Câmbio News

Discreto otimismo parece ser tendência a ter curta duração

O comportamento do mercado financeiro, ontem, deixou evidente que aquele discreto otimismo insinuado a partir da indicação dos novos membros da equipe econômica para o segundo mandato da Presidenta Dilma evidencia arrefecimento sinalizando curtíssima duração.

O discurso de posse da Presidenta Dilma e a necessidade do Ministro Barbosa ter que retirar o que havia afirmado sobre o salário mínimo, deixam os primeiros sinais marcantes de que houve excesso de expectativas favoráveis sobre o que a nova equipe poderia mudar na política monetária e fiscal para efetivamente recompor o país para a superação do drástico quadro macroeconômico presente.

E para completar a herança de última hora deixada pelo Secretário do Tesouro torna mais difícil a já desafiadora missão dos novos gestores da economia.

A grande dúvida após a divulgação dos novos nomes da equipe econômica era até que ponto teriam liberdade para implementar mudanças, dúvida que agora parece ter se exaurido prematuramente.

Assim, a probabilidade é de que o ajuste ocorra a partir de elevado número de aumentos de preços, principalmente administrados, e no mais tudo seguindo como era dantes num cenário preocupante de crescimento baixo, inflação alta, baixa poupança e investimentos internos e externos em retração.

Os programas sociais do governo podem ser altamente comprometidos, não por suas extinções, mas pela própria erosão do poder aquisitivo dos seus valores a partir da inflação, não a medida pelo IPCA , mas aquela objetiva que se verifica no consumo dos bens essenciais a partir dos supermercados.

O Brasil que já é contextualmente considerado pelo mercado internacional um país frágil poderá ter agravada esta percepção e perder fluxos de recursos externos de forma mais intensa que prevista , seja na forma de investimentos rentistas, seja na forma de investimentos em conta de capital.

Há enorme possibilidade do fluxo líquido de recursos externos se tornarem negativo, impactando ainda mais sobre a formação do preço da moeda americana que por si só já tende a sustentar viés de alta no mercado externo face à recuperação da economia americana.

É muito provável que tenhamos um 1º trimestre absolutamente inverso em termos de fluxo cambial confrontado com idêntico período do ano passado, prevalecendo desta vez não o ingresso marcante de capitais especulativos, mas sim de saídas de recursos do país.

O preço elevado do dólar em tese deveria estimular a produção industrial, de vez que agrega competitividade no mercado externo para as exportações e encarece o produto importado abrindo espaço para a retomada pelo produto nacional no mercado interno.

Contudo, para que a indústria recupere produtividade e competitividade, serão necessários investimentos estruturais em grande monta, e, num quadro de crescimento persistentemente baixo, inflação elevada, juros altos e aumento de impostos, o empresariado poderá contrariar negativamente as expectativas.

E a retomada do dinamismo da atividade industrial é o que poderia ser alcançado de forma mais imediata com a elevação do preço da moeda americana, incrementando as exportações, as vendas no mercado interno, gerando emprego e renda.

No nosso entender o setor externo será inquestionavelmente um grande entrave perturbador para os gestores da política econômica brasileira, realidade que ainda não foi objeto dos “holofotes” na maioria das análises que estão muito centrados na política fiscal e inflação para este ano.

O fluxo cambial para o Brasil e, também, sua balança comercial tendem a consolidar números de fechamento do ano de 2014 bastante desapontadores, e, nos parece que a tendência será continuada de forma irreversível.

O Banco Central do Brasil deverá utilizar os bancos operando com “posições vendidas” para financiar a liquidez do mercado à vista. Mas a questão é até quando e até quanto? Já que caberia à autoridade monetária este suprimento de liquidez com base nas reservas cambiais do país.

Naturalmente não será nenhuma surpresa o preço da moeda americana atingir no 1º trimestre o preço de R$ 2,80 que o FOCUS projeta para o final do ano, atingindo naturalmente R$ 3,20 ao final do ano.

Evidente que este fato impactará fortemente nos preços relativos da economia brasileira, promovendo maior pressão inflacionária e tornando absolutamente necessárias taxas de juro SELIC acima dos 12,50% projetados pelo FOCUS.

Poderá se fazer presente na economia o “espiral inflacionário”, velho conhecido da economia brasileira e um complicador de grande repercussão danosa aos propósitos do governo.

É possível que seja diferente? Evidentemente que sim, mas a dinâmica de retirada do país do lamentável estado de deterioração do seu “status quo” precisará ser de extremo rigor, contrariando dogmas ideológicos o que provocaria desgastes ante o eleitorado, sem o que não haverá avanços positivos.

O cenário prospectivo para o setor externo brasileiro não pode estar fora de nenhuma projeção ou análise focando o ano de 2015.

O mercado internacional emite maus ventos aos emergentes. O preço do barril de petróleo cru caiu a US$ 50,00 e já há projeções que o colocam a US$ 40,00 e não considera US$ 30,00 o barril inviável. O Iraque insinua que pode exportar a mais 3,2 milhões de barris/dia em janeiro colocando mais pressão baixista no preço. Por outro lado o embate entre Alemanha e parceiros no sentido de que a Grécia saia do Euro torna a euro zona num “caldeirão em ebulição” dentro de um cenário de não crescimento e que pode ter desdobramentos além da Grécia, o que provoca o “derretimento” do Euro frente ao dólar que se fortalece até pelo forte deslocamento dos recursos internacionais para os “T-Bills” que se valorizam e fecham suas curvas de juros “Yeld”.

Cada vez fica mais evidente que 2015 será um ano globalmente muito complicado, e para os países emergentes fragilizados muito mais, que é o caso do Brasil.

 

Compartilhar :
plugins premium WordPress