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Agosto deixa evidências mais efetivas a respeito do Brasil e os desafios presentes

Agosto foi um mês marcante, pois conseguiu impor maior observação aos desafios presentes para o país, centrando o foco, e menos nas demais economias globais, naturalmente sem perder de vista, mas sem “vibrar” com os sucessos alheios e meio que desprezar ou fazer vistas grossas para os nossos problemas e a fragilidade dos dados até agora apurados, aos quais se atribuem ocorrência de “recuperação da atividade econômica”.

Aflorou de forma contundente a questão da crise fiscal, que é fator determinante quando se imagina planejamento governamental para impulsionar as atividades fundamentais, e que surgiu como “um sinal vermelho” sem que ao longo do tempo haja sido apontado o “sinal amarelo”, e que já era grave antes da crise da pandemia e que se acentuou com os enormes dispêndios do governo com os seus programas assistenciais generosos à população carente e a queda acentuada da arrecadação de tributos face a perda de atividade da economia ao longo da crise ainda presente.

Embora não tenha sido atribuído objetivamente ao fato dos dados de consumo e demanda à indústria terem conexão direta com os fluxos financeiros patrocinados pelo governo à população carente, o que se confirma até pela inércia do setor de serviços pouco demandado por falta de homogeneidade e ser o mais relevante em contribuição para a formação do PIB nacional, algo como 70%, tornou-se evidente esta realidade da dependência da atividade da economia dos programas assistenciais do governo, que se tornou um efetivo “corner” para as autoridades de governo ante a necessidade de contingenciá-lo nos valores por insustentáveis, e criar embates no âmbito do governo confrontando os anseios populistas com a necessidade do rigor de gestão.

Na realidade, a economia brasileira efetivamente “patina”, exceto o agronegócio, e tem muito pouca tração quando avaliamos “excluindo” a participação indireta e principal do governo no consumo através a transferência de renda, que o faz efetivamente no “consumidor mór” de forma indireta.

Esta é uma questão ainda sem solução harmoniosa, mas como o “cobertor é curto” para que seja possível a manutenção dos programas em bases menores, haverá setores que certamente perderão benefícios para que os programas sejam minimamente mantidos, até porque o governo está seguro que replicando atitudes de governos populistas passados poderá conquistar apoio popular.

O governo foca a Reforma Tributária, bastante lenta na sua dinâmica, mas os ruídos na atualidade soam negativamente para o “setor de serviços” e isto pode ter impacto forte na contração da desejada recuperação do PIB dada a sua relevância participação, e estimular mudança radical do perfil da infraestrutura deste segmento na atividade econômica, deixando de ser o grande gerador de empregos e renda.

O risco fiscal é algo que “pesa” sobre a imagem do país e causa efeito colateral na economia e nos ativos principais do mercado financeiro, quais sejam juro, Bovespa e dólar.

O risco fiscal é sempre um fator que gera preocupações, pois o governo pode ser pressionado a elevar juro para atrair financiadores da Dívida Pública do país, mesmo quando se considera que no ambiente inerte atual da atividade econômica isto seja improvável.

Acreditamos, e esta é a nossa convicção, de que a Bovespa está efetivamente “sem tração” para atingir os otimistas prognósticos e projeções que têm sido realizadas, embora haja excelente nível de liquidez que poderia ser ainda mais deslocada para renda variável como decorrência do desestímulo atual na renda fixa, mas é improvável que isto ocorra a despeito dos IPO´s programados. 

A atividade econômica brasileira não sugere motivação para grandes impulsões na Bovespa, e a redução das benesses governamentais tende a afetar a demanda no varejo e na cadeia na demanda industrial. Não tem passado despercebido que papéis de cadeias de lojas de varejo tem sido “as estrelas” da Bovespa, com recordes de vendas naturalmente impulsionados pela “renda gerada pelos programas de governo” e pelo crédito dos “cartões de crédito”. O primeiro será reduzido e o segundo é finito.

O dólar teve uma melhor definição e tem um viés mais consolidado em perspectiva, a despeito da crise fiscal.

Há muito pontuamos que o preço do dólar deveria permanecer no intervalo de R$ 5,00 a R$ 5,50, pois não havia sinalização de pressão de demanda após o BC ter revisto a projeção do déficit em transações correntes para este ano de US$ 40,0 Bi para US$ 13,0 Bi, e que a flutuação neste intervalo seria decorrente do ambiente adverso ou benigno que prevalecesse.

O risco fiscal num dado momento e o “stress” dos desencontros governamentais no entorno da manutenção dos programas assistenciais provocaram alguma exacerbação não sustentável no preço, tendo em vista que o país, em realidade, tem situação de conforto na questão cambial face à dimensão das reservas cambiais e ao sofisticado mercado de derivativos, e, sabidamente, o preço do câmbio conceitualmente estar no conceito “alto”, por interesse de política de governo, o que inibe que o impacto do risco fiscal seja agregado como seria normal se o preço estivesse “normal”.

Importante lembrar que estudos do IIF recente apontam que o real estava desvalorizado 15% acima do normal, o que sugere que o preço normal estivesse em R$ 4,70.

O FED americano pontuou que a reação da economia americana, a despeito de um dado ou outro mais destacado, será lenta contrariando as expectativas e isso fragiliza o dólar no mercado internacional, até porque não se espera elevação do juro e o FED deseje até um pouco mais de inflação. 

Então, em perspectiva é razoável se projetar o preço do dólar mais próximo de R$ 5,00 do que dos R$ 5,50 neste ano, embora com muita volatilidade decorrente do fato novo, o juro baixo, que estimula os mini contratos e as opções.

Será importante observar-se a dinâmica de vendas do varejo e demanda à indústria na medida em que o governo reduza as cifras concedidas à população com seus programas assistenciais.

As tendências para Bovespa e para o dólar sugerem previsíveis para este ano, após este mês de agosto que se finda consolidando melhor as perspectivas.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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