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É preciso moderação com entusiasmo excessivo!

Afinal, o que aconteceu em termos reais e efetivos que determine tamanho entusiasmo?

A rigor, nada! O governo como já o fez inúmeras vezes reviu de forma mais sensata a sua meta para o superávit primário, situando-a numa faixa considerada exequível e, segundo consta, por interferência direta da Presidenta Dilma, já que o Ministro Mantega a desejaria maior, o que, mais uma vez, a levaria ao não cumprimento.

Mas, é um compromisso, nada entregue, e as intenções são sempre as melhores, e a tradição brasileira recente é a do não cumprimento. Portanto, o razoável é não entregar o crédito sem a entrega.

O percentual de 1,9% foi bem aceito pelo mercado financeiro, contudo há uma grande corrente que acredita que será realizável no entorno de 1,5%, até porque há desafios não quantificados a serem enfrentados no percurso.

Os cortes orçamentários também são indicativos, havendo pontos questionáveis quanto o que será efetivamente cortado e o quanto se tratarão de ajuste natural numa economia que crescendo menos, arrecadará menos e terá que gastar menos, pois ao contrário impactará sobre o superávit primário objetivado.

As perspectivas de aumento imediato de investimentos estrangeiros parecem fora do ponto.

O Banco Mundial tem opinião de que a melhora nos ricos reduzirá capital para os emergentes nos próximos meses, na medida em que as políticas monetárias se normalizarem naqueles países. Faz senso.

O tradicional jornal britânico Financial Times aponta que o Brasil perde apelo em captação de private equity e venture capital, reportando queda que já vem ocorrendo e a concorrência de outros emergentes como México, Colômbia e Peru. Faz senso.

Por outro lado, gestoras de private equity como a Advent Internacional, afirmam que é bom momento para “comprar Brasil”. Só que esta, em especial, já o fez com a aquisição da Dudalina e na farmacêutica United Medical. Não parece razoável que um fundo que busca oportunidades pré-anuncie que este é o momento, pois iria contra os seus próprios interesses, pois alavancaria os preços antecipadamente.

O Presidente do BC, Alexandre Tombini, expressou pontual e correto ponto de vista no fechamento do encontro do G-20, destacando que a desvalorização do real é parte da solução e não do problema. E colocou o que temos utilizado para fundamentar a nossa visão de tendência em perspectiva de desvalorização do real: “ o ajuste cambial reflete o inicio da redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos, uma mudança que para Tombini, será boa para a economia mundial.

A visão de Tombini é bastante realista e precisa, pois se temos déficit em transações corrente e o real se desvalorizou, e no nosso entender deverá continuar se desvalorizando pois o movimento de refluxo dos investimentos voláteis estrangeiros ainda terá intensificação, a taxa resulta estimulante as exportações e desestimulantes às importações. Na mesma linha, poderá estimular os investimentos em conta de capital pela melhora da taxa de conversibilidade, embora o baixo crescimento seja um fator de desestimulo para este fluxo no momento.

O JPMorgan que foi, segundo o jornal Valor de hoje, um dos que acionaram o “stop loss”, que mencionamos ter ocorrido no dia do anúncio das medidas pelo governo, considera que, apesar do desempenho melhor da moeda brasileira na semana, o balanço de riscos indica ainda uma divisa mais depreciada. Salienta ainda, que o “elevado” risco na execução das metas é um dos principais motivos para a visão mais conservadora do banco com relação ao real. Além desse fator, a pressão sobre divisas emergentes, que deve continuar em meio a condições globais de liquidez mais apertadas, e o risco de rebaixamento do “rating” soberano do Brasil são outros dos pontos citados para a perspectiva negativa sobre a moeda local.

O posicionamento do banqueiro americano, experiente em Brasil, tem alinhamento com os pontos de vista que temos defendido e colocado como fundamento para a perspectiva de que o real ainda sofrerá pressão de depreciação, acreditando mesmo que não haja possibilidade de passar incólume a um momento de saída de divisas que deverá ocorrer no mercado de câmbio brasileiro.

A manifestação do Presidente Tombini do BC fortalece a nossa percepção de que o BC, em caso de intensificação da demanda, atuará para monitorar a liquidez, mas não com a postura de enfrentamento de contenção da formação do preço com viés de alta. Seria inoportuno o BC dispor de reservas cambiais além do absolutamente necessário, até porque o momento ainda sinaliza perspectiva adversa de fluxos de recursos estrangeiros para o país.

Nossa projeção para o dólar ao final do ano continua sendo de R$ 2,60.

Por isso, nos parece precoce o entendimento de que a SELIC poderá desacelerar. Pode ocorrer no curtíssimo prazo, com uma alta de tão somente 0,25% na próxima reunião, mas não se deve descartar uma elevação maior ao longo do ano, visto que a inflação precisará ser rigorosamente combatida para que efetivamente e finalmente aponte viés tendente à meta central. Nossa projeção para o final do ano continua sendo de 11,50%.              

O Brasil que já registra déficit na balança comercial em torno de US$ 6,0 Bi apontou dramático déficit em transações correntes de US$ 11,591 Bi em janeiro, superando a já pessimista previsão do BC de US$ 11,0 Bi. A previsão do BC para o déficit no ano é de US$ 78,0 Bi, enquanto o FOCUS ainda o projeta em US$ 75,0 Bi. No nosso entendimento a projeção do BC está adequada.

Os IED´s registraram US$ 3,532 Bi como investimento propriamente dito na participação no capital e mais US$ 1,565 Bi de empréstimos intercompanies, totalizando pelo critério do BC US$ 5,098 Bi. O FOCUS tem projeção de US$ 58,80 Bi para este ano, sendo nossa projeção um pouco abaixo – entre US$ 50,0 Bi a US$ 55,0 Bi – tendo em vista a perspectiva de baixíssimo crescimento do nosso PIB e a menor liquidez de capitais no mercado internacional, além da elevação dos custos.

Os gastos com turismo, embora tenham apresentado discreta queda, ainda são elevados e incompatíveis com um país que vem apresentando insuficiência de fluxos para financiar o seu déficit em transações correntes e continuam sugerindo que haja uma melhor análise por parte das autoridades monetárias.

O FOCUS divulgado hoje contempla agravamento na projeção do IPCA para o final do ano elevando-o de 5,93% para 6,0% e para 12 meses de 6,05% para 6,11%.      Eleva também a projeção para o preço do US$ ao final do ano elevando-a de R$ 2,48 para R$ 2,50. Mantém a SELIC ainda em 11,25%. Promove, mais uma vez, revisão declinante da projeção para o PIB deste ano de 1,79% para 1,67%, bem abaixo da projetada pelo governo na semana passada. Reduz a projeção da Produção Industrial de 1,93% para 1,87%.

Enfim, nada mudou a não ser o fato novo de compromissos revisados e que precisam ser efetivamente entregues pelo governo. Afinal, o passado recente não justifica empolgações, pois o governo não tem entregue resultados de gestão macroeconômica, em especial fiscal, de forma adequada.

O Brasil de hoje continua com os mesmos problemas de antes do anúncio do programa de ajustes, então nos parece razoável que à medida que “entregue” o comprometimento receba gradualmente o crédito da melhora, caso contrário a reação deve ser de contenção da evolução do negativismo e uma fase de observação para que seja avaliada a gestão do governo objetivando o cumprimento do estabelecido no ajuste.

Portanto, a apreciação do preço do real é carente de fundamentos.

Desta forma, É PRECISO MODERAÇÃO COM ENTUSIASMO EXCESSIVO!

 

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