostas” contra o real tenham aumentando recentemente.

Evidentemente e de forma inevitável ocorrem neste embate de anseios em que um lado deseja fazer agrados mais longos à sociedade carente pelo populismo governamental, a despeito de não se poder deixar de reconhecer a necessidade temporária , e a seriedade de gestão contendo gastos para não perder o controle da crise fiscal, os inevitáveis ruídos políticos que contribuem também para a ebulição nervosa dos mercados e se não tanto, pelo menos, o sentido de apreensão.

É primário que o governo é o grande consumidor na economia brasileira neste momento, e que, se paralisar os seus programas impacta forte nos sinais ainda frágeis de recuperação da atividade econômica, embora num contexto que propaga otimismo isto nem sempre é destacado, embora sabido.

Então, com a economia real e efetiva ainda débil não é possível se ter expressivas expectativas em torno do desempenho da Bovespa, que indica alguns papéis de varejo com destaque, sem mencionar as fontes que impulsionam o consumo e os riscos de inadimplência envolvidos, e a indústria que recebe os consequentes pedidos decorrentes do aumento da demanda.

O mercado financeiro augura por juros mais baixos, o novo normal ainda um estranho para todos, mas a crise fiscal não tem grande afinidade com juros baixos e inflação em queda, visto ter poder desestruturador intenso e então começam a haver perspectivas conflitantes no horizonte.

Têm-se então um cenário de conflitos entre inúmeros vetores, externos e internos, e como consequência não é construída tendência, mas sim incertezas e inseguranças que resultam em volatilidade, que inibem o empreendedorismo e os investimentos produtivos.

Este é o momento brasileiro, ainda sem perspectivas sustentáveis na linha da retomada da atividade econômica e convivendo com a pandemia do coronavírus, com menos ruídos visto que o tempo acostuma a convivência, mas não atenua efetivamente a importância, construindo um otimismo quase estéril que ainda deve perdurar até o final deste ano.

A proximidade das eleições americanas sugere intensificação de “tapas e beijos” entre China e Estados Unidos, orquestrados pelo Presidente Trump já que este cenário, além de tudo, integra a campanha pela reeleição, que, aliás, está muito ameaçada.

Internamente, espera-se muita pressão sobre o Ministro da Economia, já que se opõe ao rompimento do teto orçamentário e isto confronta com os interesses imediatos do governante mor, já com foco em reeleição, que entendemos seja movimento prematuro, isto não é bom.

O contexto sugere Bovespa e dólar “andando de lado”, este com momentos de relativa pressão sem exacerbações, e muito volatilidade, e o juro pode se insinuar em alta, pois déficit fiscal fomenta inflação.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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