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Emergentes sobre pressão. Brasil sinaliza que vai adotar austeridade!

Há um processo de reversão dos momentos mais favoráveis ocorridos nos mercados emergentes ao longo da crise iniciada em 2007, que vem se acentuando muito rapidamente na percepção do mercado global na medida em que economias desenvolvidas começam a reabilitar seus níveis de atividade econômica.

Grande parte dos emergentes aproveitou-se das benesses advindas dos programas de incentivo monetário estabelecidos pelos desenvolvidos, que acabaram por proporcionar excepcional nível de liquidez no mercado internacional que fluíram para seus ativos e impactos muito fortes nos mercados de “commodities”, um beneficio adicional que também foi amplamente capturado pelo Brasil.

Houve um período em que os emergentes, caso do Brasil, não tinham necessidade premente de investimentos, o que provocou uma perda de foco, e valeram-se da enorme demanda reprimida das classes sociais mais baixas às quais foi dado acesso ao crédito, e, então a roda da economia ganhou ritmo e foi até onde era possível, até ocorrer a evidência que a capacidade ociosa existente havia sido exaurida e era necessariamente o tempo de “ investir, investir e investir”, mas houve a insistência no modelo antigo e a economia perdeu ritmo e começou a colocar o risco de devolver gradualmente tudo que fora conquistado.

O governo deteriorou sua politica fiscal levando-a ao descrédito por práticas contábeis contestadas e ainda assim resultados efetivos percentualmente ruins e perdeu sua capacidade de investimento pesado como consequência do “gasto excessivo sem foco na qualidade” e o setor privado se sentiu desmotivado para investir e promoveu a complementariedade para atender a demanda com elevação brusca das importações de insumos e produtos semiacabados e acabados.

O governo tentou seguir o caminho da desoneração, mas fazendo-a na base do beneficio “a quem tem maior lobby” e não de forma horizontal como recomendável, não logrou sucesso, sendo até pouco crível que os montantes citados como renúncia fiscal pelo governo face à desoneração tenham ocorrido, visto que a ocorre antecipação de demanda nestes casos que provocam o efeito compensatório da arrecadação no mesmo período.

O Brasil passou a crescer pouco e a politica econômica do governo passou a gerar números muito ruins, provocando perda acentuada de atratividade para os investidores estrangeiros, que assim diminuíram acentuadamente os fluxos de recursos para o país principalmente a partir do final de 2012 e acentuadamente 2013, o que perdura agora em 2014.

O governo demorou a ter a percepção de que estávamos transitando dos “tsunamis” para a “ressaca” e embora tenha havido um sinal forte quando o FED colocou a hipótese do “tapering” as medidas flexionando os impeditivos ao ingresso do capital estrangeiro no país só foram liberadas tardiamente.

A inflação tornou-se um problema preocupante e o IPCA perdeu a expressão efetivamente real do comportamento dos preços, visto que os preços livres subiram de forma expressiva e foram atenuados pelo contingenciamento rigoroso imposto pelo governo sobre os preços administrados, que, contudo, em algum momento precisarão ser ajustados.

Os reajustes salariais acima da produtividade passaram a fomentar pressões inflacionárias.

O excesso de intervencionismo do governo na economia também tem papel relevante no recuo dos investidores estrangeiros.

As deficiências históricas de infraestrutura do país se fizeram mais notórias com a percepção de que neste quesito está grande parte da perda de competitividade do Brasil quando foca o crescimento, as exportações, a logística interna, etc…. O governo deu inicio ao processo de privatização demonstrando ímpeto, porém a nossa burocracia conspira e atrasa, e também o país precisava ter uma participação maior de investidores estrangeiros, neste momento de baixa atratividade para investimentos em setores produtivos, para que ocorram aportes contributivos ao fluxo cambial do Brasil.

Esta percepção parece ter norteado o discurso da Presidenta Dilma em Davos, ao buscar incentivar os investidores a aproveitarem as oportunidades de investimentos no Brasil, mas agora é necessário que passe efetivamente do discurso à prática.

Afinal, os IED´s a nível global cresceram 11% em 2013, e o Brasil teve o pior desempenho entre os Brics com os investimentos estrangeiros em capital tendo recuado de US$ 52,0 Bi para US$ 42,0 Bi, sendo que os empréstimos “intercompany” é que cresceram de US$ 13,0 Bi para US$ 22,0 Bi. Porém, com a queda de liquidez este ano e a elevação esperada do juro americano, a propensão de IED´s para o Brasil deve ser menor ainda.

