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Números ruins do setor externo pesam sobre o preço do dólar!

Entre a realidade desconfortante dos números do setor externo, dados a conhecer pelo relatório do BC, e a esperança baseada na perspectiva de que fluxos de capitais especulativos possam intensificar seu direcionamento para o Brasil, valendo-se de retardamento do FED americano para o início do desarme do programa de incentivo monetário e da atratividade do juro no Brasil que possibilita movimentos de arbitragens, realiza-se a formação do preço da moeda americana no nosso mercado.

Os números das contas externas brasileiras e suas projeções para o final do ano são bastante desalentadores, havendo um representativo montante em aberto para que a  NFE (necessidade de financiamento externo) seja alcançada e que precisa   ser captado pelo Brasil, para que não ocorra insuficiência de fluxo para financiar o expressivo déficit em transações correntes.

Visto isoladamente o conjunto de indicadores dos fluxos, saldos e projeções das contas externas brasileira, sugere uma pressão altista na formação do preço da moeda americana, sem conteúdo especulativo, visto  que o BC neutraliza a especulação com o seu programa de oferta de liquidez mínima, podendo até eventualmente adequar os volumes e prazos, principalmente, as demandas por “hedge” do mercado.

Este efeito na formação do preço da moeda americana ficou evidente no comportamento de ontem, quando o mercado intensificou a demanda por “hedge” e até mesmo houve incremento no volume de pagamentos de importações e remessas de dividendos. Há incertezas no horizonte do setor cambial e a perspectiva favorável de fluxos de recursos migrando para o Brasil ainda é uma probabilidade e não uma certeza absoluta.

Entretanto, a esperança baseada na perspectiva de aumento de fluxo de recursos externos especulativos para o Brasil direcionados a renda fixa, em sua maior intensidade e, também, em renda variável, tem consistência, a formação do preço da moeda americana no nosso mercado sofre um contingenciamento natural que inibe a sua expansão mais acentuada da alta.

Como temos salientado, consideramos que no contexto atual, a variação normal deva ocorrer no intervalo entre R$ 2,20 a R$ 2,25, com um viés de alta para R$ 2,30 ao final do ano.

A alta ocorrida ontem não nos surpreendeu e está em linha com os fundamentos e expectativas presentes, o que estava fora do alinhamento era o preço do dólar abaixo de R$ 2,20 e não o R$ 2,23.

Contudo, é importante que o BC esteja vigilante na observação da demanda efetiva por “hedge” que deve se acentuar em face às incertezas advindas das contas externas, não só quanto ao volume, como também aos prazos.

Bem balizada esta gestão pela autoridade monetária não vemos riscos de que o preço da moeda americana volte a ser exacerbado como no passado recente.

É importante que haja ação e gestão por parte do BC e menos declarações das autoridades sobre o tema, visto que podem provocar, ao não serem alinhadas, volatilidade e estimular movimentos atípicos.

É importante que o BC mantenha e até aumente o volume da oferta nos leilões de linha de financiamento para atender a ancoragem de “posições vendidas” dos bancos, através das quais geram liquidez no mercado à vista de dólar. Pelos dados recentes, observa-se que os bancos com “posições vendidas” têm exposição até o dia 20 em US$ 7,45 Bi,  montante maior do que as linhas de financiamento obtidas junto ao BC que atingem US$ 4,679 Bi, sugerindo que estejam utilizando linhas de financiamentos diretamente de bancos estrangeiros.

Este montante de posição vendida dos bancos, num ambiente em que a autoridade monetária não realiza leilões de compra, indica o quanto já está faltando no fluxo para financiar o déficit em transações correntes até o dia 20. Este número tende a se elevar na medida em que o fluxo cambial se mantenha negativo e que poderá ser revertido a partir da retomada dos ingressos no país de capitais especulativos.

Este é um bom termômetro a ser observado semanalmente quando o BC divulga o fluxo cambial.

Por isso, entendemos que seria de bom alvitre o BC/Copom elevar a Selic de forma mais intensa em uma única vez, por exemplo, 0,75% na próxima reunião, focando que uma taxa mais elevada teria um impacto maior na contenção da pressão inflacionária, ao mesmo tempo, em que provocaria maior atratividade aos investidores estrangeiros em renda fixa.

Reconhecemos que o país está frente a um enorme desafio, mas será fundamental que consiga obter recursos externos suficientes para financiar o déficit em transações correntes, mesmo que sejam capitais especulativos, para fazer a ponte até a melhora dos fluxos de investimentos estrangeiros direcionados aos processos de concessões/privatizações em andamento.

Observamos que continuam se acentuando as opiniões, em linha com o que destacamos em nossas considerações em torno da decisão do FED na última reunião, de manter o programa de incentivo monetário inalterado. Nossa percepção é de que o desmonte do programa americano tende a ser postergado para meados de 2014, desde que a economia americana revele dados de recuperação consistentes no emprego, pois o fazendo agora poderá comprometer o que foi conquistado até o momento e prejudicar o alcance dos objetivos, em especial, na questão do emprego, pois o desmonte vai provocar o aumento do juro (yeld) dos T-Bills e contaminar a economia.

Esta percepção de que o programa do FED não será alterado no curto prazo fortalece a perspectiva de que fluxos especulativos possam ser redirecionados para o Brasil, que está voltando a ter taxa de juro atraente.

Por enquanto, o otimismo com a perspectiva de que os fluxos de recursos externos se acentuem é maior do que o pessimismo com a preocupação de que o país não conseguirá recursos suficientes externos líquidos suficientes para financiar o déficit em transações correntes, por isso, o preço deverá permanecer entre R$ 2,20 a R$ 2,25.

Se assim for se consolidando na prática, a tendência é que o preço se acomode neste intervalo com um viés de alta ao final do ano para R$ 2,30.

Caso contrário, o governo poderá ser levado a ter de utilizar parte das reservas cambiais para a complementaridade, e isto dará uma sinalização mais evidente da nossa fragilização perante os investidores estrangeiros, tendendo a estimular a alta do preço da moeda americana além do projetado neste momento.

O “stress” ocorrido no leilão de “swaps cambiais” ontem foi muito valorizado pelo mercado e, no nosso entender foi algo pontual, o que ocorreu não foi falta de demanda, mas sim de convergência de interesses entre os bancos e o BC.

 

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