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Cena externa projeta 2021 melhor! Brasil está muito atrás da curva, reagirá?

A economia global deve apresentar recuperação até mais harmoniosa a despeito dos relevantes danos causados pela pandemia do coronavírus, que a despeito de tudo ainda se faz presente e pode até ser neutralizante em determinados momentos, mas já há a realidade das vacinas que é um antídoto poderoso no processo de reação e de retomada da atividade econômica, ancorada em soberbos programas governamentais de apoio ao reordenamento dos pontos mais relevantes que foram mutilados ao longo da crise.

Esta resposta há “esperança” e há um melhor entendimento de convívio com a pandemia, que ainda demonstra vitalidade, mas há otimismo.

Nos Estados Unidos, Congresso e Presidente aprovaram soberbo programa de suporte à superação da pandemia, gastos, auxílio desemprego, etc.. da ordem de US$ 2,3 trilhões e a vacinação ocorre em massa na população.

A União Europeia se reorganiza gradualmente, com apoio de inúmeros programas governamentais e vacinação em massa, acreditando piamente num “novo tempo” e alcançando o Acordo possível com a Grã Bretanha, acomodando o Brexit, criando perspectivas muito favoráveis.

Os países asiáticos, com ênfase à China, demonstram forte recuperação e retomada.

Contrariamente, a despeito de esta percepção desagradar a muitos, o Brasil se comporta efetivamente como país subdesenvolvido e está muito atrás da curva que projeta perspectiva alvissareira no curto prazo para o mundo, e se perde em embates verborrágicos rasteiros entre autoridades e sem foco no principal.

Na realidade, o Brasil é um país desagregado na busca dos seus interesses maiores, retomando a prática da velha política que inibe a evolução e plantando a discórdia um tanto generalizada, o que fomenta a ausência de convergências e estimula a divergência destrutiva, e não consegue viabilizar de forma consistente os seus interesses primordiais em torno das reformas e, dada a sua expressiva crise fiscal, está encerrando seus programas assistenciais vigentes durante os 10 meses iniciais da pandemia, já que a mesma continua presente e aquecida, devolvendo a situação abaixo da pobreza uma enorme parcela da população.

O governo não tem capacidade de prover a economia com os investimentos estruturais fundamentais e urgentes e, por outro lado, não consegue despertar no setor privado o ímpeto necessário nos investimentos produtivos. Os discursos mencionando privatizações em perspectiva e iniciativas reformatórias já merecem baixa credibilidade.

Por vezes, parece que já estamos num clima eleitoral.

O governo tem cometido erros estratégicos dos quais agora colhe frutos ruins como o ressurgimento forte da inflação, parcialmente reconhecida, e o forte desajuste no IGP-M que ainda vai causar danos e conflitos relevantes no segmento dos serviços, que terá dificuldade para ganhar a tração necessária visto que representa 70% do PIB, e acaba tendo os preços relativos totalmente desordenados.

Com sua política monetária e cambial ambígua promoveu o incentivo às exportações do agronegócio, muito concentrados na China da qual repudia as vacinas protetivas do coronavírus, e causou enormes prejuízos à população que viu a renda já cadente ser deteriorada por elevada carga inflacionária nos bens essenciais, com destaque aos alimentícios exportáveis.

Mas o cenário prospectivo, a despeito do otimismo pouco sustentável, mas intensamente estimulado, tem pontos extremamente nebulosos, visto que não se tem efetiva mensuração da dimensão do impacto negativo no consumo do fim dos programas assistenciais do governo ao longo da pandemia, e que transformou em consumidores os não consumidores e que agora devolverá, sem dúvida, um número considerável de “novos desempregados” que já estavam desempregados e não apareciam nas estatísticas, pois estavam acomodados com as receitas dos programas.

Qual será o impacto direto no consumo e na cadeia produtiva? Que potencial terá para reverter os índices positivos expressados pela indústria e o comércio e o quanto fará retroceder mais os serviços?

São pontos de interrogações que só o tempo, ainda que no curto prazo, saberemos efetivamente quais as respostas.

O nível de investimentos precisa crescer exponencialmente, pois o país tem baixa competitividade nos negócios e isto dificulta a retomada já em 2021, enquanto que o setor produtivo sem o “espírito empreendedor” requer menos impostos e burocracia e o governo, com recursos exauridos pelo gasto de má qualidade, precisa de mais impostos e tem Dívida Pública crescente.

Dólar com preço alto é enganoso porque transparece uma competitividade do nosso produto inexistente, por isso há predominância do agronegócio e muito baixa dos demais produtos que não tem valor agregado e nem tecnologia.

Tem ocorrido a depreciação do dólar frente ao real, como consequência da fragilização da moeda americana no cenário global, sem que haja quaisquer méritos diretos da nossa moeda, mas os fatores negativos pontuais do Brasil neutralizam potencial maior de queda do preço oferecendo resistência, enquanto que a Bovespa está atraindo algum montante ainda não relevante, como possível, de recursos externos, mas pontualmente direcionados para “blue chips” e alguns papéis de momento, mas não para investimentos acreditados duradouros já que ainda não há clareza sustentável sobre desempenho da nossa economia, e isto pode ser interrompido se houver a percepção dos investidores estrangeiros de que o país continua travado e que há inúmeras outras oportunidades em outros países em desenvolvimento.

Ontem, pontualmente, o dólar apreciou-se fortemente frente ao real, mais do que ante as demais emergentes, mas houve razões efetivas para tanto e pode persistir, pois a demanda para zerar US$ 16,0 Bi de “overhedge” dos bancos em perspectiva foi atenuada com tão somente oferta de contratos novos de “swaps cambiais” da ordem de US$ 10,0 Bi, e na semana de 14 a 18 deste mês o fluxo cambial foi consistentemente negativo na ordem de US$ 4,223 Bi, sendo US$ 3,368 Bi no financeiro e US$ 854,0 Mi no comercial.

Evidentemente, houve ontem e nos últimos dias e continuará havendo demanda que deve se acentuar nestes últimos dias do ano, razão pela qual acreditamos que o BC deva ofertar contratos novos de swaps cambiais e até mesmo realizar novas ofertas de dólares à vista mais relevantes do que a que realizou ontem da ordem de US$ 530,0 Mi, bastante tímida, para evitar exacerbação maior do preço da moeda americana.

Enfim, perspectiva geral em torno do ano de 2021 para o Brasil é de que se não fizermos por nós, o mundo não o fará, e podemos ficar à margem do movimento recuperatório global.

O Brasil precisa de mais ATITUDE e menos RETÓRICA!


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO Corretora de Câmbio

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