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Ambiente complexo fomenta popularidade, em oposição a dura realidade agrava risco

Não é fato novo que a grande maioria do eleitorado brasileiro, grosseiramente falando, vota com o “estômago”, se cheio aplausos, se vazio críticas. É natural num país com tantas desigualdades e carências por parte da sociedade.

Este é o “corner” em que se encontra o governo, se continuar com os generosos programas assistenciais que estão dando suporte à população carente, que é predominante no país, a questão fiscal se agravará ainda mais como risco para a retomada da atividade econômica e atratividade para o país, mas a popularidade do Presidente se manterá em alta, enquanto que, se houver interrupção restará uma questão social preocupante e as críticas se tornarão enfáticas, com queda da popularidade.

Neste ponto há um desencontro entre a postura do Presidente e preocupações com os gestores da área econômica, em especial o Ministro da Economia, pois há uma tentação por parte da autoridade máxima de romper os tetos orçamentários corroendo de forma mais intensa os tetos orçamentários por motivos políticos, o que poderá intensificar a crise fiscal.

Esta ausência de protagonismo e dualidade de posturas constantes em ações diretamente focadas na retomada, além da Reforma Tributária, já afetou outros setores fundamentais que envolvem os Programas de Privatizações e de Desburocratizações que estão travados, reduzidos a meros “discursos” em torno dos temas.

No nosso ponto de vista é fundamental entender que o “crescimento sinalizando recuperação da atividade econômica”, excetuando do agro negócio, advém de reação de demanda provocada pela massa de recursos destes programas assistenciais e do crédito, em especial, dos cartões de crédito, de vez que não há renda sustentável para ancorar a longevidade do desempenho do varejo, que como consequência tem puxado a produção industrial.

O setor de serviços ainda vem claudicante e sugere recuperação muito lenta e provavelmente retomando dinamismo gradual com mudanças profundas estruturais como legado da crise da pandemia do coronavírus, que ensejou novas práticas e hábitos. O novo normal do setor “serviços” poderá surpreender mantendo a relevância no PIB, mas gerando número menor de empregos.

É notório que o país como um todo “patina” na busca da retomada, mas ainda não são sustentáveis as forças que vem dando a dinâmica inicial muito festejada, e seus indicadores econômicos poderão se revelar inconsistentes no curto prazo.

O “boom” no varejo decorre de demanda reprimida que está sendo atendida por meios que tendem a interromper-se quando cessar o fluxo de recursos generosos dos programas assistenciais, e/ou, desaguar em expressivos números de inadimplência no sistema de cartões de crédito, que interromperá o ímpeto de consumo.

Por isso, a tendência da Bovespa é “andar de lado”, pois a economia não enseja otimismos sustentáveis, então há a volatilidade impulsionada pelo “day trade”, estimulado aos novos investidores pessoas físicas, que promove excepcional lucro a B3 com a intensificação dos volumes de negócios.

Na realidade não há ambiente para projeções muito além do curto prazo, havendo uma “nebulosidade” que impede que se tenha visão confiável do médio e longo prazo, pois afinal não se tem nem convicção de que o pico da crise do coronavírus tenha sido superado e não haja o risco de uma segunda rodada, sendo a esperança efetiva a vacina.

O dólar “transita” entre R$ 5,00 e R$ 5,50 e mesmo com o quadro fiscal deteriorado parece estar imune visto que o piso de R$ 5,50 já contempla a eventual pressão do desajuste, e alterna momentos adversos e benignos e convive com intensa volatilidade, eficiente geradora de receitas à B3 no mercado futuro, a qual se atribui culpa ao novo normal do juro extremamente baixo.

A volatilidade implícita nas opções de dólar/real para 3 meses, fortemente especulada, retomou a intensidade de 20% a exemplo do ocorrido no começo de julho e está em linha com a lira turca

Não tem, a rigor por enquanto, motivos e fundamentos para sair deste parâmetro de intervalo de preço, pois continua sem perspectiva de acentuar demanda ou oferta, e assim o BC permanece atento com suas intervenções profiláticas, mas poderia estressar se ocorrer um rompimento do teto orçamentário de forma abrupta.

Em suma, o mercado financeiro brasileiro parece conviver com um momento “sem graça”, repetindo-se com “mais do mesmo” cotidianamente e procurando “contagiar-se” com dados externos positivos e dentro do possível não focar com rigor os grandes desafios internos.

Outro dia, um leitor sintetizando seu pensamento afirmou: “Quem não está pessimista é porque está mal informado”, e é bem provável que não esteja distante da percepção correta.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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