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Dólar: preço atual é tóxico para a economia brasileira, o risco é de agravamento!

A questão fiscal brasileira que leva o governo brasileiro a um “corner” em que necessita, urgentemente, avançar com as propostas econômicas no Congresso, em especial a PEC emergencial que acionará gatilhos de contenção de despesas e visa criar o novo programa social do governo, hoje reconhecidamente como principal fator de impulsão da economia nos últimos meses, mas para o qual o governo não tem mais recursos enquanto não definidos remanejamentos de acomodação para haver fonte de financiamento, é o ponto crítico neste momento.

O tempo é exíguo!

Sem recursos para bancar a fonte efetiva para fomento do consumo presente na economia e num ambiente em que há uma forte pressão colocando em risco o rompimento do teto orçamentário, que seria traumático se ocorrer de forma desorganizada, o governo convive com incertezas que criam insegurança ao mercado financeiro.

Esta perspectiva incerta e nebulosa faz com que o preço do dólar se mantenha no parâmetro de R$ 5,60, não estando acima ainda em razão de a moeda americana vir se fragilizando no mercado internacional e assim mitigar a pressão maior na formação do preço no mercado nacional, onde é o ativo referencial como porto seguro quando a insegurança prevalece, e este movimento defensivo ocorre a partir do mercado de dólar futuro, com a realização de operações focando simplesmente a segurança de preservação de valor e não de forma clássica de “hedge” ancorando um passivo em moeda estrangeira.

A volatilidade que se observa com as operações de “day trade” no mercado sugere muito cuidado por parte dos players deste segmento, há possibilidade de descolamento para pior deste preço atual com o passar do tempo sem solução para o entrave enfrentado pelo governo, e, o BC não tem se revelado pró-ativo na sua ação profilática diária, restringindo-se a rolar as posições de swaps cambiais vincendas e não ofertando novas com o intuito de “amortecer” previamente quaisquer pressões que possam criar maior disfuncionalidade no preço.

O preço do dólar a R$ 5,60 já é tóxico para a economia brasileira, reboteia inflação na cadeia de produtos alimentícios exportáveis de forma intensa, criando desorganização nos preços relativos da economia ao provocar um IPCA que não sanciona e corrige a renda do trabalhador e o que o IGP-M capta e expande para os preços dos serviços, sendo um fator indireto de redução de poder de consumo.

Estamos numa linha tênue em que se não houver evolução na equação falta de recursos e necessidade de manter os programas assistenciais, o quadro fiscal que já é altamente preocupante possa induzir postura defensiva mais agressiva por parte dos investidores, e então o preço da moeda americana, ainda que não haja fluxo cambial de saída de recursos do país, galgar patamar mais elevado.

Por isso temos advogado a idéia de que o BC deva agir cautelar e previamente irrigando o mercado de câmbio futuro com oferta de swaps cambiais novos, sinalizando que está e estará atento para qualquer disfunção maior e tentando baixar o patamar atual de R$ 5,60.

É importante observar as ordens das coisas, movimentos pontuais que por vezes apreciam o real não decorrem da moeda nacional, mas sim da flutuação do preço da moeda americana no mercado internacional, visto que o viés do real persiste de desvalorização que, contudo, é mitigada pelo fato.

Hoje é um dia que pode haver intensificação da volatilidade também por fatores externos, visto que, se espera, possam ocorrer avanços ou retrocessos no andamento das discussões do pacote fiscal americano, e, este fato que visa “oxigenar uma vez mais” a economia americana para superação dos efeitos danosos da crise da pandemia do coronavírus se desenvolve às vésperas das eleições presidenciais americanas.

Outro fato que deve estar no radar brasileiro, embora os números atuais sinalizem queda da incidência de contágio e mortalidade, é o retorno do agravamento da crise do coronavírus, que já assombra as maiores economias do mundo, e que se por infortúnio vier a ocorrer no Brasil o encontrará sem recursos, já envolvido numa expressiva crise fiscal.

A perspectiva sugere que o BC altere a sua rotina de leilões de rolagem e atue também para amenizar a toxicidade da taxa cambial presente, agindo preventivamente de forma profilática buscando atenuar pressões sobre a formação do preço do dólar no nosso mercado e o induzindo a patamar mais baixo.

O BC e o Ministério da Economia tem evidente dificuldade em admitir a toxicidade do preço atual do dólar, pois teria que reconhecer o insucesso da estratégia do “câmbio alto juro baixo”, que não é fundamentalmente uma má ideia, mas que no Brasil perdeu os parâmetros fundamentais de simetria que deveriam prevalecer.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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