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O governo errou no diagnóstico prospectivo sobre o Brasil, adotou medidas erráticas freando o ingresso do capital estrangeiro. Agora, convive com a aflição da busca de recuperá-lo, mas tudo se revela tardio e irrecuperável

Tomado de uma soberba que o levou a considerar o país estrela maior no circuito de atratividade dos investimentos estrangeiros, o governo assumiu postura crítica em relação aos programas de incentivos monetários das economias desenvolvidas, e, viu-se num passado recente ameaçado pela eventualidade de ocorrência de “tsunamis” monetários e se colocou como vítima de “guerra cambial”, e, então, determinou uma série de normativos e barreiras tributárias para impedir o fluxo de recursos estrangeiros para o Brasil.

E, não só assim agiu, como alardeou ao mundo contra tudo e contra todos.

A época “exportou” de forma hábil as culpas para as economias desenvolvidas, sem fazer o “mea culpa” de que a atratividade decorria da exuberante taxa de juro que o país ofertava em absoluto desalinhamento com o efetivo risco que o país representava e que havia permitido sua classificação com “grau de investimento”.

Com o passar do tempo, a recuperação das economias desenvolvidas se demonstrou mais difícil do que o esperado, ao mesmo tempo em que o Brasil, passava a evidenciar sinais de deterioração do seu contexto econômico, com perspectivas de crescimento cadente, dificuldades de gerenciamento da política fiscal determinando algumas acomodações criticadas, inflação ascendente, etc, o que dava visibilidade mais acentuada da perda de atratividade, que passou a se revelar a partir de agosto de 2012 com a queda dos fluxos líquidos de recursos externos para o país.

Neste contexto ruim e que provocou em dezembro de 2012 forte pressão sobre a taxa cambial que exigiu intensa atuação do BC para evitar apreciação maior da moeda americana, o governo resistiu na manutenção das normas obstrutivas ao ingresso dos recursos externos.

Neste momento, o governo deveria ter flexionado as normas obstrutivas e permitido que o país recuperasse fluxos de recursos externos, mesmo que com intensidade menor do que em momentos antecedentes, até porque havia perdido o seu “toque de Midas”, ou seja, a taxa de juro extremamente exacerbada, mas ainda não havia sinal do FED quanto à eventual redução do programa de incentivo monetário americano.

Neste ano de 2013, o 1º trimestre foi fraquíssimo no confronto com 2012 e após os meses de abril e maio que normalmente concentram os fluxos das safras agrícolas e por isso teve fluxo positivo, junho voltou a dar evidência ao negativo, mas já deixava evidente a perda de atratividade pelo fluxo financeiro bastante adverso até então em relação ao ano antecedente, a despeito do ingresso de captação da Petrobrás da ordem de US$ 12,0 Bi.

Por outro lado, a projeção prospectiva para a balança comercial vislumbrava que a partir de junho retomaria fluxo negativo, visto que passado o momento maior das exportações agrícolas, nossa pauta de exportações seria fragilizada e o volume de importações continuaria aquecido, fazendo a complementação da demanda interna que faz com que os produtos importados já representem quase 25% de participação.

O déficit em transações correntes evidenciava preocupante crescimento ultrapassando 3% do PIB. Ficou fortalecida a perspectiva de que o país venha a ter que utilizar parte de suas reservas cambiais para complementar o financiamento do déficit.

Neste mesmo momento, surgiram os ruídos em torno da redução/término do programa americano de incentivo monetário à recuperação de sua economia, o que diminuía ainda mais as perspectivas de ingressos de recursos no país, fomentando a ideia de que pudessem se acentuar os volumes de saídas.

Ocorreu neste ponto um “mix” de problemas já instalados no país, que sempre foram atribuídos a causas externas de maneira incorreta, com o novo contexto temerário de saída de recursos.

Como representantes do governo consideraram, logo após o Copom ter elevado a Selic em 0,5% para combater a inflação, que a alta do preço da moeda americana era normal e consequente do mercado flutuante, houve um movimento forte de demanda por “hedge” no mercado futuro para proteção das exposições em moedas estrangeiras por parte das empresas, sobre o qual se acomodou também um movimento especulativo, e o preço do dólar manteve a alta.

O BC reagiu ofertando “swaps cambiais” em grande monta para atenuar a demanda por “hedge”, sem, contudo,conseguir fazer com que a taxa cambial voltasse aos parâmetros anteriores.

Passou, então, a reverter sistematicamente todas as normas obstrutivas que havia imposto, na medida em que percebia que a liberação antecedente não promovia repercussões recuperatórias no fluxo cambial.

Tudo tardio, e, cada vez mais acentuando a “aflição” de recuperar o fluxo perdido, e isto acabou deixando mais latente à fragilidade do governo ante o quadro de “ressaca” de recursos externos.

Agora, o FED atenuou a fala, colocou a redução/término do programa de incentivo monetário com perspectivas não tão imediatas e propósito de fazê-lo com pouso suave.

A despeito disto, não se nutre expectativas de que fluxos de recursos ocorram para o Brasil, o que desmistifica a tese recorrente de que todos os males advém do exterior.

Sobrepõe-se agora todo o conjunto de fatores que compõe o que vimos denominando risco “Brasil”, que é o que realmente inibe os fluxos de recursos externos, mesmo com a nova circunstância que sugere a taxa de juro em alta.

Crescimento cadente; inflação aquecida; descontrole da política fiscal, que vem sendo ajustada por meios contestáveis; política econômica com pouca clareza; consumo com viés de baixa; riscos de desemprego, inicialmente setorial, mas com propensão a disseminação; etc.

O “boom” das commodities que triplicou seus preços e o potencial interno de consumo reprimido que foi incentivado com expansão da facilidade de crédito, e que assim permitiram que o país crescesse com baixo investimento faz parte do passado.

O país precisa buscar outro modelo que necessariamente envolva o investimento como prioridade, sem o que continuará “patinando” com risco de estagflação.

A grande parceira “China”, cujo sucesso se fez com o modelo exportador, vai mais lento, ressentindo-se da perda de ritmo das economias desenvolvidas, e tem problemas com seus bancos e com o seu setor imobiliário, naturalmente, diminuiu as demandas e assim o Brasil vê os preços das “commodities” caírem nas bolsas e as demandas assumirem volumes menores.

A China anunciou crescimento de 7,5% no 2º trimestre, dentro do previsto face a sua nova realidade, mas a produção industrial com crescimento anualizado de 8,9% em junho ficou abaixo das projeções.

Por aqui, o Boletim Focus, que divulga as medianas das projeções de 100 instituições financeiras, vê a inflação em 2013, IPCA, em torno de 5,80%, mantendo a projeção da Selic em 9,25% e do dólar ainda em R$ 2,20. Contudo, projeta mais uma queda do crescimento do PIB de 2,34% para 2,31% e da produção industrial de 2,34% para 2,23%, dados que acreditamos ainda serão revistos algumas vezes. Para o cenário exterior manteve o déficit em transações correntes em US$ 75,0 Bi, a balança comercial em US$ 6,0 Bi e os IED´s em US$ 60,0 Bi.

No nosso entendimento há mínimas possibilidades de ocorrer melhora de fluxos de recursos externos para o país, havendo, portanto, em perspectiva fundamentos para uma continuidade gradual da alta do preço da moeda americana, na medida em que a demanda continue pressionando, mesmo de forma menos intensa, o mercado futuro e o mercado à vista passe a repercutir, também, baixa liquidez.

 

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