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Guerra cambial? Afinal, o que o Brasil do real tem a ver com isto?

No tempo da SELIC estratosférica e do mercado de derivativos aberto às apostas livres e certeiras no ganho, tendo ao fundo um interesse do governo em apreciar o real e aumentar reservas cambiais, o BRASIL atraiu muitos dólares de investimentos os mais diversos.

Habilmente, o Ministro Mantega, que ocupou este cargo também no governo passado, época do intenso fluxo de recursos estrangeiros para o país, em grande monta especulativo, cunhou o sofisma “guerra cambial”, buscando exportar as nossas culpas e desejos do real apreciado, atribuindo a culpa aos programas estabelecidos pelas economias desenvolvidas em crise e denominados “quantitative easing”, ofuscando desta forma a efetiva causa que era a excepcionalidade da taxa de juro que oferecíamos e que com esta característica catalisava a atratividade dos investidores especuladores focados na busca de rentabilidade.

Quebrado o “encanto” da taxa SELIC com a sua brusca redução, ficou claro que outros conceitos como real fortalecido bom para reserva de valor, etc. caíram por terra e sobrou tão somente o entendimento de que o real era uma moeda muito interessante para especulação desde que atrelada a uma taxa de juro elevadíssima e um mercado de derivativos com ampla liberdade para especular.

Em realidade o Brasil nunca foi vitima de guerra cambial, o que houve por aqui decorreu de nossas próprias imperfeições já mencionadas e, com isto atraímos capital especulativo que desejávamos para aumentar as reservas cambiais, ainda que a um custo elevado de captações de reais e, concomitantemente valer-se disto para justificar a apreciação do real, cujas causas eram outras.

Então, como justificar agora, aqui e na Rússia, o que ocorre com o câmbio no Brasil, que ante um cenário de fluxo cambial negativo, balança comercial negativa, percepção de relativa retração no exterior da demanda por títulos brasileiros, perda de atratividade e mudança de postura dos gestores de fundos internacionais em relação a nossa Bovespa, etc., opera a moeda americana em depreciação, contrariando os fundamentos.

Que nome poderíamos dar a esta atipicidade, a este contraditório?

O BC demonstra ter feito a opção pela tentativa de conter a inflação com o real apreciado, porém não tanto quanto os bancos com suas posições fortemente “vendidas” desejam, visto que atua com “swaps cambiais reversos” quando sente que há movimento especulativo forjando a desvalorização maior da moeda americana.

Mas, ao que tudo indica este atalho não trará os frutos desejados e, então o Ministro Mantega começa a insinuar, naturalmente por enquanto para obter “massa critica”, que o juro é o instrumento para conter a inflação e não o dólar.

Confronto entre o BC e o MF? Não. Acreditamos que os movimentos e atitudes são coordenados, na base do “bate e assopra”. O BC faz a parte antipática ao apreciar o real e decepciona o setor produtivo nacional e o MF faz a parte simpática como se tivesse se antepondo a isto, atenuando as criticas.

Mas, o fato é que a inflação está forte e resistente e tudo indica vai precisar de estratégias mais contundentes para contração, e estas poderão passar necessariamente pela mudança da SELIC, o que já esta levando o mercado de juro a ir nesta tendência.

Neste interregno sobram duvidas para todos os lados, mercado e governo, e não há certezas e isto pode criar um comprometimento maior nas perspectivas já cadentes de crescimento do país, pois o setor produtivo, sem norte, não investe e fica estagnado e pode até demitir.

O Boletim FOCUS datado de 15 e divulgado hoje reduz discretamente de 5,71% para 5,70% a projeção de IPCA-2013, mas amplia de 5,49% para 5,53% a projeção para os próximos 12 meses.  Não ousa alterar a projeção para a SELIC de 7,25% para este ano, embora o mercado venha sinalizando crescente convicção de que será elevada. Reduz para R$ 2,02 a projeção do dólar para este ano, a despeito de ser publico e notório menor fluxo de recursos externos para o país. Discretamente reduz a projeção para crescimento do PIB de 3,09% para 3,08% e da produção industrial de 3,10% para 3,00%.

Não podemos deixar de considerar que as projeções contidas no Boletim FOCUS sinalizam as incertezas presentes, procurando não exacerbá-las num momento de indefinições.

Em suma, é crescente a percepção de que o governo via apreciação do real ante a moeda americana não obterá o sucesso que necessita para conter a pressão inflacionária, correndo o risco de insucesso e na margem ainda provocar a inviabilização do crescimento econômico.

A reutilização da taxa de juro SELIC como instrumento principal de contenção inflacionária parece, no contexto atual, quase inevitável.

A dúvida é se a SELIC será retomada como instrumento principal de contenção inflacionária com certo relaxamento da taxa cambial para algo entre R$ 2,00 a R$ 2,05 visando estimular o setor produtivo, ou, se isto ocorrerá mantendo-se o real apreciado, o que será tarefa difícil pelo cenário adverso do fluxo cambial para o Brasil.

Decisão neste sentido precisa ser definida no curtíssimo prazo, pois a incerteza predominante pode se tornar paralisante da atividade econômica.

 

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