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Queda da SELIC dará suporte ao dólar, mas fluxo futuro em foco pode ser antídoto!

Temos expressado nosso ponto de vista com a percepção de que a manutenção da taxa do dólar no nosso mercado, um pouco além do razoável na curva, repercute estratégia desejável, no momento, pelo governo no sentido de que o câmbio seja utilizado para estimular a retomada da atividade econômica, a partir do comércio exterior, ante a fragilidade da capacidade de que isto ocorra a partir do ambiente interno, ainda carente de renda o que provoca baixo consumo, que resulta da baixa propensão de investimentos do setor privado dada a expressiva capacidade ociosa presente.

Os números de outubro da balança comercial sugerem que “os ventos por aí também começam a ficar contrários”, visto que ocorreu déficit da 3ª semana deste mês de US$ 217,9 mm, no mês tão somente superávit de US$ 507,4 mm e no ano US$ 34,125 Bi, e a curva está descendente.

Isto tem sido notório no nosso entendimento pelo fato do BC vir suprindo a carência de fluxo cambial positivo com ofertas diárias de moeda efetiva ao mercado à vista, que por si só atenderia a carência e mitigaria o impacto na formação do preço da moeda americana, porém com oferta concomitante e no mesmo volume de swaps cambiais reversos que, ao reduzirem a oferta de proteção de hedge no mercado futuro, acabam por dar sustentação ao preço, mantendo-o elevado.

Contudo, com a redução sistêmica da taxa SELIC e fortalecimento das perspectivas de cortes sequentes, que deverão ser confirmadas na reunião desta semana, certamente haveria intensificação da pressão sobre a formação do preço que poderia atingir patamar de desconforto e causando algum efeito nos preços relativos da economia, o que não seria conveniente, pois poderia inverter a curva do IPCA antes da retomada da atividade econômica.

Então, o que se tem “assistido” é um empenho pessoal do Presidente do BC, Campos Neto, “operando as expectativas” quando prenuncia de forma enfática e incisiva intensificação do fluxo cambial para o Brasil com recursos do pré-sal e da atratividade que certamente provocará o movimento de privatizações que vem sendo arquitetado pelo governo.

É inegável esta expectativa presente, mas severamente enfatizada pelo Presidente do BC como que criando um fator de contenção a espiral de alta, e certamente isto, concretizado, promoverá uma extraordinária mudança da qualidade da atratividade aos investimentos estrangeiros no país, não mais predominantemente especulativos como dantes, e que devem encontrar excelentes oportunidades de rentabilidade por aqui num momento em que o cenário global evidencia a expansão do rendimento “zero” sobre os capitais mundiais, aproveitando as extraordinárias oportunidades em investimentos estruturais no país.

Então, o que se percebe é que a alta do preço da moeda americana é induzida e desejável pelo governo até um certo ponto, mas não a ponto de fomentar repasse aos preços relativos da economia e reproduzir-se no IPCA, embora já se tenha percebido algum impacto no IGP-M.

Naturalmente neste ambiente o que se pode esperar é que o preço flutue até no máximo 4,20, pois o antídoto da expectativa de fluxos retomados para o Brasil coloca como risco evidente um preço mais elevado.

Por enquanto, a presença do BC ofertando dólares à vista para o mercado deverá perdurar até o “aguardado fluxo positivo futuro” se confirme, e se a taxa cambial se mostrar resistente para manutenção dentro do parâmetro suportável, o BC pode desarmar a “sustentação” reduzindo a oferta de swaps cambiais reversos deixando de equacioná-la com o montante oferecido de liquidez no mercado à vista.

Será natural uma relativa volatilidade neste interregno entre a carência e a abundância de fluxo cambial para o Brasil, por vezes em decorrência de fatores externos, principalmente envolvendo o embate comercial China-USA e a política de juros do FED e, eventualmente, até do Banco da China.

Mas o que, acreditamos, deva ser o foco maior é a estratégia que sugere estar implícita na formação do preço da moeda americana no nosso mercado, induzida pela forma de intervenção do BC, e que deixa clara que não há na mudança de patamar do preço do dólar uma mudança estrutural, mas simplesmente conjuntural.

Desta forma, os “alertas” do Presidente do BC sobre o presumível “momento futuro” do fluxo cambial sinalizam que especular com a taxa cambial fora do “status quo” atual, para mais, poderá ser um risco relevante.

Evidentemente, que por enquanto o crescimento dantesco presumido de fluxo cambial para o Brasil tem um conteúdo mixando realismo e anseio, mas a se confirmar o BC terá oportunidade de recompor as reservas cambiais que está despendendo nesta fase presente.

Esta perspectiva se constitui num “antídoto” a uma alta mais intensa do preço da moeda americana no nosso mercado.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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