Câmbio News

Eleição fora do radar, foco reacende incertezas e, agora, com o retorno da covid!

Superado o momento das eleições municipais onde ficou uma dura mensagem de desalento, se assim entendida a magnânima abstenção, o foco é retomada pelo emaranhado de dúvidas e incertezas presentes no cenário brasileiro, envolvendo política monetária, envolvendo câmbio, juro e fiscal, e mantendo no centro das preocupações os programas sociais do governo.

Há inúmeros conflitos silenciosos entre mercado financeiro e empresariado no que tange a política cambial e de juro, e, mais acentuadamente como preocupação maiúscula a grave crise fiscal que limita as ações governamentais, culminando com enorme perda de tempo na tramitação claudicante das avaliações dos programas assistenciais do governo, que, em princípio, devem ser cessados em dezembro, justamente quando o 2º ciclo da pandemia do coronavírus dá evidências de ocorrência efetiva.

Afinal, até novembro os programas injetaram algo como R$ 250,0 Bi de recursos na economia e, inegavelmente, foram os responsáveis pelos sinais de recuperação de alguma atividade econômica, que, devemos admitir, poderão desaparecer com as suas interrupções.

O câmbio com preço fora do contexto começa a ensejar movimentos de reajustes de preços de produtos com componentes importados, visto é que inimaginável que o efeito produtividade possa compensar a elevação em torno de 35% havido como desvalorização do real.

Os reajustes serão inevitáveis e virão como uma segunda onda posterior ao já consumado nos alimentos exportáveis que contaminaram outros na cadeia produtiva, mitigados pelo Governo como “temporários” mas que já se fazem, ainda que discretamente, presentes no IPCA que tem forte viés de alta, sem que se mencione o absoluto desastre registrado pelo IGP-M já em linha de 24% este ano.

O e-commerce que foi altamente beneficiado pelos programas assistenciais do governo com o “input” de renda aos sem renda e que se tornaram potenciais consumidores, vive momento incerto e por isso os preços de suas ações estão tendentes a voláteis na Bovespa, pois os bons resultados podem não se sustentar.

Há acentuadas divergências entre o empresariado e o mercado financeiro no convívio do juro SELIC de 2% e a inflação IPCA já em linha de 4% e o governo sendo fortemente pressionado no quesito juro para conseguir rolar a Dívida Pública, que tem vencimentos relevantes no 1º quadrimestre e, também, ao longo do ano, e que é levado a encurtar o prazo da Dívida e a ofertar juro mais elevado.

O desemprego que atinge 14,6%, algo como 14,1 mm de pessoas aptas ao trabalho, segundo projeções de inúmeros economistas por se elevar a 17% em 2021, já que uma grande parte dos desalentados, mas acomodados nos programas assistenciais do governo, tendem a retomar a busca de trabalho.

Agora, de forma mais perceptível já com números consistentes, temos o retorno em 2º ciclo da pandemia do coronavírus, que naturalmente será contestada em seu reconhecimento no primeiro momento pelo Governo, mas que já está lotando os hospitais e que deve ensejar a retomada de medidas restritivas às atividades normais e isto impactará na atividade econômica.

O governo não tem de onde tirar mais recursos, está enrascado para interromper os programas assistenciais que implantou quando do 1º ciclo da pandemia, e, seguramente, será novamente pressionado neste 2º ciclo que se vislumbra, acentuando a grandiosidade da “encruzilhada” em que se encontra, e elevando as preocupações com o rompimento do teto orçamentário, situação que tornaria calamitoso o quadro fiscal.

Dada a grandiosidade da liquidez internacional e a distensão com o rigor da aversão ao risco com a definição da eleição de Biden para o governo americano, o Brasil, ainda que com volumes absolutamente irrisórios de recursos externos ingressados sinalizou melhora acentuada na Bovespa, mas não na renda fixa o que é natural e nem como investimentos em conta capital como necessário até porque o programa de privatizações do governo não saiu do papel, mas tem sido direcionado para as ações consideradas “blue chips” tradicionalíssimas, ainda não sendo considerados estáveis e motivadores para IPO´s.

Afinal, nos áureos tempos o Brasil teria sido inundado de recursos externos já que a disponibilidades global é falada em US$ 3,0 Tri e para o Brasil vieram até agora algo em torno de US$ 5,0 Bi.

Há muito a ser feito e de forma abrangente e com a necessária urgência, dentre as quais inicialmente a mudança do “forward guidance” do BC, já que está distante da realidade com a qual o país convive e que as autoridades abandonem as longas e repetitivas retóricas sobre planos e intenções e materializem as propostas das reformas imprescindíveis assumindo o protagonismo e articulações políticas para alcançar os objetivos, bem como no fundamental programa de privatizações, sem o que as perspectivas serão as piores possíveis para 2021.

Dúvidas e incertezas dominantes e carentes de ações efetivas, e, a concomitância do retorno da problemática do coronavírus, em seu 2º ciclo, criam “nebulosidade” intensa na visibilidade ou formulação de tendências no curto prazo para o câmbio, juro, risco fiscal, e também desempenho da Bovespa, tornando o ambiente geral muito desconfortável e incerto.

Imperativo que se observe muito!


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO Corretora de Câmbio

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