Tanto é que já está na sua pauta a avaliação de elevação de superávit primário para 2% do PIB, sendo 1,5% pelo governo federal, com o contingenciamento de R$ 40,0 a R$ 50,0 B das despesas previstas no orçamento, viabilizando um esforço primário de R$ 80,0 Bi e os 0,5% restantes seriam oriundos dos Estados e Municípios.

Evidentemente, o mercado financeiro e até o setor produtivo devem observar esta atitude com grande ceticismo em ano eleitoral, quando tudo indica ao contrário, mas será uma sinalização importante para o mercado internacional, podendo com isto evitar ou protelar qualquer rebaixamento por parte das agências de rating neste ano, pois mesmo o descumprimento, se ocorrer, só seria aferido pós-eleições.

Por outro lado, a Presidenta Dilma citou em Davos que tem noção do efeito destrutivo da inflação. Evidentemente que a colocação tem sentido mais amplo, econômico e politico. Esta alusão nos deixou a leitura de que o combate à inflação será prioridade, visto que é o que mais afeta as classes médias e baixas que lhe dão suporte eleitoral, e que são muito sensíveis à perda de poder aquisitivo.

Tombini, Presidente do BC, falando em Londres reafirmou que o governo elevará a taxa de juro sempre que necessário e que monitora o câmbio.

Portanto, nos parece que a nossa projeção de SELIC a 11,50% ao final do ano está dentro do contexto atual.

No câmbio o BC deverá continuar com o empenho de conter a desconfiança dos detentores de passivos em dólares, ofertando “hedge” com a oferta de contratos de “swaps cambiais”, considerando até que com a saída de recursos que estavam já protegidos, a rolagem tenha folga para atender novos demandantes.

Porém, no mercado à vista onde o BC tem gerado liquidez com a concessão de linhas de financiamentos em moeda americana para que os bancos a repassem ao mercado constituindo “posições vendidas”, evitando assim a venda efetiva da moeda ao mercado, teremos momentos de forte demanda e isto deixa em aberto a possibilidade de eventual necessidade venda direta do BC ao mercado.

A rigor, entendemos que o esforço do BC, num ambiente de fluxos negativos, deverá ser de preservar ao máximo as reservas cambiais do país, escudo da solvência, pois ao contrário poderia ser entendido como fragilização e até suscitar movimentos especulativos sobre o real.

Em resumo, a tendência é que seja adotada uma postura de rigor fiscal e de combate a inflação, mas nem tanto no câmbio pois é preciso represar as reservas cambiais, sendo a opção primeira manter a estratégia de conceder linhas aos bancos. E na margem, o governo pode até entender que seja um incentivo para os exportadores com uma melhor taxa de conversão o que lhes aumentaria a competitividade.

 Estas atitudes procurarão passar uma postura de maior rigor e seriedade do Brasil no trato de quesitos importantes e altamente considerados pelo mercado internacional e seus investidores, mas não devem alterar radicalmente o ambiente negativo presente em torno do país de forma imediata, deixando-o “em estado de observação”.

Certamente, estas atitudes não pouparão o Brasil das pressões no setor externo que estão no radar no curto/médio prazo, até porque recursos efetivamente sairão do país em função do “tapering” do programa do FED e da melhora acentuada de algumas economias desenvolvidas, com destaque para a americana, que atrairá os capitais ora locados nos países emergentes.

Os fluxos de IED´s não serão intensos já neste ano em que o país continuará crescendo pouco e permanecendo sem atratividade e o déficit em transações correntes deverá ser efetivamente maiúsculo e teremos carência de fluxo suficiente para financiá-lo a exemplo do ocorrido em 2013.

A sinalização de mudança de postura por parte do governo certamente será positiva perante o mercado internacional, embora vista com certo ceticismo, mas as reações positivas não serão imediatas, POIS É PRECISO QUE O GOVERNO ENTENDA QUE AGORA O PAÍS PRECISARÁ ENTREGAR ANTES O QUE SE PROPÕE PARA RECONQUISTAR A CREDIBILIDADE PERDIDA POSTERIORMENTE!

O cenário atual já sugere que o preço da moeda americana atinja R$ 2,45 na virada deste mês, em caminhada célere para o R$ 2,50 ao final do 1º trimestre, como projetamos, com perspectivas de R$ 2,60 ao final do ano.

 

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