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“Forward guidance” errático pode causar mudanças abruptas nas perspectivas!

A introdução do “forward guidance” nas avaliações prospectivas por parte dos Bancos Centrais, mais recente pelo Banco Central do Brasil, é uma valiosa ferramenta para orientação das diretrizes da política monetária, cambial e, por que não, fiscal.

Mas é fundamental que dentro do possível sejam assertivas e mantenham fidelidade com as percepções possíveis nos curtos e médios prazos, quando não no longo em situações mais estáveis, mas podem se transformar numa má orientação quando menosprezam evidências fortes presentes e com potencial de impacto no médio prazo, como ocorre no caso brasileiro, onde o BC/COPOM parece não se sensibilizar com a projeção do IGP-M na rota de 16% este ano, já havendo enormes evidências do “pass-through” dos preços do atacado para o varejo, convertidos em inflação.

A inflação está presente, não está por vir, assolando a renda dos assalariados pelo aumento dos preços dos alimentos fundamentais e, ainda, pela oneração dos serviços com preços administrados e não administrados, mas vinculados ao IGP-M, e solapando a renda dos consumidores que repercutirá na demanda do varejo e no efeito reversivo no atacado e na indústria.

A indústria, aliás, que fechou o segundo trimestre deste ano com uma ociosidade recorde, e para qual se nutre expectativas recuperatórias no terceiro trimestre. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor ficou 15,4% abaixo de sua capacidade produtiva, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), como destacado pelo Estadão/Broadcast. O resultado representa o pior desempenho da série histórica da pesquisa, iniciada em 1998. A última vez em que as empresas usaram toda sua capacidade produtiva foi no último trimestre de 2013.

Ademais, o BC/COPOM ao ignorar os efeitos danosos do IGP-M exponencialmente alto, inflacionário e redutor do poder de consumo da população, ainda não agregou os impactos fortemente redutores de renda do término de parte substantiva dos programas assistenciais do governo à população carente, que, notoriamente, tem ancorado a dinâmica da atividade econômica na atualidade.

Em entrevista à Reuters, o secretário do Tesouro, Bruno Funchal, ressaltou que “o Brasil não conta com espaço para errar na gestão das contas públicas pós-pandemia e que a elevação recente dos prêmios de risco na curva de juros é um alerta nesse sentido. A gente não tem espaço para errar. A gente precisa andar com as reformas”. E mais, afirmou “a verdade é que os preços refletem justamente a situação. É justamente um alerta”.

Há por parte do BC/COPOM um silêncio cúmplice em torno da tese do “câmbio alto juro baixo”, a qual não se recrimina como estratégia do governo com múltiplos objetivos, lamentavelmente ainda não alcançados, mas que inquestionavelmente precisa de sintonia fina visto que está com os parâmetros desalinhados e causando efeitos inflacionários e dificuldades para o governo na rolagem da dívida, que tem procurado contornar o problema com o encurtamento de prazos, o que não é uma boa diretriz.

Há uma realidade “viva e danosa” na economia brasileira, a inflação, não adequadamente admitida e por isso não focada pelo BC/COPOM que tem foco na inflação do IPCA do Boletim Focus, onde as instituições financeiras ainda indicam tendência de discreta queda da SELIC, mas que na prática reivindicam taxas de juros maiores para rolar a Dívida Pública do governo no “dia a dia” do mercado.

Este contexto contraditório entre uma realidade evidente e perceptível e a visão dos gestores governamentais cria efetivamente no horizonte prospectivo “uma nebulosidade” que cria incertezas e que agrava as taxas de juros futuras que acabam sendo migradas para o curto prazo, na medida em que o governo para evitar pressão maior reduz o prazo da dívida pública, o que não é uma boa prática.

A persistência sem sanção da realidade afeta a formação do preço do câmbio, que é consequência do juro baixo, já que não há no contexto do país razões fundamentadas para que o preço da moeda estrangeira seja aviltado, já que o país é credor líquido externo, não tem pressões de demanda em perspectiva e detém considerável volume de reservas cambiais que ancoram com tranquilidade o mercado de derivativos.

O descompasso no juro fora do ponto, até porque tecnicamente é questionável qual seja o ponto de “juro baixo” para o Brasil, além de distorcer o preço do câmbio impede que o governo tenha um forte canal de financiamento da dívida pública representada pelo fluxo de ingresso de recursos externos no país, totalmente desmotivado pelo parâmetro do juro praticado na atualidade.

Afora todos os pontos destacados ainda resta considerar o relevante fato da pandemia do coronavírus, ainda sem ter sido superada no país já poder estar voltando à cena com agravamento com abrangência global, e este é um ponto extremamente importante nas perspectivas de retomada da atividade econômica, até porque o país não tem nenhum espaço orçamentário para dar continuidade ao suporte à população carente como ocorrido.

O desafio para a retomada da atividade econômica no Brasil é grandioso, o exemplo dos Estados Unidos enunciado ontem por Jerome Powell, potência maior da economia mundial, é pontual para demonstrar a difícil trajetória à frente pós pandemia e deixa clara quanto são fúteis as perspectivas irrealistas postas sobre nossa situação.

Efetivamente, há muitas dúvidas e incertezas no horizonte brasileiro, e não nos parece que estejam ocorrendo atitudes visando minimizá-las e, desta forma, então, podem ser convertidas em danos duradouros.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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