Câmbio News

Otimismo com Biden e vacinas tende à sensatez e  mercados podem assumir  cautela!

Uma pausa no otimismo revela sensatez por parte do mercado financeiro global, que sancionou no primeiro momento potencial otimismo com a provável confirmação de eleição de Joe Biden, ao mesmo tempo em que, na sequência, houve alvissareiras notícias em torno de eficácia de novas vacinas preventivas ao covid, fato importantíssimo para que se formulem novas perspectivas para recuperação da atividade econômica global.

Moedas emergentes atreladas a commodities, de imediato, repercutiram a queda pontual do dólar como mudança do cenário prospectivo, mas de forma generalizada e não seletiva considerando o “status” de cada país, enquanto a moeda americana demonstrou-se forte frente às moedas de países desenvolvidos.

As bolsas, fundadas mais na crença de melhoras em perspectivas do que em fundamentos concretos, reagiram forte com valorizações expressivas, tanto pelo provável novo Presidente quanto pelos avanços nas vacinas, que devem ancorar as esperanças de concretas recuperações das atividades econômicas das principais economias do mundo.

Nas reações no Brasil, contudo, não pontificou homogeneidade, repercutindo movimentos mais relevantes em algumas ações face à balanços pontuais e a vínculos com segmentos supostamente beneficiados com as novas perspectivas mais imediatas, e na margem, repercussões ainda contidas com as vacinas que caracterizam esperança.

A sensação imediata foi a de “tudo melhorará”, e agora, com a retomada da necessária sensatez, é eliminado o efeito generalizado em linha e cada moeda e cada mercado passa por ajustes às suas realidades e as reações se tornam diferentes.

O dólar, na segunda feira, repercutiu em linha com todas demais moedas emergentes ligadas a commodities, mas não conseguiu manter a tendência revertendo-a de forma contundente readequando-a à realidade brasileira.

A situação do Brasil face ao expressivo imbróglio em que está envolvido com sua política monetária, cambial e fiscal se constitui forte suporte ao ajuste que poderia ocorrer no preço do câmbio caso não existisse este quadro adverso.

O país convive com altíssimo risco fiscal que pode levar ao rompimento do teto orçamentário e, em concomitância, se vê numa “encruzilhada”, sem que se vislumbre saída organizada, que evidencia a absoluta necessidade de manutenção dos programas assistenciais direcionados às populações carentes e instituídos ao longo da pandemia do coronavírus, e a notória incapacidade financeira de dar suporte às fontes de financiamento, e, mais não se conhece os reais e efetivos impactos destes programas na sinalização de recuperação da atividade econômica.

Adicionalmente, o país permanece “travado” no andamento das reformas imprescindíveis, retoricamente enaltecidas frequentemente quanto a imperiosa necessidade, mas que não evoluem e, ao que parece, não tem no governo o protagonismo necessário e a catalisação de apoio político, e, adicionalmente convive com um ambiente novo do juro baixo que não tem a devida e necessária simetria com a taxa cambial.

A convicção de eleição de Joe Biden à Presidência americana parece predominante, mas a recusa de reconhecimento pelo derrotado e a busca da judicialização pode construir uma impertinente insegurança, já que nos Estados Unidos não há um organismo que proclame isoladamente o vencedor, e este assunto pode se prolongar e criar um hiato no otimismo, tendo em vista que o Departamento de Justiça americano autorizou as investigações federais sobre fraude.

Passado o efeito imediato, o Brasil retoma a convivência com os seus desafios e, embora o Presidente do BC afirme que estamos num ambiente de “recuperação robusta”, há absoluta evidência de que o governo tem que “descobrir” o atalho para equacionar o “corner” que estabelece a necessidade de fazer que confronta com a incapacidade de fazê-lo.

Este contexto brasileiro, onde o Ministro da Economia “admira” o estoque demasiado de reservas cambiais e tem anseio claro e silencioso de poder utilizá-las, pois num regime de câmbio flutuante as entende excessivas, o dólar tem suporte de preço não por demanda no mercado à vista, já que o país já perdeu volume considerável de recursos que saíram do país, mas por ser o dólar o “porto seguro” para ancorar insegurança quando há incertezas, e, isto confronta com a tendência externa, então fomenta a volatilidade que pode provocar “gaps” expressivos ao longo do dia.

As reformas são clamadas agora pelo Presidente da Câmara como carentes de apoio incisivo do Presidente e seus partidários, e desta forma segue cada um atribuindo a outrem a responsabilidade pela inércia  quando na realidade precisam de posturas coalizadas na busca do intento.

Enfim, o contexto revela, seja pelas perspectivas de mudanças a partir do novo Presidente americano, seja pelo otimismo absolutamente procedente a partir das vacinas, amplas possibilidades de melhora, mas pode ser que o Brasil não esteja em condições de se beneficiar plenamente da mudança de ambiente global.

Além disto, é importante e imperativo que o Brasil análise com acurácia as benesses que podem advir do nosso ambiente externo, mas com o rigor de perceber de que somos grandes exportadores agrícolas e isto é que tem ancorado o desempenho de nossa balança comercial, e os Estados Unidos também o são e o grande demandador internacional é a China, que naturalmente terá reconstruído o relacionamento comercial com os Estados Unidos.

Até mesmo o detalhe sobre as vacinas, discriminadas pelo governo federal dada a origem chinesa, poderão gerar retaliações futuras por parte do nosso maior parceiro comercial, a China.

Além disto, o Brasil deve sofrer forte retaliação internacional nas questões ambientais e os Estados Unidos, como já antecipados por Joe Biden, tende a exercer pressões consistentes sobre o país, que podem se estender a impactos e reflexos nas transações comerciais no mercado externo.

Há melhoras no cenário prospectivo na economia mundial, mas o Brasil poderá ficar a reboque “ se não fizer a lição de casa”, fundamental para  conseguir catalisar os impulsos positivos do novo contexto.

Há muito a observar! Sensatez é necessária, pode haver desapontamentos!


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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