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“O fato de serem economistas não os faz especialistas em câmbio. o BC tem agido certo dentro do que é possível intervir, nem tudo se resolve com intervenção por envolver fatores imponderáveis.” |
Em meio à recente disparada do dólar, não houve consenso entre os participantes da primeira reunião da diretoria do Banco Central (BC) com economistas em São Paulo, nesta manhã, sobre a necessidade de algum tipo de sinalização do BC no mercado cambial. É o que relataram fontes ao Broadcast. Conforme os interlocutores, os diretores Carlos Viana de Carvalho (Política Econômica) e Tiago Couto Berriel (Diretor de Assuntos Internacionais) apenas escutaram os analistas. Uma outra equipe do mercado volta a se reunir com o BC nesta tarde em São Paulo. Amanhã, acontece uma única reunião no Rio.
Conforme os analistas ouvidos, alguns defenderam um pouco mais de previsibilidade da autoridade monetária em relação ao câmbio. “Alguns avaliam que o BC deveria ser mais previsível, enquanto outros acreditam que do jeito que tem sido feito está bom”, disse um analista, acrescentando que apesar do temor em relação ao câmbio a inflação deve continuar sob controle, em meio à ociosidade elevada.
“Apesar do choque cambial e dos efeitos da greve dos caminhoneiros, ninguém está muito preocupado com a inflação. A atividade está muito enfraquecida. Então, o repasse cambial tende a ser baixo neste ambiente de ociosidade e expectativas ancoradas”, explicou.
O outro economista citou que a avaliação do mercado é de que inflação sob controle deve garantir juro mais baixo por um tempo. “Porém, há divergência de quando a Selic deve começar a subir. O hiato do produto está muito aberto ainda. É preciso confiança, que não tem por ora’, afirmou, lembrando que o cenário eleitoral incerto traz dúvida sobre quem será a equipe econômica a partir de 2019.
De volta ao câmbio, um terceiro profissional acrescentou que a discussão sobre a depreciação ficou sobre como o BC atuaria, e como faria isso. “Alguns argumentaram que valeria a pena fazer algum tipo de sinalização, de alguma ação programada. Outros avaliam que poderia entrar pontualmente para quebrar movimento especulativo, nada mais do que isso. Poderia entrar à toa”, contou.
“A desvalorização está refletindo principalmente as incertezas eleitorais, dado que o mercado está começando a precificar um segundo turno entre algum candidato do PT e Jair Bolsonaro (PSL). Isso começa a entrar no preço, e o BC não tem muito o que fazer”, completou.
Além do quadro eleitoral incerto, a preocupação dos agentes econômicos em relação à tensão externa – outro fator de pressão cambial – também norteou grande parte do encontro do BC com o mercado. Conforme um economista, foi consenso entre os agentes que o cenário externo deve continuar sendo desafiador.
“O cenário internacional teve uma boa discussão. Os Estados Unidos estão crescendo, o Fed [Federal Reserve, banco central dos EUA] está começando a ajustar os juros, a agenda protecionista que está andando, e a China tem adotado estímulos monetários e fiscais para tentar compensar os efeitos desse protecionismo. Conclusão: a avaliação é de que o ambiente internacional está mais tenso e reduzindo realocação de recursos em emergentes”, resumiu o interlocutor.
Além da visão unânime dos agentes em relação ao quadro externo, os economistas também demonstraram sintonia quanto às expectativas inflação e atividade baixas, afirmou o analista. “Consenso de atividade fraca e inflação ainda tranquila, mesmo com choques”, disse. Para o Produto Interno Bruto (PIB), as projeções citadas ficaram entre alta de 1,2% e 1,5% este ano, enquanto as estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2018 foram de 4,00% a 4,30%, abaixo do centro da meta de 4,50%.
“A avaliação da maioria é de um crescimento do PIB inferior a 1,5%, ou até menos. O mercado de trabalho está se recuperando bem devagar, mas isso está acontecendo desde o início do ano e mesmo antes da greve dos caminhoneiros. Alguns demonstraram até mais pessimismo, estimando mais aumento do desemprego”, afirmou.
As reuniões trimestrais da diretoria do BC com os analistas são usadas pela autoridade monetária para colher do mercado as percepções sobre inflação, atividade e economia internacional. As informações são usadas como subsídios para a confecção do Relatório Trimestral de Inflação (RTI). A próxima divulgação do RTI será no dia 27 de setembro.
Fonte: Brodcast Agência Estado
Publicado: 23 de agosto 2018
