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“Covid a mil”, vacinação politizada, dissensos, crise fiscal e então chega 2021!

Ufa! É mesmo uma ousadia prospectar-se sobre como será o 2021 do Brasil, sem que se recorra a “fantasias e anseios” desprovidos, até então, de sustentabilidade.

O país reingressa de forma contundente na nova rodada da pandemia do coronavírus que se revela com números dantescos e já neutralizantes da atividade econômica, e que, embora fato real, tem sido até certo ponto ironizada pelo governo, a despeito da mortalidade diária.

O governo, relutante e de forma estabanada, tardiamente, reage com um programa de vacinação conturbado e conflituoso, politizado pela ausência de apoios convergentes em linha positiva, judicializado mais uma vez para encontrar solução pacificada, e que, agora é posto como a “tábua de salvação” para superar o impedimento à volta ao trabalho e propagar defensivamente a não mais dependência financeira da população carente dos programas do governo, já que este, o governo, está com as finanças ruídas, e hilariamente atribui inexpressividade ao retorno da pandemia.

2021 projeta um imbróglio, e há quem imagine que poderá ser mais traumático do que 2020 a despeito da possibilidade de imunização de parte da população com vacinas, pois, certamente, aflorarão os enormes problemas estruturais carentes de ações mais efetivas por parte do governo e que são os maiores responsáveis por emperrar o desenvolvimento social e os resultados macroeconômicos, e que passaram este ano acobertados pela pandemia.

É preciso ter sempre em mente que o Brasil já vinha com a sua atividade econômica em ritmo fragilizado e tinha “visões” de melhora nem sempre sustentáveis.

O país vinha com baixo ritmo de crescimento de 1,1% em 2019 e, neste 2020, a despeito da pandemia retrocederá somente 4,5%, então retornar aos parâmetros antes da pandemia, que ainda não se foi e está retornando com força, não é algo a que se deva comemorar com eloquência, visto que já não era brilhante e até por isto caiu tão pouco, afinal a “altura em que estávamos” já era baixa e com cenário de atividade econômica claudicante.

O país continua com baixa competitividade nos negócios e isto dificulta a retomada da atividade forte em 2021, tão esperada e propagada com forte teor de anseio por setores de influência, convive com preocupante crise fiscal e altíssimo desemprego na economia, com baixa perspectiva de reação, pois se por um lado as vacinas representam a esperança, o término dos programas assistenciais do governo representam desalento, e as vacinas têm um objetivo sanitário substantivo, mas não geram empregos, o que gera emprego são investimentos e estes foram em 2019, ano considerado normal, tão somente 15% do PIB, uma das mais baixas da história brasileira.

Vivemos algumas “fantasias” como o juro de 2%, amparado por inúmeras teorias, metade da inflação corrente, não há reflexos diretos disto com efeito na ponta do crédito que continua com custos elevadíssimos, com capital de giro em torno de 26% a 30% e o cheque especial, refúgio de grande parte da população, a 350% ou mais, mantendo o setor financeiro de crédito sempre como o mais promissor da economia, face ao lucro certo.

É verdade, o governo economiza no custeio da soberba Dívida Pública, incrementada de forma contumaz por gastos de má qualidade, mas não consegue reação do setor produtivo com investimentos focando intensificar a competitividade, há muitos complicadores tributários desmotivadores, e com isto arrecada menos.

O governo buscou implantar a filosofia do “câmbio alto e juro baixo”, e com a elevação do dólar só incrementou a competitividade dos produtos que já eram competitivos, em especial do agronegócio, não colheu a recíproca esperada de reconstrução da atratividade do país para investimentos nacionais e estrangeiros, ainda falta motivação aos empresários nacionais e investidores estrangeiros, mas colheu retorno forte da inflação de forma desordenada entre os inúmeros indicadores das várias inflações que o país apura, dada a repercussão imediata na cadeia de produtos alimentares exportáveis, que o BC/COPOM tentou mitigar como “temporário”, mas que no Brasil sabidamente é sempre definitivo, mesmo quando o preço do dólar recrudesce, e que já aponta IPCA em 4,5% e IGP-M em 25% este ano e o BC projeta IPCA em 6,4% em 2021, se não for contornada a crise fiscal.

Com o término dos programas assistenciais do governo, certamente, a repercussão na demanda agregada será intensa, a partir do varejo e depois na cadeia produtiva, não sem se deixar de considerar a possibilidade da intensificação da inadimplência, e mais, o aumento dantesco do desemprego real no país, até então reconhecido em 14 milhões de desempregados que deverão agregar quase montante igual de atuais desalentados que passarão a procurar emprego e que estavam acomodados com a ajuda governamental.

Certo é que 2021, se a pandemia permitir, precisará de um Governo e Congresso mais focados nos relevantes interesses do país, priorizando as reformas imprescindíveis modificando o quadro institucional ineficiente prevalecente no país, mais convergente e rápido e com protagonismo eficiente de parte do governo, caso contrário será mais um ano perdido.

Os sinais prematuros da sucessão na Câmara, principalmente, não induzem ambiente pacificado.

O cenário externo, a despeito de a pandemia persistir, tem se mostrado convergente e sem negacionismo típico do governo brasileiro em torno das vacinas, com constantes e volumosos programas de fomento a retomada das atividades econômicas e isto fomenta o otimismo num 2021 de recuperação e crescimento.

O Brasil poderá até se beneficiar desta “onda global”, mas se continuar conflituoso politicamente e sem avanços em matérias fundamentais que induzam a melhora da crise fiscal, certamente poderá perder o “bonde outra vez”.

O incremento da BOVESPA depende de como seja construído pelo governo a sustentabilidade desejada para as perspectivas da atividade econômica e adequação da crise fiscal e avanços nas reformas, por enquanto há muito euforismo transfigurado em otimismo, mas baixa sustentabilidade e o dólar, considerando-se a continuidade da fragilização da moeda americana no mercado internacional, manterá o viés de depreciação, mas o Brasil se mantendo inerte, conflituoso e contraditório poderá criar os fatores de contenção desta tendência no nosso mercado de câmbio.

A única certeza presente em relação a 2021 no Brasil é a prevalência das incertezas!

É absolutamente necessário equilíbrio e sensatez para compatibilizar anseios e realidade, e ter a noção exata do desafio à frente.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO Corretora de Câmbio

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