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Expectativas neutralizam tendências, mas Brasil precisa reflexão sobre perspectiva

Com decisões do BCE, FED e COPOM no radar impactando nas expectativas as tendências ficam neutralizadas e o comportamento dos mercados deverá ficar muito defensivo.

O foco central é a possibilidade de serem sancionados cortes nas taxas de juros e suas repercussões e percepções sobre as razões determinantes.

Do BCE se espera efetivo corte no juro, porém em relação ao FED e ao COPOM há indícios mas ainda não efetivas convicções e há muitas divergências, caso sejam efetivadas, sobre o quanto de percentual se faz adequado.

Para o Brasil repercute mais diretamente a decisão que for proferida pelo FED americano, visto que repercute mais diretamente no Brasil, e nesta oportunidade ganha até maior relevância pela concomitância dos eventos, reuniões do FED e do COPOM,no mesmo momento.

Há no Brasil certa euforia com eventual redução da taxa de juro americana, pois no imaginário determinará fluxos de investidores estrangeiros para o mercado brasileiro, seja para renda fixa seja para renda variável, melhorando o débil fluxo cambial presente.

Esta é sem dúvida uma leitura do otimismo que neutraliza realidades efetivas e que podem não confirmar as expectativas favoráveis.

O Brasil com foco na aprovação da Reforma da Previdência construiu expectativas de curto prazo que na realidade não se configuram tão factiveis quanto imaginadas, e por isso certamente poderá passar pela necessidade de realizar severa reflexão.

Análise com maior acuidade aponta que as perspectivas efetivas de retomada da atividade econômica absolutamente necessária se situam no médio e longo prazo, distantes do momento atual, e isto pode construir relativo desalento, visto que o país anseia por recuperação rápida do estado letárgico de sua economia.

A Reforma da Previdência em sua perspectiva alivia do governo a pressão decorrente da severa crise fiscal, mas não gera recursos que permitam por parte do poder público os imprescindíveis investimentos estruturais, com fomento a geração de empregos, renda e consumo.

E nem mesmo a Reforma Tributária que até mesmo antes de ser proposta já acarreta sinais negativos, ao colocar ainda como insinuações o retorno de algo assemelhado a antiga CPMF, péssimo instrumento tributário, amplamente repudiado num passado recente. Mas a Reforma Tributária também é imprescindível para desburocratizar e ordenar o imbróglio atual.

O fato é que o alívio da crise fiscal é excelente, mas não viabiliza por si só nada, porque o país precisa de investimentos e atividade econômica que reconstrua o poder de consumo da população.

O governo então foca o setor privado ao qual atribui a incumbência dos investimentos produtivos, na ausência de sua capacidade para tanto, porém o encontra num momento com o seu setor produtivo evidenciando expressiva capacidade ociosa, carente de força do consumo para recuperar tração.

Desta forma, a economia estagnada tende a continuar estagnada no curto prazo, e o governo então recorre à velha prática de liberar aos cidadãos recursos que a eles pertence e que são assegurados para quando se aposentarem, autorizando a liberação antecipada de parte dos recursos do FGTS, com o intuito de fomentar o consumo, mas sabidamente uma medida de efeito paliativo, pontual e enganosa, que não induzirá ao setor produtivo a qualquer investimento, mas sim a “desova” de estoques. 

Enfim, o país tem inflação controlada, juros baixos tendentes a redução, mas está sem tração, sem atratividade para investimentos, nacionais e estrangeiros. Surpreende o CDS em 127 pontos que nos parece excessivamente reduzido face ao efetivo “status quo” brasileiro.

Sem perspectivas sólidas para a economia, como atestam o governo, o BC e a mediana das projeções do mercado financeiro expressada no Boletim FOCUS, é difícil construir cenários prospectivos favoráveis de curto prazo para a Bovespa fundamentados. Isto impacta no fluxo cambial que tem sido negativo.

Com perspectiv as de cortes de juros SELIC o país perde atratividade de rentabilidade para o investidor estrangeiro, o que afeta também o fluxo cambial.

O barateamento do financiamento interno desestimula o interesse no financiamento externo e isto reduz a demanda externa, e, também impacta negativamente no fluxo cambial.

O fluxo cambial está negativo e tem causa e perspectivas remotas de reversão.

O COPOM pode ser levado a um “corner” pois se reduzir abruptamente a taxa SELIC sem concomitância com a redução do juro por parte do FED e até em intensidade maior ou menor poderá determinar efeitos nos custos do cupom cambial e agregar impactos no mercado de câmbio a vista e formação de preços adicionais aos do fluxo cambial negativo.

Entendemos que o preço do dólar face ao contexto de curto prazo do Brasil não é sustentável no patamar de R$ 3,75 e nem deve ter viés de queda, sendo razoável que volte a se situar entre R$ 3,80 a R$ 3,90, pois o fluxo negativo é um fato novo nas perspectivas antecedentes.

O país tende a recuperar dinâmica da atividades econômica quando tornar efetiva a política de privatizações, está sim geradora de recursos para o governo e que o proverá de condições reais de retomar investimentos estruturais.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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