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Incongruência provoca disfuncionalidade no câmbio, mercado repercute em linha!

“Há momentos em que o silêncio é a melhor mensagem”, esta parece ser a recomendação não adotada pelo Ministro Guedes que ao exteriorizar a sua síntese analítica sobre o preço do câmbio, sancionou a alta e não somente isto impulsionou alta sustentável “no poder da palavra”, afinal é a autoridade maior na gestão da economia no país.

Juro baixo, câmbio alto, mas não necessariamente com um padrão de disfuncionalidade que assemelha o comportamento do preço da moeda americana a um ambiente de crise cambial ou forte pressão.

Então, por inevitável, o BC agiu em conformidade com a nossa tese posta a várias semanas, para “apagar o incêndio”: BC tem que vender dólares à vista sem conjugação com swaps cambiais reversos. Simples assim! Mas o fez muito timidamente para o “tamanho do estrago” causado pela declaração da autoridade.

O preço atual está fora do pior contexto e pode ter maiores repercussões inflacionárias já que o momento sinaliza melhora da atividade econômica e a contaminação do fato nos preços relativos pode ocorrer de forma menos contida, isto não pode ser menosprezado em perspectiva, e, é necessário ainda se observar como estará sendo o comportamento do preço das “commodities”.

O Presidente do BC, Campos Neto, já salientou que se pressionar a inflação o recurso será utilizar o juro como antídoto.

Difícil ser gestor empresarial neste ambiente, e é ilusório imaginar que dólar com preço elevado incentive a exportação, porque o mundo é globalizado e há o contra efeito imediato nos preços, o que fortalece a exportação são preços estáveis, compatíveis com o “status quo” do país e seus preços relativos, e nem mesmo incentive investidores estrangeiros vir com recursos para a Bovespa porque eleva o receio.

Afinal, para que se presta esta disfuncionalidade para um país que busca reconstruir sua atratividade?

Um imbróglio sério, que ressoa ao leigo uma crise cambial inexistente e nem há falta de liquidez relevante visto que, a despeito do fluxo cambial para o Brasil ainda perdurar negativo, o Banco Central do Brasil tem suprido o mercado com liquidez suficiente, já tendo vendido mais dólares à vista do que o saldo negativo do fluxo cambial.

O que se esperava agora é que o país entrasse numa fase de melhor perspectiva para o fluxo cambial com os sinais positivos da atividade econômica e ao longo do período de transição marcando a inflexão do negativo para o positivo, e o Banco Central do Brasil pontualmente alterasse sua dinâmica de intervenção no câmbio o fazendo tão somente com ofertas de moeda à vista, sem casamento com swaps cambiais reversos, que quando desinteressantes para o mercado neutralizam a fomentação objetiva da necessária liquidez à vista que o mercado demonstra estar carente.

O Brasil registrou uma alta expressiva no déficit em transações correntes que atingiu 3% do PIB, mas há percepção clara que a queda expressiva nas exportações é a causa maior e se revela no confronto entre 2018/2019 neste mesmo período com recuo da ordem de US$ 24,0 Bi enquanto as importações se mantêm estáveis, e isto derruba a performance da balança comercial.

A indústria de transformação brasileira, em especial, sente a queda das exportações para a Argentina, que tem peso relevante na nossa balança.

A despeito das “muitas causas” nacionais e internacionais, no nosso entender a verdade é que o fluxo cambial para o país está num momento de transição, ainda saindo o capital especulativo que não encontra mais o oásis financeiro por aqui, para em seguida ocorrer a entrada de recursos estrangeiros de melhor qualidade, e isto cria um “gap temporal” em que o BC precisa necessariamente suprir o mercado somente com liquidez à vista pura.

Desacreditar desta visão é negar que as perspectivas econômicas para o país estão melhorando e sendo retomada a atratividade, inicialmente pela Bolsa; que o PIB será 1% este ano e em torno de 2,5% em 2020; que o emprego está dando sinais de reação positiva, lenta, mas firme na direção, enfim o dólar com preço exacerbado, teoricamente, “nega” esta percepção.

Se já ia demorar um pouco para começar a melhorar, agora, seguramente, poderá demorar um pouco mais, porque receio dos estrangeiros que estava sendo atenuado em relação ao Brasil pode ser retomado.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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