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Intervenção no Rio foi estratégica para inviabilizar a reforma que já era inviável

A intempestividade com que foi determinada a intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro, aparentemente sem ter definida claramente a estratégia e “modus operandi”, surpreendendo a todos os envolvidos mais diretamente, provocando uma série de controvérsias nas informações, deixou evidente que a precipitação teve a finalidade de inviabilizar a votação da já inviável reforma previdenciária, pois poderia ter aguardado uma ou duas semanas e permitir que a dita cuja fosse votada, para posteriormente de forma melhor pensada ocorresse a intervenção.

Buscando mudar o foco que estava centrado na discussão em torno da reforma numa clara estratégia de evitar o desgaste da derrota, tudo foi feito desviando as atenções, mas não evitando a percepção de que o governo tinha a total convicção da derrota, embora utilize o álibi de que agora não poderá votá-la enquanto durar a intervenção, mas afirmando que a mesma continua sendo focada e que será votada quando for possível, ou seja, no novo governo e se este assim desejar, já que a intervenção vai até o final do ano.

Agora, embora concentrando o foco maior na intervenção que representa um grande risco para as forças armadas já que o problema que enfrentará é atípico, à margem de tudo procura desenvolver um Plano B, com alguns temas requentados e, portanto, não se tratando de coisa nova, para ganhar espaço e demonstrar que permanece preocupado com a relevante crise fiscal com a qual vive o país, e mantendo, o discurso de que a reforma previdenciária persiste como objetivo.

Este emaranhado de atos e atitudes pode ser entendido como estratégia esperta de quem não desejou colher derrota que pudesse ofuscar seus objetivos eleitorais, ou, mesmo até certo ponto ingênua dada à clareza de tudo que foi praticado e seus intuitos.

Enfim, havia muitos analistas apregoando que a inviabilização da aprovação da reforma previdenciária poderia sinalizar o fim do governo Temer, mas a verdade é que seu governo busca abrir novos fronts, mesmo que venham a ser considerados inviáveis, mas de toda forma é importante para mostrar-se “vivo”.

Por aqui a inflação fugindo um pouco à percepção continua baixa, o que faz com o mercado financeiro ainda admita que o juro SELIC possa ser mais uma vez reduzido. Inegavelmente são troféus eleitoreiros, mas o grande desafio é fazer a economia crescer de forma sustentável, gerando emprego e renda, e nestes quesitos a visão ainda é tênue na realidade, embora fortalecida nos discursos.

O Brasil tem neste ambiente de euforismo mais colaboração do exterior com sua enorme liquidez do que por seus méritos, mas acaba sendo contaminado e isto cria perspectivas nem sempre sustentáveis e ancoradas em fundamentos críveis.

Há muita curiosidade de como as agências de rating considerarão as manobras do governo para driblar a derrota de fato da reforma da previdência, já que o problema maior do país permanece insolúvel e altamente problemático.

Na mesma linha a curiosidade se estende a verificação da postura dos investidores estrangeiros, com recursos amplamente forjados em operações de “carry trade”, na ocorrência de agravamento real do nosso risco combinado com eventual queda da taxa SELIC e elevação do juro externo, agregada a eventual redução da liquidez internacional.

Há muitas dúvidas e incertezas na trajetória do Brasil e vão ficando escassas as possibilidades de soluções efetivas para a crise fiscal e até para as medidas paliativas complementares, pois o ambiente político eleitoral, ainda extraordinariamente indefinido, doravante tende a tornar quaisquer aprovações mais difíceis e o ambiente político eleitoral tende a acentuar os acirramentos entre candidatos e partidos.

Há um interregno importante, a Copa do Mundo, que como o carnaval distrai a população brasileira, mas logo a seguir o país entrará na fase dura e crítica das definições eleitorais, ganhando ênfase a participação do STF e as pretensões no condenado ex-Presidente Lula, e por que não da definição dos demais candidatos.

O ano é curto e fica mais curto com a forte concentração de foco na Copa do Mundo e no momento pré-eleitoral, e há muita coisa para ser alinhada no e pelo país, o que leva a ser que serão meses de forte embate e poucos avanços em prol dos efetivos interesses do país.

Há riscos que expõe o país a movimentos mutantes e que podem provocar reversão no otimismo com o qual se procura conviver, por vez sem saber exatamente o porquê, pois afora os problemas que não são pequenos internos, ainda há o risco de mudança de posturas do mercado externo, já que não podemos perder de vista, que somos emergentes dependentes e não protagonistas.

Temos sido enfáticos na propagação da absoluta necessidade de sensatez e precaução neste momento do Brasil, onde discretos sinais de melhora estão sendo amplificados e ganham carona nos efeitos oriundos do ambiente externo de elevada liquidez que carreia recursos especulativos para os países emergentes.

É absolutamente necessário de tudo seja acompanhado com sintonia fina, porque surpresas poderão ocorrer decorrentes do nosso “status quo”, mas também de mudança de humor externo em relação ao Brasil.

Os recursos estrangeiros aqui locados oriundos em operações de carry trade são extremamente “ariscos”, e mudanças de “climas no país”, assim entendido econômico e/ou político, ou, inviabilização da construção engenhosa destas operações que dão origem aos recursos externos, poderão determinar o refluxo dos mesmos, e as consequências impactarão na Bovespa e no dólar.

Na margem, poderão ainda ter impactos as medidas que venham a ser adotadas pelo FED americano e os efeitos impactantes das reformas tributárias dos Estados Unidos.

Dúvidas, incertezas e riscos existem à larga, e o Brasil tem problemas instalados como a crise fiscal e em perspectiva como a eleitoral.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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