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O Brasil precisa de melhora no fluxo cambial líquido. E rápida!

O Banco Central do Brasil deixa por palavras e atitudes, em linha com as nossas percepções enunciadas algumas vezes recentemente, que ocorre um recuo da demanda no mercado futuro por “swaps cambiais”, hedge, o que evidencia diminuição na intensidade de ingressos de recursos estrangeiros no país, e, ao mesmo tempo, ocorre a intensificação da demanda no mercado à vista, o que sinaliza que se intensificam os movimentos de saída de recursos estrangeiros no país.

Com base nesta convicção é que temos destacado que as rolagens de montantes menores do que as posições vincendas de contratos de “swaps cambiais”, tem decorrido mais do fato do recrudescimento da demanda do que de uma decisão estratégica do BC de não fazê-las.

Da mesma forma temos destacado que o momento evidencia a transição da demanda do mercado futuro para o mercado à vista, e que este fato pode determinar pressões sobre a formação do preço da moeda americana, tendo em vista que os fluxos cambiais líquidos para o país apontam para tendência negativa num ambiente em que os bancos já estão posicionados vendidos em US$ 14,342 Bi (US$ 10,401 Bi amparadas por linhas concedidas pelo BC), como consequência de terem, até então, suportado a carência de liquidez por insuficiência de fluxos cambiais suficientes já advindos do ano passado, “substituindo” estrategicamente o BC na geração da liquidez insuficiente, mas com baixa perspectiva de que ocorra solução de mercado para o problema (melhora de fluxo cambial liquido).

Este quadro que já promove apreciação da moeda americana a partir do mercado à vista, pode conduzir o BC a um “corner” obrigando-o a vender dólares à vista ao mercado para garantir a liquidez, caso as condições de arbitragens fiquem desfavoráveis para os bancos que vem dando liquidez no momento, sendo parcialmente financiados por linhas concedidas pelo próprio BC com recursos das reservas cambiais brasileiras.

Esta é uma realidade evidente no momento, deixando transparente por números gerados pelo próprio BC que o contexto do fluxo cambial líquido para o país é desfavorável e tende a consolidar-se em tendência ao negativo até o final do ano.

Data base fechamento de maio, o fluxo cambial financeiro registrou no mês saldo liquido negativo de US$ 2,735 Bi e no ano US$ 634,0 M, sendo que nos meses de abril e maio o total liquido negativo (saídas) foi de US$ 3,750 Bi. É importante observar que é por este segmento que ingressam os recursos direcionados para renda fixa e Bovespa, que assim confirmam que a saída de recursos se acentua como tendência. Nos 5 primeiros meses do ano ingressaram recursos financeiros no país no montante de US$ 205,758 Bi e saíram US$ 206,392 Bi.

O saldo líquido do fluxo cambial no ano está positivo em US$ 4,028 Bi e isto somente foi possível em razão do fluxo cambial liquido comercial ter registrado positivos US$ 4,662 Bi até maio, como reflexo das exportações de grãos, contudo, em perspectiva não se tem grande expectativa quanto ao desempenho deste fluxo, até porque a balança comercial brasileira registra até maio saldo negativo próximo de US$ 5,0 Bi.

O Decreto 8.263 publicado ontem no D.O.U que retroagiu a isenção do IOF de 6% sobre empréstimos estrangeiros a partir de 181 dias, antes 361 dias, tem o claro sentido de um esforço a mais do governo no sentido de incentivar as captações de recursos externos neste momento em que os fluxos cambiais líquidos se revelam tendentes a negativo. É claramente uma medida emergencial que visa resultados de curtíssimo prazo para tentar auxiliar a autoridade monetária a solucionar os problemas de fluxo.

Embora o Ministro Mantega tenha se manifestado, quase ao mesmo tempo em que o Decreto chegava ao conhecimento do mercado de câmbio, propagando que a medida focava a melhora de condições de custos, que o fluxo cambial para o país está normalizado, que o real tem se valorizado e continuará sendo, etc, inquestionavelmente, a grande verdade é que o foco é total e absoluto em motivar captações de curto prazo para mitigar o problema presente de queda de fluxos líquidos de recursos externos para o país.

E é preciso ter em perspectiva que se o BCE adotar programa de incentivo à retomada da atividade econômica na Europa, o que é quase certo que terá que fazê-lo, grande parte dos recursos que vierem a ser injetados no mercado internacional não devem fluir para os países emergentes, mas preferencialmente para os títulos do Tesouro americano, os T-Bills, e isto resultará em apreciação do dólar frente as demais moedas no mercado global, naturalmente fortalecendo a depreciação do real que já está em curso por razões internas do país.

É absolutamente compreensível que o BC busque evitar a realização de leilões de venda ao mercado de câmbio à vista comprometendo as reservas cambiais brasileiras, embora já comprometidas indiretamente pelas posições vendidas dos bancos que representam 4% das mesmas e que, a rigor, terão que ser zeradas pelo BC na ausência de fluxos cambiais suficientes para promover uma solução de mercado. Afinal, a autoridade brasileira tem se oposto às insinuações de analistas, das mais diversas fontes externas, que colocam o Brasil como país vulnerável, destacando sempre o volume de reservas cambiais detidas pelo país.

Todavia, na eventualidade de ser conduzido à condição de necessidade efetiva de realizar leilões de venda ao mercado de câmbio à vista, ficará muito evidente e transparente o fato do país estar carente de fluxos líquidos positivos, o que o leva a abrir mão de recursos das reservas cambiais, e isto pode ensejar movimentos especulativos sobre o real.

Não foi sem causa que ontem titulamos nosso “post” com o destaque “O duro embate do BC com a nova tendência do preço do dólar”, pois o contexto atual não surpreende e vem sendo apontado de longa data como inserido na perspectiva para o mercado de câmbio.

Entendemos que não ocorreu antes devido ao considerável fluxo de capitais especulativos ocorridos no 1º trimestre e que já nos meses de abril e maio começaram a dar sinais de reversão já tornando o fluxo financeiro destes meses negativo. Este fluxo fortuito especulativo no 1º trimestre evitou que este cenário de fluxos desfavoráveis e pressões sobre a formação do preço da moeda americana já ocorresse a partir do inicio do ano.

Este fluxo especulativo ingressado, embora não viabilizasse a estocagem de volume considerável de dólares em razão do intenso volume de saídas em concomitância, criou a oportunidade do BC ofertar contratos de “swaps cambiais” para “hedge” e com isto e mais os bancos vendidos também interessados na apreciação do real, manter a cotação em patamares bem baixos da nossa moeda frente ao dólar.

Mas este ciclo está entrando em processo de reversão e então ocorre a transição da demanda antes no mercado futuro para o mercado à vista, demandando divisas efetivas para suportar a saída de recursos do país.

A perspectiva é de alta do preço da moeda americana, porém é importante observar que estratégia o BC usará para suprir a liquidez no mercado à vista, já que não detém amplo “arsenal” e pode até ser levado a realizar leilões de vendas de dólares.

 

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