No mercado de câmbio nem tudo é exatamente o que parece ser

Esta é a velha máxima que costumamos utilizar para chamar a atenção quando atipicidades ocorrem na formação do preço da moeda americana, por vezes afetada por fatores absolutamente perceptíveis e que não considerados ensejam inúmeras considerações diferenciadas em análises abrangentes, até acadêmicas, que em sua grande maioria “olham para fora e raramente para dentro do país e mais especificamente para o nosso mercado de câmbio e suas armadilhas”.

A formação do preço da moeda americana no nosso mercado estava solta com a ausência de fundamentos críveis que pudessem justificar a crescente depreciação do real, mas tendo como pano de fundo a situação substantivamente deteriorada da nossa economia, política fiscal amplamente comprometida e sem grande convicção de que possa se redimir este ano alcançando os 1,2% objetivado, e, um cenário político bastante complicado dificultando a superação das resistências à aprovação de medidas essenciais a redenção do país.

Enfim, um país nada atraente aos capitais externos de que tanto precisa e que tem o governo relutante em aceitar que tanto macro quanto microeconômica tem problemas extremamente sérios, estruturais e não conjunturais como tem sido dito, que não enseja recuperação rápida e tem perspectivas firmes de que possa entrar em recessão.

Frágil entre os mais frágeis dos emergentes e perspectivas de saídas de recursos externos atraídos por outras economias e que tem um risco cambial elevado confrontado com o estoque de reservas cambiais detidas, já com elevado estoque colocado no mercado de câmbio futuro de swaps cambiais para comprar credibilidade a sua moeda, o real, e com a liquidez do mercado à vista sendo suprida com posições vendidas (à descoberto) mantida pelos bancos.

Em suma, as perspectivas não se configuram como otimistas, o mundo demonstra visão severa, e isto provoca inquietação nos segmentos do mercado financeiro brasileiro.

Então, uma onda forte de negativismo conduz à precificação do insucesso provável nos seus ativos, e, para melhorar este movimento indutor de alta, o BCE anuncia o seu programa de incentivo e com isto provoca queda fortíssima do euro e forte valorização da moeda americana.

Tudo pronto e favorável e então o preço do dólar atinge R$ 3,17 e então é chegada a hora do mercado revelar que tem uma força estranha no mercado futuro de dólar  contumaz nos mercados brasileiros, o especulador, que numa rápida ação desmonta posições compradas, realiza ganhos e faz o preço recuar a R$ 3,09.

Nem mesmo a manutenção do dólar em alta no mercado externo voltou a restabelecer a força motora altista do mercado de câmbio, aconteceu como um susto e um aviso de que é preciso tomar cuidado, porque NO MERCADO DE CÂMBIO NEM TUDO É EXATAMENTE O QUE PARECE SER!

O fluxo cambial até o último dia 6 está positivo em US$ 3,019 Bi no mês e US$ 5,780 Bi no ano e os bancos reduziram suas posições vendidas para US$ 22,8 Bi, deixando evidente que a pressão altista não advém de movimento agressivo de saídas.

Também não seria lógico que compradores efetivos de “hedge” desmontassem suas posições de forma abrupta, visto que a proteção deve proteger até o momento da saída dos recursos do país.

Então, o movimento que houve só pode ter sido promovido pelos especuladores que vinham formando posições compradas especulativas e orquestrando a alta exacerbada do preço da moeda americana.

O país e seus problemas continuam iguais, suas dificuldades e riscos os mesmos e continua existindo um viés tendente a alta, caso o país não consiga superar gradativamente seus grandes problemas, mas ficou a indicação de que o mercado não deve buscar precificar no preço do câmbio.

O ambiente presente é estimulante à ação dos especuladores, razão pela qual entendemos que o BC deveria cumprir neste mês de março o rito do programa estabelecido promovendo a rolagem total da posição vincenda de swaps cambiais e ainda a oferta da “ração” diária, pois a incerteza que deixou cria campo fértil também para a especulação.

Muitos perguntam por que o BC não atua, acreditamos que o que lhe é possível fazer está feito, não há instrumentos operacionais para tanto e o estoque de swaps já é elevado, e, no mercado a vista ainda não há pressão. Contudo, poderia ter agido mitigando a possibilidade de duvidas quanto a rolagem, até porque o seu programa tem este compromisso.

Temos defendido que no câmbio é impróprio o anuncio de atitudes que serão tomadas pela autoridade monetária, primeiro se faz e depois, se necessário se explica, mas como já o fez antecipadamente cabia cumprir.

Não há razões efetivas novas sugerindo otimismo, mas nos parece extremamente precipitado querer precificar um futuro severamente ruim  ainda incerto no momento.

Não pode faltar sensatez!

 

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