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Um momento de tolerância dentro de um ambiente ainda de descrédito

Os agentes do mercado financeiro e do setor produtivo que reprovaram o governo na eleição presidencial concederam ontem um momento de tolerância, não se descartando que tenha havido certa “orquestração indutora” em torno do fato, e promoveram reversão do acentuado movimento de repúdio ao resultado eleitoral demonstrado no “day after”, ou seja na segunda feira.

O atual governo reeleito precisa ter a percepção de que não desfruta do beneficio da dúvida como um governo novo poderia postular, por isso urge que defina nomes para os postos principais, em especial do Ministro da Fazenda e do Presidente do Banco Central do Brasil, e mais do que isto e mais relevante um programa macroeconômico robusto exequível e sustentável, que possa motivar o setor empreendedor do país.

O que esperam é que “ocorra o que nunca foi visto antes neste país” para suplantar o extraordinário desafio de redirecionar um país que naufraga para uma performance redentora absolutamente contrária que o resgate para o crescimento.

É notório tratar-se de um desafio dantesco, principalmente quando o programa básico de impulsão do crescimento dá evidência de ter se exaurido, qual seja fomentar o consumo com o incentivo da concessão de crédito, que permitiu ao governo Lula obter níveis de crescimento sem a requisição obrigatória de investimentos maciços, pois havia capacidade ociosa na indústria e demanda reprimida no lado da população, principalmente de baixa renda.

Agora o país precisa de programa macroeconômico focado no investimento e amparado por uma rigorosa reforma fiscal que alivie o “custo Brasil” aos empreendedores responsáveis pelo crescimento do país.

A Presidenta tem destacado que vai ao diálogo, quer ouvir, mas como já é governo a mais de uma década não pode deixar a impressão de que está assim agindo para ganhar tempo, passando a impressão de que não tinha efetivamente um programa de governo para este novo período e de que não tinha idealizado nomes para ocupar o escalão de frente como se esperava, uma vez que “demitiu” o Ministro da Fazenda ainda na vigência do mandato vincendo.

Aparentemente está sendo atribuída importância excessiva ao nome do novo Ministro da Fazenda, mas um médico só não consegue resolver o problema quando a doença é relevantemente grave. Enfim, o quadro e o estado da economia brasileira requer um sólido programa de governo, com irreversível comprometimento de obediência por parte do centro decisório do mesmo e não só do Ministro da Fazenda, ainda mais quando se sabe que a Presidenta é extremamente participativa em todas as decisões.

Naturalmente que um nome que tenha reconhecimento de capacidade por parte do mercado financeiro e do setor produtivo agrega pontos importantes às boas intenções que possam conter no programa, mas é insuficiente para tornar exequível o programa de forma absolutamente simétrica se o staff de comando não estiver perfeitamente alinhado com os propósitos.

Principalmente o Ministério da Fazenda e o Banco Central do Brasil devem estar alinhados no mesmo propósito para que haja sinergia; o comprometimento com metas inflacionárias, superávits fiscais, etc devem se constituir objetivos límpidos de governo, sem “matemágicas”, sem represamentos de preços, sem movimentos articulados para artificialização do preço da moeda americana, preservando os interesses da indústria nacional, o que não quer dizer protegê-la na sua incompetência, mas sim focando torná-la competitiva e impulsionadora do crescimento do país.

E que toda a definição programática e seus resultados sejam avaliados de forma real e com rigor, sem justificativas de “escape” para justificar descumprimentos.

O Brasil precisa ter foco absoluto em restabelecer a sua credibilidade perante os investidores nacionais e estrangeiros, resgatando sua atratividade perdida, admitindo na formulação do seu programa macroeconômico o estado de deterioração atual e perdendo o contumaz hábito de atribuir ao mundo global a culpa pelo “status quo” do país, buscando realinhar-se para redimir-se dos erros e se alinhar ao crescimento sustentável.

O governo ao focar a obtenção de superávit primário adequado para os propósitos de crescimento do país deve afastar totalmente a possibilidade de aumento de impostos, já não mais suportáveis e que fizeram o país ser considerado nacional e internacionalmente um país caro. O foco deve ser a redução de gastos e melhor qualificação dos mesmos.

Há efetivamente um enorme desafio que envolve uma extraordinária guinada do país na sua gestão, por isso existe a descrença, pois terá que ser obrigatoriamente uma gestão diferente, que pode até contrariar dogmas deste governo.

A trajetória para a reconquista da credibilidade e atratividade certamente será mais árdua, mas é algo imprescindível para que tudo o mais se torne factível.

Até que isso se torne perceptível o câmbio, face à inconstância dos fluxos, deverá conviver com volatilidade, requerendo presença intervencionista do BC, mas com viés de alta, face à queda de ingressos de investimentos em renda fixa e variável, mesmo com o apelo do juro alto e a retração dos investimentos em conta de capital que deverão ser retardados para ver que perspectivas surgirão com o novo programa macroeconômico do governo.

Então, certamente o governo conviverá um período tendo o setor externo como fonte de perturbação desafiadora, o que colocará o preço da moeda americana em tendência de alta.

Há na trajetória do câmbio, além da influência dos fluxos que prevemos adversos no curto/médio prazos pelas razões acima expostas, eventos possíveis que impactarão negativamente, também, nos fluxos como a eventual mudança da política monetária americana pelo FED e um movimento de direcionamento dos recursos em poder dos países desenvolvidos e emergentes para o mercado americano caso fique evidente o crescimento mundial abaixo das expectativas, quando o foco tenderia a ser maior no risco do que na rentabilidade.

A taxa cambial, no nosso entendimento, tenderá gradativamente ao preço de R$ 2,60 ao final do ano, mesmo com a presença intervencionista do BC.

Naturalmente, haverá reflexos na inflação, mas, acreditamos que no novo programa macroeconômico a opção para conter as pressões inflacionárias seja a redução de gastos e não o aumento do juro que desincentiva os empreendedores/investidores nacionais e estrangeiros.

A taxa de câmbio atual está fora do ponto, reflete este momento de tolerância, que está sugerindo até observação por parte dos investidores.

 

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