Câmbio News

Medidas inócuas num momento que requer atitudes fortes

O câmbio teve elevado substantivamente o preço da moeda americana ante o real no nosso mercado, impulsionado pelas perspectivas ruins e pelo anuncio de negativação das notas de rating do Brasil pela agência S&P e, na margem, um movimento especulativo de formação de posições vendidas, em especial por parte dos estrangeiros.

Posteriormente ante o alivio de que não fora sancionada a perda do grau de investimento e ao fato de que a agência S&P só fará nova avaliação em 2016, o preço do dólar recuo até demasiadamente, no nosso entendimento causado ainda pelo movimento especulativo que formou posições vendidas, então atuando para a necessária cobertura e consolidação do lucro.

Na sequência, o preço da moeda americana retomou o viés de alta e gradualmente vai caminhando para a sua nova realidade, considerando que a manifestação da S&P suscita agora a manifestação da Fitch e da Moody´s sobre o rating brasileiro, mas também e principalmente poderá determinar mudanças imediatas ou não dos investidores estrangeiros no nosso mercado financeiro.

É sabido que fundos estrangeiros de grande porte têm recursos alocados no Brasil, mas isto só é possível pelo fato do país deter o grau de investimento, caso contrário terão que obrigatoriamente sair do país. A questão em aberto agora é sobre qual será o comportamento destes fundos ante a perspectiva efetiva de risco de perda do grau de investimento.

Previdentemente iniciarão a retirada dos recursos de forma gradual, pois no mercado global o risco Brasil também passa a ser impactado pelo anuncio da S&P e internamente observa-se que a divida publica continua evoluindo face à expansão dos gastos e que a divida publica bruta se aproxima de 70% quando os países emergentes têm em média 40%?

Além destes fundos especificamente, há outros fundos detentores de recursos aplicados no Brasil e que com o aumento do risco Brasil e da complicação da conjuntura poderão decidir pela retirada do país.

Então, ficamos dependentes da visão que os estrangeiros terão a respeito do Brasil e não da visão do Brasil a respeito de si próprio. Esta é a questão e será o determinante da evolução do câmbio no curto prazo.

A divulgação do PIB americano até o 2º semestre anualizado em 2,3% ante projeção de 2,6% a 2,8% e consumo com crescimento de 2,9% podem estimular os receios de intensificação de saída de recursos com uma eventual alta do juro americano, mas é sabido que o FED o fará gradualmente. Contudo, continuamos com a percepção de que o FED/governo americano,

Efetivamente, não desejam elevar o juro este ano para não valorizar demasiadamente o dólar e colocar o crescimento de sua atividade econômica em risco com a desaceleração das exportações e crescimento das importações. A inflação americana ainda está baixa e este deve ser o futuro mote para protelação.

O BC elevou a taxa SELIC em 0,50% para 14,25% considerando o atual balanço de riscos e deixou transparecer que deve parar neste patamar este ano, mas a combinação de recessão com alta de juro é extremamente perversa. A resultante do aumento de juro só se prestará a desestimular mais o setor produtivo em forte evolução para uma recessão forte, que desempregará e conduzirá a perda de renda e queda do consumo, o que já tornou perceptível, embora no nascedouro, a queda na demanda de crédito para consumo.

Mas elevando o juro SELIC o BC se demonstra publicamente rigoroso no enfrentamento da inflação e se alinha com as perspectivas do mercado financeiro, e, ao mesmo tempo, não precisa reconhecer publicamente que a recessão forte está no seu radar e terá efeito muito mais intenso na contração da inflação do que o juro, ignorando-a em suas exposições pela inconveniência de reconhecimento.

O juro sozinho não será fator de retenção ou atração de recursos estrangeiros, quando desalinhados com um patamar de risco aceitável.

E o país se evidencia cada vez menos atrativo ao capital estrangeiro e com forte tendência de contabilizar fluxos cambiais negativos. Até o dia 22 o país detém reservas cambiais liquidas da ordem de US$ 350,0 Bi ( US$ 370,0 Bi menos US$ 20,0 Bi posição vendida dos bancos para financiar liquidez no mercado à vista) e a próxima rodada de demanda que poderá vir será de moeda efetiva, atingindo direta (se o BC vender) ou indireta (se o BC der linha aos bancos) as reservas brasileiras, num momento em que deve se acentuar a contração de ingressos de recursos.

Então, medidas como a elevação da SELIC, que podem transparecer rigor, mas tende a ser menos eficiente do que o “lado bom” da recessão, se assim podemos nominar, impactando na inflação, ou declarações procurando reverter expectativas que estão bastante evidentes e perceptíveis com manifestações de otimismo quanto a virada do “status quo”, tem efetivamente pouca influência positiva neste momento.

O governo precisa ter atitudes incisivas em relação a sí mesmo como apresentar um plano de ajuste estrutural nas contas publicas ou seja agir com rigor sobre suas despesas e avaliar como as reduzir com eficiência, assumindo parte da responsabilidade das correções com foco em atingir o equilíbrio fiscal e redução da divida publica bruta, ao invés de buscar impor aos setores produtivos da economia a contribuição total do ajuste fiscal.

Sobram evidências que a economia não tem condições de dar as respostas arrecadatórias que o governo almeja razão pela qual ocorre a perda de atividade e se agravará a recessão.

Além disto, deveria propor ações visando as reformas trabalhistas, tributárias, previdenciárias, chamando o Congresso a arcar com responsabilidades objetivas no esforço recuperatório da economia.

Embora com a economia deteriorada e com uma situação fiscal comprometida, atitudes fortes e incisivas poderiam mitigar o risco do país perder o grau de investimento.

Para o momento, entendemos que dado o contexto cautelar o preço da moeda americana deva se situar em torno de R$ 3,40 e a evolução dependerá diretamente da atitude dos investidores estrangeiros face suas avaliações acerca do “status quo” pós manifestação da S&P e a evolução do risco Brasil, sem perder de vista as agências de rating. Porém, não acreditamos que até o final do ano num ambiente de saída de recursos mais intensos o preço da moeda americana ultrapasse R$ 3,70, salvo se ocorrer movimento intenso especulativo como no passado, o que não acreditamos.

 

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