Câmbio News

Política desordenada, mercado financeiro reage temente às consequências ao país!

Outro dia, “an passant”, mencionamos a Lei de Murphy, Edward Murphy, que apregoou: “Se algo pode dar errado dará, e da pior maneira possível”, como uma tendência ao quadro brasileiro dada a evolução do destemperado confronto entre os poderes constituídos no Brasil, com invasões impertinentes recíprocas nas competências próprias de cada um e uma perda significativa do foco no que é mais relevante para o país no momento.

O Brasil está literalmente “quebrado” envolvido por severa crise fiscal que pode inviabilizar a governabilidade e a capacidade de honrar seus compromissos, e, a “tábua da salvação”, ainda que parcial, será a Reforma da Previdência, para a qual só há uma decisão possível “aprovar ou aprovar”, mesmo que na tramitação sofra desidratação nos seus objetivos e tenha reduzida a capacidade de contenção de gastos do governo.

Esta situação é preocupante e se agrava na medida em que se nota um claro confronto político entre o Congresso e o Governo, do qual resultam decisões revanchistas, havendo uma total abstração em relação aos interesses efetivos do país.

Há um risco latente de que surjam proposituras desalinhadas e que só visem fomentar disputa de poder e sem nenhuma discussão mais profunda, que podem resultar em agravamento maior do contexto brasileiro, que já é bastante desalentador.

Notamos que este cenário tendente ao pior já vem se agravando por semanas, porém tem sido abordada pelos órgãos de comunicação de forma amena, sem pontificar a gravidade da ocorrência do pior cenário, e com uma certa “distração” valorizando em demasia a crise sino-americana e a ela atribuindo os destemperos no nosso mercado financeiro.

De nossa parte, teimosamente, temos tido o zelo de não desconsiderar a relevância para a economia mundial do embate comercial entre China e Estados Unidos, mas ter enfaticamente colocado que o fato para o Brasil deve ser visto com importância relativa, visto que temos benefícios imediatos na nossa pauta exportadora, mas a realidade nos aponta de forma drástica que o problema do Brasil é efetivamente os problemas incontornáveis do Brasil, o que coloca o país numa “redoma” que não lhe permite dispersão de foco e provoca que ocorra um absoluto alheamento em relação à cena externa.

Há uma insistência em criar simetria do comportamento dos preços dos ativos do nosso mercado financeiro com o que ocorre de melhor ou pior no embate sino-americano e nas bolsas de Wall Street, quando na realidade esta influência é meramente suposta, pois de fato o que há é absoluta assimetria, e, então o que ocorre por aqui tem relação direta com o grave momento interno brasileiro, e, como consequência a agravamento do desalento e o aumento de riscos efetivos do Brasil.

O Brasil tem passado estes quase cinco meses iniciais aguardando “a chegada” dos investidores externos, seja para conta capital seja para o mercado financeiro ainda que seja na forma de “hot Money”, recurso especulativo, de breve permanência, mas nem um e nem outro, os investidores estrangeiros permanecem absolutamente retraídos, quando não retiram pouco do que tem alocado no nosso mercado, sem que isto cause nenhuma pressão de demanda sobre o mercado a vista de dólar.

E o investidor privado brasileiro não tem tido postura diferente, permanece em “estado de observação” para ver a resultante da Reforma da Previdência e decidir se há motivação para investir.

Numa economia que foi recebida por este governo absolutamente inerte, com o governo continuando sem capacidade para investir e com a manutenção do recuo de investimentos dos nacionais e estrangeiros, não há como o país sair do lugar, muito provavelmente até agravando o seu quadro deletério, que é o que se observa no momento.

Então, se a economia está estagnada não há por que ter-se um Ibovespa aquecido, pois sua valorização depende diretamente da dinâmica da economia, da qual depende também diretamente a recuperação do emprego, renda e consumo.

Então, a constatação do fato com a apuração de PIB negativo no 1º trimestre não deve surpreender, já que o país está sem “tração”, absolutamente estagnado e, a rigor, não é culpa absoluta deste governo que herdou esta situação, mas que tem contra si a quase inexistente capacidade de articulação política para incrementar a trajetória da Reforma da Previdência, buscando a rapidez na sua aprovação, ao invés de desenvolver uma gestão por conflitos constantes e que criam retaliações o Congresso, desviando totalmente o foco no que é mais importante.

O sensor mestre de todas as crises em economias emergentes é o comportamento do preço da moeda americana e isto ocorre no Brasil de forma totalmente especulativa, explorando o emocional ante a perspectiva do caos e afastando-se do racional que está na consistente e tranquila situação das contas externas do país, com suas soberbas reservas cambiais, e, com o BC dispondo de operações estruturadas apropriadas para conter qualquer efetiva demanda tanto no mercado a vista quanto no mercado futuro de dólar.

No mercado à vista não há demanda que represente ponto de pressão e no mercado futuro de dólar ocorre um movimento especulativo extremamente vulnerável a qualquer melhora de cenário interno em torno da Reforma da Previdência, e a autoridade monetária, o BC, sabe disto, por isso não intervém e desta forma não sanciona o movimento como tendência sustentável.

Há menções precipitadas citando que o BC cumprindo simples rolagem de posição vincenda de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra de US$ 3.75 bi possa estar acolhendo demanda do mercado ou intervindo devido a exacerbação da alta do preço. Nada a ver, rolagem é  pura rotina e está dentro do cronograma normal. A especulação ocorre no mercado de câmbio futuro e se quisesse intervir o faria então com oferta nova de swaps cambiais que seria o instrumento adequado.

O fato concreto é que se acentua a percepção de que só há uma saída para esta situação, qual seja “aprovar na forma possível a Reforma”, pois sem ela o caos será inevitável.

A desorganização da formação de preços no mercado financeiro perde então qualquer relação com a racionalidade, e ocorre o que costumamos designar como o “random walk”, o comportamento de hoje será igual ao fechamento de ontem agregando os fatos novos de hoje.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

Compartilhar :
plugins premium WordPress