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Sensatez pode atenuar “frisson” sobre câmbio. País não tem risco de crise cambial

O mercado financeiro foi surpreendido pelas tendências eleitorais mais agudas trazidas pelas pesquisas, porém passíveis de percepção anteriormente, mas ao que parece menosprezadas e consideradas menos viáveis.

A contundência do direcionamento das pesquisas favorecendo o ex-Presidente Lula, candidato improvável, e a fragilidade da capacidade reativa dos candidatos mais identificados com o mercado financeiro, e por que não com as absolutas necessidades reformistas do país, deram um forte “susto” aos “players” e ainda deixaram em ambiente bastante dúbio a efetiva capacidade de migração de votos do ex-Presidente para o seu sucessor na disputa presidencial.

As pesquisas evidenciam tendências que colocam em perspectiva um embate final entre candidatos não alinhados com os propósitos almejados e com as expectativas precedentes, permitindo ilações, mas não certezas e assim predominam incertezas e dúvidas, acentuando os temores em relação à degradante situação da economia brasileira e seu quadro fiscal.

O dólar, por ser o sensor mais rápido e de maior difusão imediata, foi a escolha do mercado para evidenciar todo o aumento do grau de preocupação. Assim, seu preço foi exacerbado e ultrapassou o preço de R$ 4,00.

Não somos conformes de que o preço do real tenha sido um dos mais desvalorizados no cenário mundial, visto que consideramos que o seu preço no entorno de R$ 3,30 estava absolutamente fora do ponto considerando o “status quo” da atividade econômica e principalmente a gravidade da crise fiscal.

Por isso, consideramos que a taxa de equilíbrio da moeda era efetivamente R$ 3,80, razão pela qual não potencializamos a desvalorização ocorrida até este nível de 16% com a ênfase que lhe é atribuída.

A taxa cambial deprimida era desejada e tinha uma combinação com a redução da taxa de juro Selic, atenuando assim pressões inflacionárias mais intensas, dando uma falsa impressão de que tudo seguia bem numa economia que já transparecia decadência de sua atividade.

Aconteceu a greve dos caminhoneiros, a qual se procura atribuir todas as mazelas, mas que na realidade colocou “a nu” a caótica situação econômica do país, dando evidência a tudo aquilo que não estava sendo interessante ser visto.

À margem deste contexto, já havia e continua havendo imbróglios políticos e substantiva demonstração de falta de base de apoio ao governo e ainda uma crescente insegurança jurídica que continua a se acentuar.

O cenário em que se desenvolve a disputa eleitoral torna-se altamente confuso pela indefinição em torno da inviabilidade da candidatura do ex-Presidente Lula, que ao protelar juridicamente a decisão conspira contra a tendência de transferência de votos e gera dúvidas nas perspectivas, e acaba por propagar “fake News”, como o “request” da ONU sem nenhum poder vinculante, que não é uma determinação.

Enfim, o Brasil de 2018 é diferente de 2002, quando o preço da moeda americana alcançou níveis elevadíssimos.

Em 2002 tínhamos uma economia menos deteriorada, mas havia fragilidade na questão cambial, pois nossas reservas cambiais não eram robustas e nem utilizávamos os instrumentos operacionais de intervenção que hoje são passíveis de utilização.

Este é um ponto relevante que é o centro da nossa abordagem.

Temos enfatizado desde muito que o Brasil não tem risco de crise cambial, e que, por mais contraditório que possa parecer, é o único segmento com tranquilidade detido pelo país.

Temos explanado que o BC, com a utilização do lastro das reservas cambiais como garantia, o que não implica em reduzi-las, tem total capacidade de suprir as demandas por proteção cambial (swaps cambiais) e no mercado a vista (fornecimento de liquidez com oferta de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra).

Evidentemente, o BC não tem como intervir para conter os fatores imponderáveis fora do alcance de suas intervenções, que impactaram, com origem externa e interna, corrigindo o preço para o entorno de R$ 3,80. Agiu corretamente o BC, gerando liquidez quando se fez necessário, mas reconhecendo que pode minimizar movimentos de volatilidade, contudo sem ter força para conter a alta do preço da moeda americana quando impulsionados por fatores imponderáveis concretos.

Nesta fase crítica, certamente uma grande maioria esperava intervenção do BC, mas nada indicava esta necessidade face ao contexto.

O mercado financeiro está suprido com proteção cambial direta do BC através US$ 70,0 Bi de “swaps cambiais”, afora outros mecanismos próprios do mercado, e os bancos estavam com um “colchão de liquidez” em torno de US$ 7,0 Bi no mercado a vista para a demanda. Portanto, nada a fazer pelo BC.

Na última semana de 13 a 17 acentuou-se o volume de saídas financeiras que atingiu US$ 4,313 Bi, expressivo e real e que conflita com as informações de que os investimentos de estrangeiros na Bovespa tenham aumentado R$ 2,1 Bi.

O “colchão de liquidez” dos bancos para o mercado a vista decaiu para US$ 4,0 Bi, ainda bom, mas que deve passar a merecer atenção do BC para um eventual fornecimento de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra.

Toda esta explanação antecedente tem o objetivo de destacar que o contexto entre 2002 e 2018 é diferente.

Em 2002 tínhamos fragilidades acentuadas na área cambial e menores na área econômica/fiscal, agora em 2018 estamos confortáveis na área cambial e deteriorada na área econômica/fiscal.

Então, o sensor “câmbio” como indicador de agravamento, incertezas, dúvidas, etc… é uma opção errática neste contexto, pois não há risco de crise cambial, e o foco deveria ser a realização de um “sell off” na Bovespa pelo agravamento da perda de perspectivas para recuperação econômica, face aos possíveis líderes para a disputa não terem foco em reformas que são imprescindíveis para a reversão da caótica situação da atividade econômica e situação fiscal do país.

Entendemos então que não há fundamentos que possam sustentar uma alta exacerbada ao extremo do preço do dólar, pois neste momento não tem os requisitos para ser a “bola da vez”.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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