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Economia ancorada nas perspectivas de vacinas resiste aos temores com a pandemia!

A despeito do quadro sanitário agravado pela 2ª onda do coronavírus na Europa e nos Estados Unidos, o que impõe a necessidade de novos programas financeiros em volumes substantivos para dar suporte ao enfrentamento da crise decorrente, há sinais claros de que a “convivência” da situação problemática com o incremento da retomada da atividade econômica é um esforço melhor acomodado nesta fase.

A coincidência da mudança do comando presidencial americano a partir de janeiro, com perfil mais conciliador e menos tempestivo e imprevisível no confronto, com os anúncios mais concretos de avanços no campo das vacinas protetivas à população ao vírus do coronavírus, com expectativas de disponibilização cada vez mais breves, anima a economia global e fomenta o otimismo no mercado financeiro global, se bem que há inúmeras diferenças no “status quo” das economias, afetadas pelos desgastes com a pandemia.

Evidentemente, não há e nem se pode esperar recuperação harmoniosa e simétrica da economia global, mas, inegavelmente, o humor está mudando e é perceptível que “os medos e receios vão dando espaço às novas esperanças”.

Há a clara sensação de que pode deixar de piorar e ser mais assertiva a recuperação, se bem que significativamente diferente economia para economia, mas havendo reflexos inter economias que acabam colocando todos na mesma rota, se bem com intensidade diferentes.

A empolgação sempre conduz a erros pelo imediatismo, portanto é relevante que toda esta trajetória de recuperação seja acompanhada com extrema sensatez.

Inúmeras economias de grande porte tinham no imaginário que a recuperação dar-se-ia em V, como algo rápido no retorno, mas agora concluem que o desafio da retomada é muito maior, havendo necessidade de grandes aportes financeiros para estimular hábitos de consumo da população que devem revelar-se bastante díspares dos antecedentes à crise, e isto impactará nas repercussões em vários segmentos dependentes da economia, o emprego e a renda.

O “novo novo” sugere outro perfil de comportamentos, tendendo a posturas de consumo mais defensiva, foco maior na poupança e redução da demanda de mão de obra, com utilização intensa dos avanços tecnológicos.

É provável que o mundo ainda não tenha se apercebido da efetiva importância dos programas de apoio governamental às economias e, em especial, aos consumidores, principalmente os de menor capacidade de consumo.

Por enquanto, se observa que as economias estão reagindo e procurando soerguer-se ainda que persista a crise do coronavírus, sem menosprezá-la, mas ainda não se tem a efetiva dimensão dos efeitos dos desarmes que deverão ocorrer com menor participação contributiva dos governos para dar suporte à retomada das atividades econômicas.

O otimismo gera aquecimento das bolsas de valores ao largo do mundo, mas nem sempre com efetiva boa correlação, visto que são realidades diferentes a despeito do conceito de economia global.

Estados Unidos e Europa parecem ter problemas maiores com a 2ª onda da pandemia do coronavírus e devem implementar novos programas de suporte, enquanto que no Brasil ainda não há sinais concretos desta ocorrência, enquanto a China parece mais segura nos avanços da recuperação e até mesmo nas articulações político-comerciais.

No Brasil há retóricas e promessas em demasia e pouca efetividade na condução das reformas imprescindíveis, e a economia dá sinais de recuperação sem que saiba efetivamente o quanto deste movimento é devido à própria ação do governo injetando recursos na economia com seus programas assistenciais, que impactam ajudando o consumo, mas que comprometem cada vez mais a crise fiscal.

O ambiente predominante é de incertezas e insegurança visto que ante a premente necessidade de manter auxílio às classes menos favorecidas, a tentação/possibilidade de rompimento do teto orçamentário é real.

O governo, face à redução da aversão ao risco a nível mundial pós Biden, deve necessariamente rever a coerência entre sua política monetária e cambial e ao invés de olhar para os interesses únicos de redução de custos de carregamento da Dívida Pública, mas com efetivos efeitos negativos na capacidade de rolagem que lhe impõe negativa redução de prazos, deve, dada as limitações atuais, recompor-se à realidade e viabilizar maior facilidade para que tenha melhor condição de rolagem da Dívida Pública e possa alonga-la outra vez, já que há um volume trilionário de dólares na economia mundial desprendendo-se para assumir riscos, mas em aplicações de longo prazo com retorno.

É imperativo que as reformas sejam implementadas rapidamente tendo o governo como protagonista, mas é fundamental que haja uma melhora assertiva na relação câmbio e juro, que está absolutamente fora dos parâmetros de normalidade.

O dólar está com preço elevado no Brasil pela insegurança com a questão fiscal e não pelo fundamento, já que o país é credor em moeda estrangeira, e a dicotomia passa pelo irrealismo do juro praticado considerando que é um país emergente.

O efeito Biden pode dar a impressão de que está ocorrendo um ajuste, mas decorre da depreciação do dólar e o que é necessário é que o real se aprecie efetivamente frente ao dólar por razões próprias, e o juro precisa ser equalizado à realidade brasileira, não como instrumento direto de combate à inflação como outrora, mas para que atenda a necessidade técnica de simetria.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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