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Tensão foi fraca, mas volatilidade provocou comportamentos atípicos

Esperava-se maior tensão nos mercados financeiros globais em função da questão geopolítica envolvendo Rússia, Ucrânia, Estados Unidos e União Europeia em torno da região da Criméia, que por esmagadora maioria de votos decidiu por sua anexação à Rússia.

Mas, afora medidas puramente burocráticas nada demais aconteceu que pudesse suscitar a ideia de que fossem efetivas retaliações por parte dos Estados Unidos e União Europeia à Rússia, que consideraram o plebiscito ilegal.

Com a percepção de que o “atrito” será menor do que o esperado, os mercados recompuseram os preços dos ativos que estavam afetados pela expectativa de algo maior, e, ao fazer isto, seguramente ajustaram os preços a este ambiente mais tênue, porém com alguns excessos que devem ser corrigidos hoje.

Ao que tudo indica as ações em torno da Rússia atingirão mais fortemente os investimentos estrangeiros, com interrupção principalmente dos oriundos dos Estados Unidos e da União Europeia, e até desinvestimentos e interrupção de acordos em vigência. Provavelmente, o isolamento econômico será o caminho punitivo de opção, embora a União Europeia precise ser cautelosa devido à dependência do gás russo.

As bolsas americanas subiram fortemente, acima do razoável, impulsionada também pelo crescimento da produção industrial de 0,6% em fevereiro muito acima da projeção de 0,1% e com o aumento da utilização da capacidade instalada para 78,8%. Há claros sinais que a economia americana começa a evidenciar o seu vigor após ultrapassada a fase em que o país foi fortemente atingido na sua atividade econômica por severos problemas climáticos.

 Até a nossa Bovespa que tem perspectiva negativa entrou no ritmo e subiu também seguindo a onda de entusiasmo, enquanto bolsas asiáticas apresentaram movimento negativo, provavelmente por terem operado bem antes dos mercados europeus e americanos, sem saber efetivamente quais seriam as atitudes dos Estados Unidos e Europa em relação ao resultado do plebiscito em torno da Criméia, porém hoje apresentaram recuperação.

Por outro lado, os T-Bills não foram pressionados, o que provocou que a curva de juro “yeld” revelasse alta, tendo na contrapartida a queda dos papéis, sinal evidente de despreocupação.

As moedas emergentes apresentaram comportamento bastante atípico, com algumas consideradas “mais frágeis” apresentando movimento de recuperação valorizando-se frente ao dólar, enquanto outras registraram desvalorização. Um ambiente volátil e misto nos movimentos.

O real embora tenha apresentado volatilidade frente ao dólar ao longo do dia, no final do dia encerrou quase estável.

Preocupantes internamente foram os dados inflacionários revelados por indicadores divulgados pela FGV ontem, em especial o IGP-10 de março com 1,29% após 0,30% em fevereiro, apontando claramente para pressões advindas do grupo alimentação, em especial pelos produtos agrícolas fortemente afetados pelos problemas climáticos decorrentes do forte verão registrado neste ano.

Este é mais um foco de pressão inflacionária que poderá ser mais duradouro do que o esperado, e que se a outros fatores que vem sustentando perspectivas de continuidade das pressões inflacionárias.

Quando se observam os dados ainda conservadores do FOCUS e abaixo das projeções mais rigorosas dos analistas do mercado, nota-se que há um grande “gap” de necessidade de fluxo para financiar o déficit de transações correntes este ano, a exemplo do já ocorrido no ano passado, e que só poderá ser coberto com capitais voláteis/especulativos que poderão ingressar focando rentabilidade, mas para tanto será necessário que tenhamos uma taxa cambial mais realista, para que não seja um risco inibidor aos investidores estrangeiros e fator de encarecimento do “hedge” a ponto de quebrar o interesse em investir, e, esta também parece ser a percepção do governo.

Por isso, entendemos que o BC não deva rolar a totalidade da posição vincenda na virada do mês, fazendo-a parcialmente em torno de US$ 8,0 Bi ou menos dos US$ 10,1 Bi vincendos, até porque já colocou dentro do programa de 4.000 contratos diários algo como pouco mais de US$ 3,0 Bi.

Nosso entendimento é de que teremos fatores motivadores fortes para dar suporte a uma alta sustentável do preço do dólar no nosso mercado, e, que o BC não se oporá frontalmente a esta ocorrência pela necessidade de melhorar o fluxo de recursos externos para o país, limitando-se tão somente a monitorar a liquidez.

Tudo sugere que será inevitável que a SELIC sofra elevações que a conduzam a 11,50% ou 12% no mínimo, para conter a inflação dentro do ponto máximo da meta.

Não podemos perder de vista que temos um ambiente extremamente adverso no setor externo, com as perspectivas sugerindo deslocamento de recursos em poder dos emergentes para os países desenvolvidos, em especial Estados Unidos, e sofremos restrições dos investidores externos face ao nosso baixo crescimento e deterioração da política fiscal e agora com perspectivas agravadas para atingir a meta de 1,9% estabelecida pelo governo face aos novos comprometimentos assumidos.

Os problemas energéticos e a estratégia de recompor a política fiscal podem complicar a nova meta de superávit fiscal, dado o imbróglio da forma de como custear e financiar as perdas com a energia. O quadro sugerido pelo governo é bastante confuso.

Há também o risco de perda de “rating”, o que seria desastroso para o país, o que poderia agravar mais o quadro já desfavorável no setor externo.

Temos a China, nossa maior parceira comercial, dando sinais de perda de ritmo, o que sugere volume menor de vendas externas.

E, por fim, temos os Estados Unidos, que passada a adversidade de três meses da situação drástica do clima, começa a emitir sinais de recuperação e que, em algum momento, terá que rever sua política de juro, o que será um novo momento desfavorável aos países emergentes, em os quais o Brasil.

Hoje tem inicio a reunião do FOMC americano, primeira presidida por Janet Yellen, para tratar de política, e, será importante observar os sinais que serão emitidos pelos participantes, visto que na reunião anterior já ocorreram sugestões de que a elevação do juro seja em prazo mais curto do que tem sido comentado, e este será outro momento de pressão sobre os países emergentes, pois acentuará o deslocamento de recursos para o mercado americano. A reunião se encerrará amanhã.

A rigor, a tendência natural do preço da moeda americana deve ser de alta, porém pode ocorrer alguma volatilidade decorrente de fluxos pontuais e, também, da incerteza se o BC rolará ou não a totalidade da posição vincenda de “swaps cambiais” ao final do mês.

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