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Embora tardia, atitude do BC pode expurgar a parte especulativa do viés de alta

A necessidade do BC atuar ofertando linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra não pode ser entendida como unicamente direcionada a suprir eventual escassez de liquidez no mercado à vista.

No nosso entender esta leitura é errática e, naturalmente, decorre do fato da autoridade monetária ter ofertado US$ 3,0 Bi em linhas e o mercado só absorvido US$ 500,0 mi, mas o que consideramos relevante é a atitude, por isso temos colocado em nossas abordagens, desde o início da crise sobre os emergentes que atingiu Argentina, Turquia, etc, que o BC deveria atuar com todos os seus instrumentos de liquidez evidenciando fortemente oferta de proteção, com os swaps, e no mercado de câmbio a vista, com a oferta de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra.

E, por que isto? O Brasil tem um contexto bastante contraditório, ou seja, um quadro econômico-político bastante conturbado e desgastante, mas dispõe de uma sólida situação que o deixa imune a uma crise cambial, de vez que, diferentemente dos demais emergentes, têm reservas substantivas e instrumentos derivativos que podem prover os investidores estrangeiros com recursos no país de proteção ou com liquidez farta no mercado de câmbio a vista se desejarem retirar seus investimentos de imediato.

Isto deveria ter sido posto à mostra logo no início com atitudes e não somente com palavras e discursos frequentes, não basta alardear que “é rico no quesito”, mas sim “dar efetiva evidência” a isto.

Teve uma atitude parcial e errática. Primeiro porque anunciou o que iria fazer, ao invés de fazê-lo sem alardear o quanto, pois isto “preparou” o mercado para absorver as ofertas e até mesmo assumir a formação do preço da moeda americana, com grande habilidade, deixando aparentar que era a ação do BC que deprimia o preço e não a ação oportunista dos tomadores para otimizar a perspectiva de ganho na operação de swap cambial.

E mais, realizou um volume de oferta que, a rigor, admite a presumível conclusão que foi muito além da demanda efetiva existente no mercado e proporcionou a instalação de um movimento especulativo na tomada de swaps cambiais não destinados à proteção e sim a especulação, que acabou por estimular perspectivas, incentivadas pelos tomadores, de que o preço da moeda americana em termos reais estaria acima de R$ 4,00 ou mais, havendo até a projeção de que poderia ir a acima de R$ 5,00.

Envolvido numa roda viva em que a volatilidade, que afirmava combater, se instalou na faixa de R$ 3,70 a quase R$ 4,00, no piso menor quando da oferta e no piso superior pós oferta, acreditamos que foi com a oferta de swaps a montante muito além do razoável.

Contudo, se fez tardio na oferta de linhas de financiamento em moeda estrangeira, e em razão disto não teve um contraponto para agir efetivamente na contração dos excessos na formação do preço do dólar de forma eficaz, efetivamente interferindo de forma técnica e correta.

Enquanto no swap cambial fica estabelecida a taxa cambial referencial da sua venda e em aberto a taxa referencial de sua compra no vencimento, o que enseja a especulação de que atinja o máximo e que supere o juro que será devido em contrapartida pelo tomador, atualmente em níveis muito baixos, na operação de linha de financiamento em moeda estrangeira as duas pontas, venda na concessão e compra na recompra, são fixadas e não ficam sujeitas a especulações, havendo entre ambas o afastamento relativo ao juro implícito, que assim também recebe um efeito positivo na contenção das exacerbações.

Evidentemente, é sabido e conhecido que os bancos estão com as suas posições de tomada de linhas de financiamentos em moeda estrangeira com recompra, até sexta, zeradas e as posições de câmbio “vendidas” tão somente, data base 15/6, US$. 204,0 Mi, e que a demanda de imediato seria baixa, porém com as contínuas saídas de recursos da Bovespa é esperado aumento da demanda no mercado à vista.

A questão da oferta de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra, focando dar forte evidência de que não haverá falta de liquidez no mercado a vista, deve ser considerada relevante e absolutamente necessária como ATITUDE da autoridade monetária para dar mostras efetivas de que o Brasil está imune de ocorrência de crise cambial.

À margem desta demonstração efetiva, combate de forma eficaz e mais efetiva do que somente com a oferta de swaps, o agravamento do viés de alta do preço da moeda, que perde submissão aos movimentos especulativos já que nas linhas estabelece preço de venda a vista e de compra futuro coibindo excessos pela falta de parâmetros e que “contaminam” o ambiente cambial com as nefastas perspectivas econômicas e políticas presentes.

Desta forma, a formação do preço da moeda americana fica mais protegida e identificada com os efetivos fundamentos descontaminados de pressão fortemente especulativa que provoca exacerbações, e, também da exacerbação dos reflexos de ocorrências pertinentes no cenário global.

É natural que nas primeiras incursões com ofertas de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra, em razão da demanda no mercado a vista estar ainda em nível baixo, que haja uma relutância por parte dos bancos até para um melhor ajuste da formação das taxas cambiais envolvendo juro para consolidação das operações, mas certamente havendo, como se espera, aumento da demanda os bancos tomarão todas as ofertas, visto que além de prover a liquidez no mercado à vista de câmbio, promove excelente oportunidade de operação tesouraria com captação de reais a custo interessante.

O BC está agora na estratégia correta, utilizando os dois instrumentos – swaps cambiais e oferta de linhas -, mas acreditamos que deve reduzir fortemente a oferta de swaps, visto que há a percepção de que o mercado esteja sobreprotegido devido a oferta excessiva ocorrida.

Evidentemente que os tomadores dos swaps que o fizeram com intuito especulativo nos vencimentos dos contratos de swaps buscarão aviltar as taxas do dólar para garantir lucros, mas a nova atitude do BC pode frustrar parte desta expectativa pelo menos.

Portanto, entendemos que agora o BC esteja com a atuação ajustada e adequada para o momento, contudo, suas intervenções devem ser realmente discricionárias, sem prévios avisos, de preferência no mesmo dia, sem quaisquer antecipações, inclusive quantitativas.

Retirar recursos do país é consequência natural dos riscos em perspectiva em torno da economia brasileira e oportunidades melhores no mercado americano em especial, mas, face ao contraditório existente no país, não passa pela possibilidade de estabelecer crise cambial no país.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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