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Como se tudo fosse atualmente somente a questão política

O Brasil, seus governantes e grande parte dos analistas fazendo coro, tem sistematicamente procurado atribuir suas mazelas a causas externas, como se tudo por aqui transcorresse normalmente e de forma perfeita, e mais recentemente, tudo passou a ser culpa da dissonância entre anseios do governo e postura adversa do Congresso.

Há certo vício intencional de desfocar o “status quo” do estado extremamente deteriorado de sua economia, cuja recuperação tende a demandar minimamente dois ou três anos, desde que consiga reabilitar-se da imensidão de erros de gestão cometidos ao longo dos últimos anos  e houver acertos que alcancem as respostas esperadas do setor produtivo, o que não parece tão fácil, já que  foi conduzido a um extremo quase caótico, ao mesmo tempo em que o governo impulsionou gastos de forma absolutamente inadequada, conduzindo o país a uma relevante deterioração fiscal de difícil reversão no curto/médio prazos.

Acreditamos mesmo que atualmente, em sã consciência, não há como construir-se projeções com credibilidade, tendo em vista que as perspectivas que se vislumbram colocam à frente desafios e riscos de piora bastante consistentes, que precisarão ser superados antes que se possam considerar chances de melhora sustentável.

O sentimento predominante, por vezes contido nas manifestações, é que primeiro teremos uma piora substantiva, para depois, sem que se saiba quando, aconteçam sinais de melhora.

Na realidade tudo leva a crer que o país conviverá de forma inevitável e consistente com uma recessão bastante intensa, que, a rigor, emite seus sinais consequentes iniciais.

Desemprego crescente provocando queda de renda e de consumo tendem a ser mais efetivos na contenção das pressões inflacionárias. O aumento sistemicamente pleiteado pelo mercado financeiro como instrumento principal tende a perder eficácia, na medida em que haverá desinteresse no investimento por parte do setor produtivo e demanda cadente de crédito para consumo, fragilizando a importância do juro.

Parece que se distraindo com atribuições a causas externas ou maximizando o fator político interno, fica esquecido o Brasil que é o grande problema do Brasil, com sua economia e política fiscal deterioradas e a consistente incapacidade do setor produtivo dar respostas arrecadatórias objetivas pelo governo.

Difícil aqui dentro e com forte observação do exterior, havendo consistente risco de perda do grau de investimento, o que seria extremamente danoso aos interesses do país, como reflexo do péssimo desempenho fiscal, e ao mesmo tempo, probabilidade crescente de elevação do juro americano que tenderia a motivar a saída mais intensa de recursos externos alocados no país.

Nada assegura ao país, na medida em que não evidencia capacidade de reversão do quadro fiscal, que os fundos de capitais estrangeiros alocados no país e condicionados à existência de grau de investimento possam deixar o país antes mesmo que o fato se torne concreto, numa atitude prudencial, e com isto motivar que outros fundos também sigam o mesmo caminho.

Num ambiente de economia em recessão e deteriorada com um quadro desafiador de recuperação, o país continuará sendo pouco atrativo aos investidores estrangeiros focados no setor produtivo.

Até mesmo aos investidores estrangeiros especulativos pode ser menos atraente pela fragilidade fiscal, que impacta no risco tendo em vista que o CDS do Brasil está acima de 300 pontos, nível este de países que não detém grau de investimento e acima da média normal dos países emergentes. O risco também desponta na variação cambial que pode neutralizar as oportunidades de ganho, e a desvalorização do real sinaliza que ainda está distante do final.

Na área comercial o Brasil com o seu setor produtivo exportador combalido e com as commodities com depreciação de preços, tendo o seu maior parceiro comercial, a China, com um quadro de perda de atividade econômica, não se pode esperar saldos altamente contributivos.

Então a moeda americana tem efetivo viés de alta que ainda deve perdurar, passando a se intensificar no mercado à vista, onde demandará liquidez de divisas efetivas, e menos no mercado futuro, onde demanda swaps cambiais e contratos a termo.

Os números de instrumentos de proteção dos passivos em moeda estrangeira são exuberantes, evidenciando que grande parcela da demanda está atendida e tende a ser reduzida na medida em que estes recursos forem deixando o país, o que permitirá ao BC a redução da oferta e também na CETIP com a realização dos contratos a termo, em decorrência da retração dos negócios.

Então, o aparente efeito causado recentemente com a depreciação do preço da moeda americana pela fala do Diretor do BC, com posterior aumento da oferta de swaps cambiais para rolagem, e mesmo a construção de um ambiente mais cordato politicamente, são meramente “panos de fundo” para o ocorrido, que na realidade deixou evidente um movimento estratégico do mercado para valer-se da oportunidade de otimizar ganho com variação cambial.

Este movimento está ficando muito evidente, e, como destacamos em nossa abordagem anterior quando do anúncio da medida do BC, surgiu a brecha para “ganhos de oportunidade”, ou seja,  impulsionar movimentos oscilatórios da taxa cambial com o objetivo de ampliação de ganho e posterior retorno à sua realidade.

É inquestionável que teremos pressão de apreciação do preço da moeda americana em perspectiva a partir do mercado à vista, o que representa uma mudança já que o preço no mercado brasileiro é normalmente formado a partir do mercado futuro, e o BC, num ambiente que antevemos de fluxos cambiais negativos, terá que utilizar suas reservas cambiais, seja de forma indireta fornecendo linhas de financiamentos em moeda estrangeira para que os bancos ampliem suas posições vendidas gerando liquidez, ou assumindo de forma objetiva a utilização das reservas cambiais, vendendo dólares a vista ao mercado.

O Brasil vem executando estratégias que evitem que contabilmente reduza o estoque de reservas cambiais, mas conceder linhas de financiamentos ou mesmo se utilizar operações a termo, num ambiente de fluxo cambial fortemente tendente a negativo fica implícito de que o país é, em ultima análise, o responsável pela cobertura dos posicionamentos dos bancos, sendo, portanto, um redutor das reservas cambiais.

E está poderá ser uma realidade que o país terá que enfrentar, a despeito de manifestações de gestores do governo de que as reservas cambiais são intocáveis, o que é algo extremamente relativo, mas é compreensível enquanto a necessidade não se tornar presente.

Enfim, é absolutamente necessário que as contas externas, seus fluxos e tendências passem a serem observadas de forma frontal, rigorosa, sem buscar-se despistes com este ou aquele motivo externo não impactante e que não se deixe de considerar efetivamente os que poderão impactar e não se desfoque com o superdimensionamento da questão política, que é absolutamente relevante para a busca de saídas para a economia do país, mas que não alterará o ambiente desfavorável em termos de câmbio prevalecente no momento.

É imperativo que se analise o contexto global com perspectivas realistas, por isso temos sido críticos às projeções enunciadas pelo Boletim FOCUS. Primeiro, porque entendemos que o ambiente de incertezas presente retira credibilidade das projeções, segundo, porque é inimaginável projetar-se a queda de um IPCA neste ano em torno de 10% para algo como 5,43% em 2016, uma desinflação extremamente demasiada. Da mesma forma, prever-se uma taxa cambial de R$ 3,40 para o final deste ano num ambiente extremamente adverso neste campo como o atual e R$ 3,50 para o final do ano de 2016, nos parecem extremamente desprovidas de fundamentos e tem um claro objetivo colaborativo à margem da realidade para buscar alterar as expectativas.

 

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