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“Vendidos” vão às compras e provocam apreciação excessiva do real

O mercado de câmbio promove excessiva e, até certo ponto, preocupante apreciação do real frente ao dólar americano. O fato decorre muito menos de repercussões do fluxo cambial, ao qual tem sido atribuído, e muito mais do fato de que os detentores de posições “vendidas” no mercado de dólar futuro estarem atuando para reduzir suas exposições e com isto estão exercendo forte pressão depreciando o dólar no mercado futuro, que acaba por contaminar os preços do mercado à vista, e assim criarem condições favoráveis para a reversão.

Entendemos que não decorre do fluxo cambial, pois a despeito do fluxo de março até o dia 21 ter se revelado positivo em US$ 5,469 Bi isto não representa alívio visto que ainda faltam para zerar o fluxo insuficiente US$ 13,1 Bi que foram migrados do ano passado e que estão sendo suportados pelos bancos com “posições vendidas” no mercado à vista e que vem sendo ancoradas por financiamentos de linhas em moeda estrangeira pelo BC no montante de US$ 13,2 Bi.

Enquanto este montante de posições “vendidas” não for zerado, o BC estará sob o risco de ter que realizar leilões de moeda estrangeira à vista ofertando ao mercado, ou seja, terá que utilizar efetivamente as reservas cambiais do país.

Portanto, é fundamental que se atente para o fato de que a melhora de fluxos de recursos externos ainda está insuficiente em US$ 13,1 Bi, já deduzido o fluxo positivo deste ano até o dia 21 passado, razão pela qual não nos parece razoável atribuir-se ao fluxo melhorado a causa da apreciação do real.

Sabidamente, afora captações que vem sendo realizadas por empresas que podem recrudescer após o rebaixamento de nota de crédito promovido pela agencia de rating “S&P”, seja pelo encarecimento, seja pela seletividade mais rigorosa, seja por ambos. O potencial de atração de recursos por parte do Brasil está centrado no capital especulativo e este depende de dois fatores: taxa cambial de conversão e taxa de juro. Embora a taxa de juro de 10,75%, provavelmente elevada para 11,0% na próxima reunião do COPOM, seja atraente, a taxa cambial deprimida para conversão pode ser um fator neutralizante deste fluxo, já que ante perspectiva de elevação da taxa cambial o custo do “hedge” pode reduzir parte da rentabilidade a ponto de tornar desinteressante a operação.

Então, se a taxa cambial não expressar a realidade, que seguramente não é esta presente no momento, o país pode perder a atratividade até do capital especulativo externo.

Entendemos que ocorre no momento um forte movimento oportunista por parte dos detentores de posições “vendidas” no mercado futuro de dólar, com características mesmo de ataque especulativo apreciando o real, no mercado de câmbio futuro da BM&F, que faz com que a valorização do real supere 1,5% antes do dólar, absolutamente desalinhada com variações de outras moedas emergentes, e lhes proporcione a possibilidade de reduzir estas exposições através compras a preço conveniente, que acaba por ser cedido pelos detentores de posições “compradas” e mesmo nas operações ofertadas pelo BC.

Evidentemente que os “vendidos” no mercado de dólar futuro na BM&F devem ter a percepção de que a taxa cambial do dólar tem um viés sustentável de alta em perspectiva, e então, antecipando-se ao fato detonaram movimento forçando a apreciação do real de forma a permitir-lhes cobrir até onde possível suas exposições a perdas com a variação cambial.

Este movimento implementado com dinamismo provocou e continua provocando o comportamento antagônico com a lógica do comportamento do preço da moeda americana no nosso mercado de câmbio.

E este movimento começou exatamente no primeiro dia do anúncio do rebaixamento da nota de crédito do Brasil, configurando-se atitude fortemente defensiva ao buscar com a redução das posições “vendidas” no mercado futuro de dólar mitigar os riscos que foram agravados de perda de variação cambial.

Não tendo havido atitudes para confrontar com este movimento, o mesmo ganhou corpo e levou a apreciação do real ao máximo, e deixou a grande maioria de analistas se questionando sobre as razões da apreciação do real, e a justificativa que teve maior adesão foi a de que os preços já estavam precificados, o que está longe de ser a realidade.

Nesta semana de segunda (24) a quarta feira (26) os “vendidos” reduziram US$ 2,3 Bi em suas posições na BM&F e esta dinâmica deve estar sendo mantida e continuar a exercer pressão determinando apreciação do real, que ontem foi novamente expressiva, para que consigam reverter a posição a preços favoráveis.

O dólar depreciado não recupera o conjunto de fatores negativos em torno da conjuntura brasileira no momento e que, mais uma vez, foi sancionada de forma veemente, agora culminando com o rebaixamento da nota de crédito por parte da agência de rating “S&P”.

Mas, nas atuais circunstâncias pode prejudicar a dinâmica de fluxos de recursos especulativos para o país, que efetivamente esta precisando de melhora acentuada para repor o montante faltante ainda de ingressos para cobrir as posições “vendidas” dos bancos no mercado à vista, US$ 13,1 Bi, e garantir financiamento do expressivo déficit em transações correntes projetado pelo BC em US$ 80,0 Bi este ano.

Causa estranheza que não se tenha tido até o momento intervenção do BC para conter este movimento especulativo, mas acreditamos que passado o final do mês quando se fixa a PTax para utilização nos ajustes de posições, etc… a autoridade adotará medidas buscando coibir este movimento, caso persista, que acaba por artificializar o preço da moeda americana e tem forte potencial de provocar a contração dos fluxos de recursos especulativos para o país.

A realidade para o preço da moeda americana no Brasil não é esta que se presencia atualmente, e, esta deve ser também a percepção dos posicionados “vendidos” no mercado de dólar futuro que estão revertendo este posicionamento e que encontraram ambiente que lhes permite agir apreciando o real para que a reversão ocorra em bases favoráveis.

 

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