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“FOCUS” conservador e BC sugerindo rolagem inferior à posição vincenda

O BOLETIM “FOCUS” DO BC divulgado ontem dia 10, datado de 7 de março passado, contendo as projeções medianas agregadas a partir das expectativas de quase uma centena de agentes do mercado financeiro, mostra resultado da visão prospectiva bastante conservadora, deixando evidente uma postura de cautela e baixíssima ousadia, embora inúmeros destes principais agentes venham expressando, individualmente, projeções bem mais realistas com a perspectiva prevalecente a respeito do Brasil para este 2014.

Elevou a inflação IPCA para 2014 de 6,00% para 6,01%. Para o dólar reduziu a projeção de R$ 2,49 para R$ 2,48 e reduziu a SELIC de 11,13% para 11,00%, o mesmo ocorrendo com o PIB que passou de 1,70% para 1,68% e a produção industrial de 1,80% para 1,57% e na mesma linha o saldo de balança comercial de US$ 7,00 Bi para US$ 6,36 Bi. Déficit em transações correntes foi mantido em US$ 75,0 Bi e os IED´s em US$ 58,0 Bi.

Os dados do setor externo, em especial, parecem distantes da realidade em perspectiva. Os próprios números do FOCUS do déficit em transações correntes estão abaixo da própria projeção do BC que é de US$ 78,0 Bi e na realidade deve voltar a superar os US$ 80,0 Bi, tendo emitido um preocupante sinal em janeiro com déficit acima de US$ 11,5 Bi. Os IED´s tendem a ficar abaixo dos US$ 58,0 Bi que vem sendo projetados, sejam na forma pura de IED´s, sejam na forma de empréstimos “intercompanies”, o baixo crescimento do país não permite se vislumbrar atratividade e oportunidades.

O saldo da balança comercial ainda perdura otimista, os números do 1º bimestre do ano foram altamente negativos, seguramente poderão ser atenuados com as exportações das safras agrícolas, mas tem pouca chance de ser convertido a positivo, até porque a Argentina deve reduzir bruscamente suas compras do Brasil e a Venezuela tende a ser evitada pelos exportadores brasileiros. Ambos os parceiros tem problemas de solvência, e, à margem deste cenário temos a China emitindo sinais desconfortantes para o Brasil face à nossa alta dependência das exportações para aquele país. O Brasil tem baixa participação em acordos comerciais que poderiam dar suporte neste momento, mas não tem evoluído nesta linha com as principais economias.

A China registrou uma queda de 18,1% surpreendente nas exportações em fevereiro o que provocou déficit comercial de US$ 22,98 Bi, algo que não acontecia desde 2009.

Os números atuais do FOCUS mesmo que com defasagem ante a realidade em perspectiva já deixam evidente que o Brasil terá, outra vez, insuficiência de fluxos para financiar seu déficit em transações correntes.

Somente este ponto já seria suficiente para desqualificar uma projeção do preço do dólar ao final do ano em torno de R$ 2,48, nos parecendo mais coerente a nossa projeção de R$ 2,60, agora já acompanhada por inúmeros “players”, e isto representará pressão inflacionária dada a grande capacidade de irradiação do efeito apreciação do preço do dólar na nossa economia, o que sugere que a SELIC precisará ir um pouco além de 11,00%.

Além dos aspectos já colocados que podem impactar na formação do preço da moeda americana, há outros fatores que merecem atenção a respeito.

O fluxo cambial para o Brasil já está negativo e esta deve ser a tendência para o Brasil e para os demais países emergentes, o que, no caso brasileiro, será a confirmação de insuficiência de fluxos para fazer face ao financiamento do déficit em transações correntes, que somar-se-ão ao saldo já negativo do ano passado, para o qual o BC ainda não se desfez de reservas cambiais diretamente, utilizando a estratégia de garantir liquidez com o financiamento de linhas para ancorar as posições “vendidas” dos bancos, mas que em algum momento deverá ser alterada visto que o fluxo cambial não se recupera para inverter este quadro que funciona para situações transitórias e de curto prazo.

Segundo o BIS (Banco Internacional de Compensações), considerado o banco dos bancos centrais, o Bancos dos Estados Unidos reduziram em US$ 25,2 Bi sua exposição ao Brasil em apenas seis meses, entre março e setembro de 2013. O volume total deste grupo passou de US$ 115,5 Bi para US$ 90,3 Bi, montante que inclui os financiamentos externos e operações locais em reais por meio de suas subsidiárias. Importante observar que é um dado até setembro de 2013, não tendo havido desde então razões para que ocorresse inversão da tendência.

Os bancos europeus que detém volume três vezes maior que os americanos no Brasil, reduziram sua exposição ao país, também incluindo financiamento local em reais, em US$ 27,2 Bi que reduziu o total para US$ 341,7 Bi.

A demanda tende a se acentuar no mercado à vista, efetiva em moeda disponível, e para tanto será importante o BC monitorar a liquidez com financiamento em moeda americana para que os bancos expandam suas posições “vendidas” ou realizando vendas ao mercado de forma direta. Não consideramos a hipótese do BC atuar tentando conter o viés de alta do preço da moeda americana, já que seria um embate forte provocando a queima de divisas não adequada para este momento que sugere preservação das reservas cambiais, e, poderia estimular movimento especulativo no mercado de derivativos.

Por outro lado, a demanda por “swaps cambiais”, que se presta a “hedge” ou especulação, tende a redução, visto que com a liquidação de passivos em moeda estrangeira que estavam com “hedge”, diminui a demanda neste segmento futuro e aumenta a demanda no mercado à vista, com a consequente saída.

Este fato à medida que vá se tornando efetivo provocará a redução das ofertas de “swaps cambiais” para rolagem de posições vincendas, levando então a autoridade monetária a efetivar rolagens parciais, até porque vem realizando leilões diários de 4.000 contratos, equivalentes a quase US$ 200,0 M.

É esta possibilidade que está presente. Na virada de março/abril há uma posição de US$ 10,148 Bi vincenda. O BC realizou leilão ontem de 10.000 contratos para rolagem num total pouco abaixo de US$ 500,0 M. O mercado convive com a incerteza se ocorrerá a rolagem total, sendo bastante provável que não venha a ocorrer.

A realização do leilão de 4.000 contratos e posteriormente de 10.000 contratos levou os agentes a depreciarem o preço do dólar até as proximidades do meio dia ontem, movimento atípico em relação às demais moedas emergentes frente ao dólar, porém estratégico para os interessados na aquisição da oferta para rolagem.

Procurou-se atribuir, também, a depreciação do dólar à perspectiva de ingresso de captação da Petrobrás, mas esta tese perdeu força com a recuperação pontual do viés de alta após a realização dos leilões de “swaps cambiais” pelo BC.

Posteriormente, tão logo realizados os leilões, o preço da moeda americana apresentou apreciação e alinhou-se à tendência natural.

A tendência do preço da moeda americana fundamentada e sustentável é de apreciação, não havendo fatores que possam sugerir algo ao contrário, podendo ocorrer eventuais movimentos de volatilidade por razões pontuais, absolutamente não sustentáveis, mas prevemos a intensificação da saída de recursos investidos no país que no curto prazo poderão elevar a taxa cambial ao entorno de R$ 2,50, para um fechamento ao final do ano em R$ 2,60.

A economia americana começa a revelar melhoras após os problemas inibidores decorrentes das severas questões climáticas, e tende a desfazer as dúvidas sobre sua recuperação, passando, então, a atrair os capitais investidos nos países emergentes.

O setor externo do Brasil tem grande potencial de desarranjo da política monetária neste ano de 2014.

 

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