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Mercado: Firulas para não admitir o óbvio: Câmbio irreal

O comportamento dos preços e indicadores dos ativos no mercado financeiro nacional tem um termômetro determinante no curtíssimo prazo: mutações de sentimentos em torno da probabilidade da ocorrência ou não do “impeachment” da Presidenta Dilma, ainda cercado de incertezas consistentes, por isso sofrendo influência menor do aspecto sucessório, se vir a ocorrer, que será outro motivo para desencontros e conflitos de interesse.

E, ainda que venha a ser confirmado, não se espera passividade da parte excluída do poder, o que ensejará uma verdadeira batalha jurídica, perturbadora e que em nada colaborará para um ambiente mais sereno.

Este é o fator central neste momento, mas não são desprezíveis fatores macroeconômicos extremamente deteriorados que vem, repetidamente, sendo agravados na economia do país.

Substantivamente negativa é a percepção que o governo ante o desespero da não saída do imbróglio que envolve a economia, a qual deu causa com deformidades de gestão, coloca em prática uma política fiscal expansionista sem ter recursos e agravando em muito às perspectivas para o déficit primário.

O fechamento do 1º trimestre revela aumento considerável de concordatas e falências no campo empresarial, o que contribui para agregar mais desemprego e queda de renda e queda do consumo, já acentuados pela retração da atividade industrial e do comércio atacadista e varejista.

As perspectivas para a retração do PIB se acentuam com intensidade com o aprofundamento da recessão econômica.

Bancos acentuam suas provisões para inadimplência e devem se tornar mais seletivos.

O Boletim FOCUS ainda continua vendo inflação em torno de 7,28% para o ano, como consequência direta da recessão e menos dos juros elevado, mas é preciso observar o quanto já ocorreu deste percentual e o fato da inflação ter uma parcela inercial, e além de tudo, a grandiosidade das incertezas adiante, partindo mesmo da política fiscal expansionista do governo.

Ousa ao sugerir redução do juro de 14,25% para 13,75%, o que é bastante prematura dada a visão cinzenta que ainda se tem dos próximos meses.

Vê o PIB retroagindo 3,73%, mas na realidade as perspectivas pela inanição da economia sugere que possa chegar a 5,00%.

A indústria que nada alterou após ter retroagido mais de 8,00% em 2015, projeta retração de 5,80%, queda que deverá ser bem maior acentuando a queda de investimentos.

Em nosso ponto de vista a projeção de US$ 44,80 Bi de saldo positivo na balança comercial é excessiva. O 1º trimestre que teve participação acentuada das exportações de commodities agrícolas fechou com um saldo acumulado de US$ 8,398 Bi, o que torna factível na melhor das hipóteses algo em torno de US$ 30,0 Bi. Naturalmente é bastante inverso ao cenário de 2015, mas é preciso considerar que as importações sofreram retração brusca como reflexo da perda maior de dinamismo da nossa economia.

IED´s na linha de US$ 55,0 Bi também parece exacerbado em decorrência da perda acentuada da atratividade do país e da sua perda do grau de investimentos. A economia brasileira não sugestiona o investidor estrangeiro a aportar recursos em conta capital, eventualmente e muito rápido para especulações de curtíssimo prazo.

Quando observamos o fluxo cambial para o Brasil fechado no 1º trimestre observamos que foi negativo em US$ 10,362 Bi, com destaque para o fato de que saíram liquidamente do país US$ 17,216 Bi de capitais financeiros.

Este é um sinal amarelo tendente a vermelho que tem sido pouco observado, visto que há uma clara tendência de não rolagem de empréstimos externos vincendos pela alta dos custos e pela retração da demanda por crédito no mercado interno. Este fato poderá agravar muito a saída de recursos financeiros, afora o que está na Bovespa e em renda fixa.

Os bancos autorizados a operar em câmbio estão operando mantendo posições vendidas, montante faltante no fluxo cambial já que o BC nada comprou, da ordem de US$ 30,0 Bi que são ancoradas em empréstimos (financiamentos e operações conjugadas) realizados pelo BC, que assim mascara a utilização das reservas cambiais, que, em realidade, deveria fazer diretamente fornecendo a cobertura ao mercado, mas assim com “by pass” procura não dar evidência ao fato concreto. Ocorre que no quadro atual em que não se projeta fluxo cambial positivo, não há perspectiva que os bancos retornem estes recursos com “funding” do mercado, por isso é efetivamente utilização redutora das reservas cambiais brasileiras.

Ademais causou espécie, que com a expressiva saída de capitais financeiros, certamente protegidos por hedge, o BC tenha mantido a rolagem dos contratos de swaps cambiais, inundando a liquidez do mercado futuro, ao mesmo tempo em que monitorava o mercado a vista concedendo financiamentos aos bancos para suporte da ampliação das posições vendidas.

Este comportamento criou focos especulativos estruturados em posições vendidas no mercado futuro, que provocaram forte apreciação do real, que pode até ter satisfeito o BC por inúmeras razões, uma das quais os efeitos sobre as pressões inflacionárias.

Ocorre que, na atualidade, o BC promove intervenções nem sempre bem entendidas ofertando contratos de swaps reversos, que enxuga liquidez, e contratos de swaps para rolagem, que mantém liquidez.

A alternância de momentos mais favoráveis aos posicionados vendidos no mercado futuro ou ao Banco Central do Brasil são diretamente afetados pelo termômetro das probabilidades do “impeachment”.

No nosso entender não é razoável atribuir-se ou aquele movimento a posicionamentos do FED, até porque é notória a tendência de não elevação do juro imediata e quando o fizer será gradual. Há muitos discursos, mas o FED não deixa de focar os interesses americanos e um dólar forte neste momento poderia impactar na recuperação, por vezes claudicante, da atividade industrial e da criação de novas vagas de emprego.

O câmbio brasileiro está fora do ponto e representa altíssimo risco para uma correção abrupta no curtíssimo prazo em razão de fatores pontuais, principalmente de natureza política, ou gradual com maior evidência de intensificação de saídas de recursos do país e continuidade da deterioração da economia.

 

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