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Dólar em alta ancorado na busca por segurança em detrimento da rentabilidade!

A CHINA, popularmente, “mostrou a ponta da faca” ao “deixar ocorrer” a desvalorização de sua moeda frente ao dólar e sinalizar um ensaio de “guerra cambial”, demonstrando para os Estados Unidos, ante a arrogância do Presidente Trump, que tem estratégias para contraposição ao tarifaço imposto unilateralmente pelo governo americano.

O mundo global sentiu o risco implícito e se tornou defensivo, e quando há insegurança o “porto seguro” é o dólar, sem menosprezar o ouro que, contudo, é um ativo mais elitizado, e nestas circunstância prevalece a segurança e não a rentabilidade, por isso será de pouca valia uma eventual reação do FED americano reduzindo mais intensamente o juro americano.

Por outro lado, há insinuações não confirmadas de que o governo chinês poderia adotar redução de juro sobre o yuan, e neste caso, diferentemente do efeito de eventual redução da taxa de juro pelo FED, a moeda chinesa aumentaria a propensão a desvalorização, acentuando pelo mercado o que o governo chinês pode fazer direcionando a fixação da taxa de conversão diária do yuan, mas de forma mais sutil e mais com embasamento de efeito e reação do mercado.

Este não é um assunto que se resolva tão imediatamente quanto desejado e pode ser mantido como uma “ameaça” convivendo marginalmente com as discussões de cunho comercial entre os governos chinês e americano.

A CHINA é a segunda potência mundial, mas não se pode perder de vista que tem reservas cambiais da ordem de US$ 3,1 trilhão e é a grande financiadora da dívida americana com aquisição de T-Bills..

Este é um cenário possível de ser percebido quando emite sinais iniciais, mas criado o ambiente de insegurança, torna-se difícil de prognosticar-se o término.

Certamente, o Presidente Trump quando iniciou a provocativa intervenção intempestiva nas negociações comerciais entre China e Estados Unidos, não teve a percepção das atitudes defensivas que a China poderia adotar e nem das efetivas repercussões das mesmas num ambiente de economia global já bastante claudicante e preocupante.

O contexto prospectivo para o Brasil, como país emergente, se altera fortemente ao sinalizar a generalização de postura fortemente defensiva dos países e investidores atinge de forma significativa os países emergentes, que passam a sofrer forte aversão ao risco que neutraliza os fluxos de investimentos em conta de capital e mesmo como rentistas, ao mesmo tempo em que a prevalência do ambiente de aversão ao risco tende a provocar o desinvestimento locado nos mesmos com o objetivo de rentabilidade, que passa a ser preterida pela segurança.

O ambiente fica desfavorável para a Bovespa que é carente de fluxo de investidores estrangeiros para consolidar tendência de alta, sem o que não tem tração própria unicamente com investidores nacionais. Tende, então, a ter comportamento extremamente volátil, sinalizando operações de “day trade” com quedas alternando altas e vice-versa dentro de parâmetros delimitados, mas sem impulso próprio para romper os limites contumazes.

O mercado de juro que vem perdendo atratividade para os investidores externos tendo em vista o estreitamento em relação ao juro externo, naturalmente será envolvido, também, pela aversão ao risco.

E isto ocorre num ambiente em que o Brasil já vem registrando fluxo cambial negativo, que, então, passa a ser visto como fortemente improvável que ocorra reversão deste quadro, sendo bastante provável o risco de elevação dos montantes de fluxo negativo, dado que a situação deve neutralizar ainda mais a retração de fluxos para o país.

O fluxo cambial total até o dia 2 de agosto está negativo em US$ 2,194 Bi que se contrapõe ao fluxo cambial total até a mesma data em 2018 quando atingia saldo positivo US$ 29,184 Bi, portanto neste ano há uma perda comparativa de US$ 31,378 Bi.

Agrega-se a este quadro adverso o fato de que o estreitamento da taxa de juro americana em relação a taxa de juro brasileira, base do cupom cambial (juro em dólar no país) pressionar o custo deste instrumento cupom cambial, e, em concomitância tendem a ficar menos acessíveis linhas externas em moeda estrangeira para os bancos, que neste momento carregam posições vendidas (a descoberto) superiores a US$ 27,0 Bi, parcialmente financiadas com linhas do BC. A aversão poderá aviltar os custos das linhas externas e torná-las até menos disponíveis e isto poderá pressionar o custo do cupom e exigir ação mais contundente do BC, com oferta de linhas e até mesmo de moeda.

Embora o país tenha um ambiente inflacionário baixo e estável e risco CDS 5 anos em torno de 137,0 pontos e juro baixo, Reforma da Previdência em andamento e em elaboração Reforma Tributária, todos estes fatores não têm capacidade de impulsionar a retomada da atividade econômica de forma imediata, visto que falta determinação ao setor produtivo para o investimento, face a elevada capacidade ociosa e estoques, e ao governo por carência de recursos.

O país está carente de potencial de consumo por parte da sua população, e, a liberação do FGTS denota ser um paliativo que acabará sendo absorvido pela liquidação parcial do endividamento da população.

O governo tem adotado iniciativas na linha correta e imprescindíveis para o país, mas a retomada depende de outros fatores imprescindíveis que estão fragilizados, e, agora é preciso avaliar o quanto esta situação defensiva do mercado global poderá comprometer as intenções do governo brasileiro em desenvolver seu programa de privatizações, se se tornar relativamente duradoura.

O fato concreto, no nosso entendimento, é que enquanto prevalecer insegurança oriunda dos embates entre Estados Unidos e China, que podem agora envolver mais diretamente uma “guerra cambial” com interferência chinesa diretamente desvalorizando a taxa do yuan ou indiretamente por indução com redução de taxa de juro, será muito difícil os países emergentes evitar a depreciação de suas moedas frente ao dólar americano.

O Brasil vai ter que se mostrar criativo para superar este quadro, e por isso é que não descartamos a utilização de uma pequena parcela das reservas cambiais para geração de recursos para o governo promover investimentos que gerem emprego, renda e consumo e desta forma estimule o setor privado, também, ao investimento.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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