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Valorização do dólar e juros dos “T-Bills” testa os frágeis e vulneráveis

“Ser ou não ser” vulnerável ou frágil é um conceito que, a despeito das discussões frenéticas e contestatórias entre os governos de países assim nominados e as opiniões da mídia internacional especializada e organismos de grande prestígio mundial, só pode ser sancionado pelos próprios mercados ao repercutir nos preços de ativos específicos, como a paridade das moedas, estimulando movimentos migratórios de recursos financeiros, quando postos a prova em situações reais.

O FOMC americano, em sua reunião encerrada na quarta-feira, manteve a taxa de juro entre zero e 0,25% e afirmou entender que ainda haverá um tempo razoável para que ocorra a mudança na política monetária, fato que ensejará a elevação do juro.

Porém, a impressão crescente no mercado é que no meio de tantas condicionantes postas é de que a mudança possa estar mais próxima do que imaginada, e desta forma o mercado internacional se movimentou e provocou mutações importantes.

Evidente que os investidores internacionais não vão esperar acontecer para então migrar suas posições deste para aquele mercado, a lógica é se anteciparem à consumação do fato.

O dólar demandado mais fortemente internacionalmente valorizou-se frente as moedas fortes e mais acentuadamente frente as moedas dos emergentes considerados frágeis e vulneráveis, ao mesmo tempo em que o “yeld” dos T-Bills de 10 anos se elevou até 2,64% aa, sugerindo a ocorrência de movimentos migratórios dos investidores internacionais para o mercado americano, deixando principalmente os países emergentes, também neste quadro, prioritariamente os considerados mais frágeis e vulneráveis.

É natural que estes movimentos ensejem volatilidade, mas sem reverter a linha de tendência de desvalorização das moedas emergentes principalmente.

E o movimento tende a dinamizar-se visto que quanto mais estes investidores externos aguardarem para a saída menores serão os seus ganhos, tendo em vista que as moedas vão se desvalorizando frente à moeda americana e perdem na conversão.

O Brasil recebeu relevante volume de capitais especulativos ao longo do 1º quadrimestre deste ano, que agora tendem à reversão por ser típico deste tipo de capital a curta permanência já que são capitais forjados a partir de operações estruturadas de “carry trade” e por não conviverem bem em ambientes com incertezas, como o Brasil detém no momento seja econômica e/ou política, e, também porque o mercado internacional poderá elevar o juro para estas operações e a saída com os lucros pode ser prejudicada nas taxas cambiais de conversão.

Sabidamente o Brasil tem um cenário em torno do setor externo bastante desfavorável. Fluxos de recursos líquidos, a despeito do volume, negativos, balança comercial fragilizada pela baixa competitividade dos nossos produtos e gerando baixíssimo superávit com algumas operações atípicas e pontuais, bancos gerando liquidez no mercado à vista através manutenção de posições vendidas lastreadas por financiamentos de banqueiros estrangeiros, no momento em torno de US$. 16,5 Bi, equivalente a 4,375% das reservas cambiais brasileiras.

O BC tem colocado “em ser” extraordinários US$ 95,0 Bi em instrumentos financeiros denominados “swaps cambiais” proporcionando “hedge” as empresas detentoras de passivos em moedas estrangeiras. Com a estratégia de oferta de “hedge” buscava monitorar a formação da taxa cambial dentro de parâmetros não agressivos à inflação, mas ocorre que a parte substantiva da demanda por “hedge” já foi atendida, o que leva a perda de eficácia deste instrumento na contenção da pressão de apreciação da moeda americana.

É uma fortíssima intervenção no mercado de câmbio que deixa evidente o quanto a nossa moeda está fragilizada e que leva as empresas/investidores a precisar de instrumentos de proteção de seus passivos em moeda estrangeira contra variação do preço.

Não há como imaginar-se uma mudança em linha direta entre o “status quo” do mercado de câmbio com esta expressiva intervenção para um contexto com intervenção reduzida face à menor dependência de oferta de proteção aos passivos em moedas estrangeiras.

O país precisa reconquistar confiança, credibilidade e atratividade externa a partir de novos alinhamentos focando o crescimento econômico e quando os fluxos cambiais voltarem de forma consistente, mais produtivo e menos especulativo, então será possível iniciar-se a mudança de postura do BC em relação ao mercado de câmbio e sua dinâmica de formação de taxas.

Esta trajetória, com o pressuposto de que a novas diretrizes de governo alcancem sucesso, demandará algum tempo para ser alcançada, razão pela qual será natural que o preço da moeda americana sofra apreciação neste momento, para num momento futuro retome identidade com os fundamentos à época.

Por isso acreditamos que é absolutamente inconsistente a tentativa do mercado de tentar precificar o preço da moeda consubstanciado em pesquisas eleitorais.

O BC deve deixar o preço de a moeda americana subir gradualmente que é a tendência em relação ao real face o “status quo” do país, pois se continuar buscando comprimir seu preço para beneficiar a inflação poderá provocar movimentos posteriores muito abruptos e com repercussões na economia com maior intensidade.

Um diretor do BC fez uma breve declaração ontem afirmando que o câmbio é flutuante e que há um programa para absorver choques mais fortes de volatilidade no mercado. Alguns analistas buscaram atribuir a esta declaração o recuo da alta, mas na realidade o que determinou o fato foi a queda, dentro do ambiente de volatilidade, da intensidade de valorização do dólar no mercado internacional no período da tarde, que, contudo não se sustentou e a moeda americana retomou a apreciação. O real apresentava desvalorização só inferior a do rand sul africano.

A volatilidade deve continuar intensificando-se visto que há inúmeros posicionamentos no mercado de câmbio em situações antagônicas que sugerem disputas num ambiente que fortalece a propensão à apreciação do preço do dólar.

Acreditamos que o BC terá menor capacidade de obter resultado com intervenção, dada a perda gradual de poder de interferência dos “swaps cambiais”, podendo até ocorrer maior volatilidade sem lograr sucesso na reversão da tendência.

 

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